sexta-feira, 21 de fevereiro de 2025

O juízo para o discernimento entre o bem e o mal


Hannah Arendt coloca o "juízo" como uma capacidade essencial do pensamento humano, especialmente em contextos que envolvem discernimento moral e político. Em sua análise, Arendt entende o juízo como a faculdade de avaliar e discernir entre o bem e o mal, entre o certo e o errado, mas não apenas de forma abstrata e universal, mas também em situações concretas. Arendt é especialmente influenciada por Kant, mas em vez de adotar a noção kantiana do juízo estético, ela transpõe essa ideia para a esfera política e ética. Para ela, o juízo é um ato de cognição que não se baseia em regras ou normas previamente estabelecidas, mas na capacidade de refletir e considerar o ponto de vista dos outros. Esse tipo de juízo se manifesta, por exemplo, no que ela chamou de "pensamento representativo", que envolve a tentativa de pensar a partir da perspectiva de outras pessoas, de modo a formar uma opinião mais abrangente e sensata sobre uma questão.

Em obras como Eichmann em Jerusalém, Arendt examina como o fracasso do juízo moral pode levar a um comportamento que, na superfície, parece obedecer às regras e ao dever, mas na verdade reflete uma ausência de pensamento crítico sobre as consequências e a ética das ações. Ela conclui que figuras como Adolf Eichmann não eram necessariamente motivadas por uma ideologia maligna consciente, mas pela incapacidade de fazer um juízo verdadeiro sobre o bem e o mal — uma espécie de "banalidade do mal". Portanto, para Arendt, o juízo é um exercício de discernimento que vai além da aplicação mecânica de normas e envolve uma reflexão ativa e profunda sobre o que é certo em situações específicas. Ela vê esse tipo de juízo como um antídoto contra a conformidade e a obediência cega, fundamentais para a manutenção de valores morais e para a responsabilidade individual em um mundo plural.

Arendt encontra na faculdade de julgar de Kant a melhor representação da nossa faculdade quando se trata de calçar os sapatos do Outro. Em sua interpretação, Arendt se apropria da ideia kantiana de "juízo reflexivo", que, ao contrário do "juízo determinante" (no qual as regras preexistentes são aplicadas a casos particulares), exige que cada situação seja julgada em sua singularidade, sem normas universais previamente dadas. Para Kant, o juízo reflexivo é a capacidade de julgar o particular sem recorrer a uma regra geral, especialmente no campo estético, onde cada obra de arte é única e precisa ser apreciada em seu próprio contexto. Arendt toma esse conceito e o leva para a esfera ética e política. Ela vê o juízo reflexivo como uma habilidade que permite aos indivíduos avaliar as situações concretas e formar opiniões considerando a pluralidade humana. A partir disso, ela enfatiza o "pensamento representativo", uma expressão que significa imaginar-se no lugar do outro, entendendo a realidade por meio das perspectivas alheias.

Essa capacidade de julgar "calçando os sapatos do outro" é central para Arendt porque exige que o indivíduo ultrapasse os seus interesses e preconceitos pessoais para avaliar o mundo de maneira mais ampla e inclusiva. Em contextos políticos e éticos, como os julgamentos morais durante e após o Holocausto, Arendt percebeu que muitos dos responsáveis por crimes contra a humanidade agiram sem verdadeira reflexão sobre o impacto de suas ações. A ausência dessa faculdade de juízo, para Arendt, é o que permite o "mal banal" — atos que não são cometidos por ódio ativo, mas por uma falha em pensar e julgar com base na experiência e no sofrimento alheios.

Assim, a faculdade de julgar, inspirada na ideia kantiana, não se trata apenas de aplicar leis ou códigos morais, mas de uma prática contínua de reflexão que considera a pluralidade das experiências humanas. Esse juízo, segundo Arendt, é a base para uma responsabilidade moral verdadeira em um mundo onde as normas podem ser insuficientes ou até destrutivas, sendo necessário que cada indivíduo desenvolva a capacidade de "calçar os sapatos do outro" para promover uma convivência humana justa e ética.

Edmund Burke e a Revolução Francesa

 

Por mais respeitável que um ativista de esquerda tributário dos ideais da Revolução de 1789 seja, Edmund Burke nunca se impressionaria. Ele sempre afirmou que a monarquia britânica pedia meças à República Francesa. Burke foi um dos primeiros críticos da Revolução, argumentando que mudanças radicais e abruptas levam sempre a uma desordem social. O que ele dava importância era à Tradição, e à prudência que providenciava por uma evolução gradual do processo político. Ele via a Revolução Francesa como um afastamento perigoso dos valores que sustentavam a ordem social e política, acreditando que a busca por uma igualdade absoluta só resultaria em tirania e caos. Em contraste, a monarquia britânica, segundo Burke, exemplificava uma estabilidade construída sobre a continuidade das instituições e das tradições, evitando os excessos que ele associava à Revolução.

Essa perspectiva é relevante quando se considera o legado das duas nações. A monarquia britânica manteve uma certa estabilidade e evolução política ao longo dos séculos, enquanto a França passou por várias mudanças radicais e tumultuosas após a revolução. Burke argumentaria que essa estabilidade é uma prova de que a evolução lenta e cuidadosa, em vez de uma revolução abrupta, é mais sustentável para o desenvolvimento social e político. A preferência pelas ideias de Burke, que valorizam a continuidade e a prudência, em oposição aos ideais revolucionários mais radicais, revela uma preferência por um caminho mais equilibrado e menos disruptivo na busca por justiça e progresso social. Essa é a preferência das pessoas que se classificam como moderadas. Daí que seja duvidosa a afirmação de que Rousseau e toda a comandita do Terror da Revolução Francesa, afinal os inventores dos Direitos Humanos, sejam pura e simplesmente exemplos a seguir.

Associar Rousseau e outros pensadores que influenciaram a Revolução Francesa, como os jacobinos, aos melhores exemplos da moderação progressista, pode ser uma simplificação. Embora eles tenham sido fundamentais para o desenvolvimento de conceitos como liberdade, igualdade e direitos humanos, há uma complexidade em suas ideias que não se encaixa perfeitamente nas categorias políticas que utilizamos hoje. Jean-Jacques Rousseau, por exemplo, embora tenha influenciado profundamente os ideais revolucionários, também defendia uma forma de retorno a uma ordem mais natural e comunal, o que não necessariamente se alinha com as ideias progressistas e revolucionárias da esquerda contemporânea. Seus pensamentos sobre a "vontade geral" e a necessidade de um governo forte para garantir a liberdade coletiva têm um caráter que pode ser interpretado como autoritário, mas também emancipatório, dependendo do contexto. A Revolução Francesa, especialmente durante o período do Terror, liderado por figuras como Robespierre, assumiu um caráter violento e radical que, para muitos, traiu os princípios de liberdade e direitos humanos que originalmente motivaram a revolução. As medidas autoritárias e a repressão daqueles que eram vistos como inimigos da revolução contradizem diretamente os ideais de direitos humanos universais que também surgiram desse movimento.

É interessante notar que, embora os ideais da Revolução Francesa sejam frequentemente associados à esquerda política, os próprios líderes do movimento não se viam necessariamente como "esquerdistas" no sentido moderno do termo. Eles estavam mais preocupados com o derrube do Ancien Régime e com a construção de uma nova ordem social que, em sua visão, corrigisse as injustiças e desigualdades daquela época. Assim, a associação simples e direta de Rousseau e dos líderes do Terror com a esquerda política é, de facto, problemática. Eles eram mais uma síntese de ideias que buscavam uma nova ordem social, e essa busca envolvia ao mesmo tempo elementos igualitários e métodos autoritários que não se encaixam facilmente na dicotomia categórica: esquerda_direita.

Os impulsos egoístas e a indiferença em relação às condições dos outros destacam-se na história, o que pode levar à conclusão de que, em essência, a humanidade carece de uma bondade inerente. A expressão "a exceção confirma a regra" é frequentemente usada para destacar que a bondade ou o altruísmo são raras. Esta é a visão do pessimista antropológico, onde a natureza humana é vista predominantemente como negativa, em que os atos de bondade são apenas desvios pontuais de um comportamento que não tem nada a ver com a bondade. Apesar de gestos individuais de generosidade, a estrutura subjacente da sociedade e da história está marcada por exploração, violência e uma busca incessante pelo poder. Diz-se de forma desassombrada que, a igualdade jacobina apregoada com tanto alarido, é gente a mangar com gente. 

Os céticos são assim, para com movimentos que proclamam ideais de igualdade. Cultivam uma desconfiança profunda em relação às motivações que os impulsionam. De facto, muitos críticos argumentam que, por trás do discurso sobre igualdade e justiça social, muitas vezes se escondem interesses próprios e uma tentativa de obter vantagens à custa do esforço dos outros. Edmund Burke era o que fazia, de certo modo para com o movimento revolucionário francês, vendo nele não uma busca genuína por justiça, mas uma destruição da ordem social em nome de um poder centralizado e tirânico. Para Burke, os revolucionários, ao prometerem liberdade e igualdade, acabavam por concentrar o poder nas mãos de uma nova elite, usando a retórica igualitária como uma fachada para camuflar as suas próprias ambições e tendência para explorar a sociedade de uma maneira diferente.

É legítimo pensar que ninguém dá nada a ninguém, especialmente se considerarmos o contexto histórico e as motivações políticas que influenciaram os autores da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, de 1789. Muitos dos redactores e líderes da Revolução Francesa eram profundamente ressentidos com a nobreza e o sistema de privilégios do Antigo Regime, que mantinha uma rígida hierarquia social e uma distribuição desigual de poder e recursos. O ódio à nobreza e ao clero, que eram vistos como os pilares de uma sociedade injusta e opressiva, foi um motor poderoso para a mobilização revolucionária. É possível que, mais do que um compromisso autêntico com a igualdade para todos, o que movia muitos desses revolucionários fosse um desejo de derrubar essa elite e redistribuir o poder. A retórica igualitária pode ter sido, em parte, um instrumento para justificar essa mudança radical, canalizando o ressentimento e a frustração das classes menos privilegiadas contra aqueles que simbolizavam o antigo regime.

Burke via nos revolucionários um desejo de destruição e vingança contra as classes dominantes, mais do que um amor genuíno pela liberdade e igualdade. De certa forma, isso sugere que o impulso igualitário estava, ao menos parcialmente, envenenado pelo ressentimento e pela sede de poder, mais do que fundamentado em uma convicção sincera nos valores que pregavam. Dessa perspectiva, a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão poderia ser vista não apenas como um marco do progresso humano, mas também como uma arma ideológica contra uma ordem que precisava ser destruída, movida mais pelo ódio ao privilégio do que por um amor autêntico pela igualdade universal.

Durante a Revolução Francesa a escassez de alimentos e a especulação sobre os preços dos bens de consumo eram problemas graves, especialmente nas cidades como Paris, onde a população enfrentava a fome enquanto os comerciantes e proprietários se beneficiavam da crise. Muitos desses comerciantes e proprietários viam na instabilidade política e económica uma oportunidade para acumular riqueza, armazenando produtos essenciais e vendendo-os a preços exorbitantes. Esse comportamento exacerbava a miséria do povo, que já sofria com a inflação e a desvalorização da moeda. O açambarcamento era uma das principais causas de revolta entre as classes mais baixas, que viam nisso uma traição ao espírito de igualdade e fraternidade proclamado pela Revolução. Essa realidade contribuiu para o radicalismo da revolução e a ascensão de líderes como Robespierre, que defendiam medidas drásticas contra os "inimigos do povo" internos e externos. A Lei do Máximo Geral, por exemplo, foi uma tentativa de controlar os preços dos alimentos e outros bens essenciais para evitar essa especulação, mas a sua implementação foi difícil e muitas vezes ineficaz.

 Esses eventos revelam uma contradição entre os ideais revolucionários de igualdade e a prática económica daqueles que ainda se agarravam a seus interesses pessoais. Enquanto a Revolução pregava liberdade e justiça para todos, muitos que tinham meios económicos exploravam a situação para seu próprio ganho, o que alimentava a desconfiança e o ódio populares. Isso mostra como, muitas vezes, os interesses materiais podem prevalecer sobre os princípios ideológicos, mesmo em tempos de mudanças radicais.

Tanta insatisfação também cansa

 

Parece que estamos num novo ciclo de efervescência social, em que manifestações se tornam quase um reflexo automático diante de qualquer questão política, económica ou social. Isso pode ser visto como um sintoma de insatisfação difusa, mas também como um sinal de que as sociedades estão fragmentadas e polarizadas, sem canais institucionais eficazes para a resolução de conflitos.

Já houve momentos assim na História – o Maio de 68 na França, as grandes manifestações nos EUA contra a Guerra do Vietname, ou até mais recentemente, os protestos de 2011 (Primavera Árabe, Indignados na Espanha, Occupy Wall Street). O problema é que muitos desses movimentos, apesar da mobilização intensa, não conseguiram produzir mudanças estruturais duradouras, porque lhes faltava um projeto claro ou porque foram cooptados pelo sistema.

Muitas vezes, agitar águas pantanosas apenas espalha o lodo sem purificá-las. A sensação de constante agitação pode criar a ilusão de mudança, quando, na verdade, só amplia o caos e a desorientação coletiva. O problema é que essas manifestações, muitas vezes sem liderança clara ou objetivos realistas, acabam em terreno fértil para oportunistas, ou populistas, sejam políticos ou grupos que se aproveitam da confusão para ganhar influência. Além disso, o desgaste provocado por protestos contínuos pode levar à banalização do próprio ato de manifestação, tornando-o inócuo, esvaziado de qualquer impacto significativo. E no fundo, há um efeito colateral preocupante: em vez de canalizar as energias para soluções construtivas, o excesso de manifestações pode contribuir para um cansaço generalizado e uma descrença na possibilidade de qualquer transformação real. 

Pode haver muitas razões legítimas para protestar, mas, quando a estrutura social já está corroída, gritar não muda nada — apenas dá mais ruído ao colapso. Lembra o fim de outras civilizações que chegaram a um ponto em que a contestação se tornou permanente, mas sem força para evitar o desmoronamento. No fim do Império Romano do Ocidente, por exemplo, havia revoltas, protestos e disputas internas constantes, mas nada disso reverteu a decadência. O mesmo aconteceu na União Soviética nos anos 80: o povo podia estar insatisfeito, mas já não havia energia coletiva para salvar o sistema.

Ao cidadão comum, eu diria de bom senso, o melhor é abrigar-se e deixar os foguetes passar por cima até os ânimos acalmarem. Quando a irracionalidade toma conta das ruas e das instituições, muitas vezes o melhor é ter a prudência do velho camponês: cuidar da própria casa, manter-se discreto e esperar que a poeira assente. Os grandes ciclos históricos mostram que momentos de agitação raramente trazem benefícios imediatos para o cidadão comum. São tempos perigosos, onde quem grita mais alto nem sempre tem razão, e onde a violência e a destruição muitas vezes substituem qualquer possibilidade de reforma real.

A História mostra que nova ordem virá, e aqueles que conseguirem adaptar-se têm mais probabilidade de encontrar um lugar nela. O darwinismo filosófico faz todo o sentido: a sobrevivência, mais do que a resistência cega, depende da capacidade de ler os sinais da mudança e ajustar-se ao inevitável. E há algo libertador no reconhecimento da nossa própria insignificância no meio das colossais forças da História. Se o nosso impacto é do tamanho de um nanómetro, talvez o melhor seja agir como tal: discreto, eficiente e resiliente. A poeira das grandes transições pode ser sufocante para quem se expõe demais, mas para quem sabe esperar, ela eventualmente assenta.

A História ensina que nenhuma nova ordem mundial nasce do nada ou apenas da vontade popular — ela é sempre o resultado de confrontos a que a correção chama negociações entre as grandes potências. O equilíbrio de forças é o que define o rumo do mundo, seja pela diplomacia, seja pela guerra. O curioso é que, apesar das mudanças tecnológicas e sociais, o mecanismo continua o mesmo desde a Paz de Vestfália. Depois veio o Congresso de Viena; Versalhes; Yalta; Potsdam. Agora, com o declínio da hegemonia ocidental e a ascensão de novos polos de poder, especialmente a China e os BRICS, a tendência é que essa nova ordem seja moldada mais por interesses multipolares do que por uma única potência dominante.

É claro que não será pacífica, a avaliar pelos protagonistas ainda existentes. Mandela aparece um de cem em cem anos. Os protagonistas atuais não têm nem a grandeza de um Mandela nem a visão de um Metternich ou um Roosevelt. O que vemos são líderes movidos por interesses imediatistas, nacionalismos exacerbados e uma obsessão pelo curto prazo. Isso torna quase impossível uma transição pacífica. Quando olhamos para o grande esquema das coisas, tudo isso é apenas uma dança efémera antes da entropia final. No longo prazo, nem impérios, nem ideologias, nem civilizações escapam ao destino comum da matéria e da vida. E nós, enquanto estamos por aqui, só podemos observar, adaptar-nos e, quem sabe, deixar um ou outro vestígio insignificante antes do silêncio absoluto.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2025

A ligação entre a França e a Síria desde as Cruzadas



É interessante lermos Ibn al-Qalanisi para percebermos que os franceses (os Franj como eram conhecidos no Levante) têm ligação à Síria desde os tempos das Cruzadas. Ibn al-Qalanisi (1071–1160) foi um historiador e escritor de Damasco. Morreu em Damasco e foi sepultado ao pé do Monte Qasioun. A leitura de autores como Ibn al-Qalanisi é essencial para compreendermos as dinâmicas históricas e culturais entre o Ocidente e o Médio Oriente. Em "História de Damasco" (Dhail Ta’rikh Dimashq), ele oferece uma visão valiosa sobre a interação entre os sírios e os Cruzados, conhecidos como Franj (ou Francos) no mundo islâmico. O relato de Ibn al-Qalanisi revela a complexidade dessas relações, que iam além do simples antagonismo, incluindo alianças estratégicas, trocas culturais e momentos de convivência.

Os francos, como parte das várias forças que formavam os Cruzados, estabeleceram estados latinos na região durante o período das Cruzadas (1096–1291), como o Condado de Edessa, o Principado de Antioquia e o Reino de Jerusalém. Essas ligações permaneceram na memória histórica, e posteriormente, durante o período do Mandato Francês na Síria e no Líbano (1920–1946), as relações franco-sírias reemergiram sob uma nova configuração de poder colonial. O estudo de Ibn al-Qalanisi também nos permite entender como os povos da região percebiam os Cruzados, não apenas como invasores religiosos, mas também como atores políticos que interagiam com as dinâmicas locais, negociando com emirados islâmicos e se inserindo nos conflitos internos da região. Essa continuidade histórica, que vai das Cruzadas ao período colonial, reforça a longa e complexa relação entre a França e a Síria, marcada por momentos de confronto, dominação e intercâmbio.

Nureddin (Nur ad-Din Mahmud Zangi) foi uma figura central durante o período das Cruzadas e desempenhou um papel crucial na resistência islâmica contra os Franj. Como governante de Alepo e, posteriormente, de Damasco, foi fundamental na unificação das forças islâmicas na Síria e na preparação do terreno para o sucesso de Saladino (Salah ad-Din al-Ayyubi), seu sucessor político e militar. Nureddin destacou-se na consolidação do controlo sobre as principais cidades sírias, como Alepo e Damasco, reduzindo as divisões internas entre os muçulmanos que frequentemente enfraqueciam a resistência contra os Cruzados. Nureddin não era apenas um líder militar, era também um reformador religioso. Ele promoveu o conceito de jihad como um esforço coletivo para expulsar os Cruzados e proteger o Islão. Além disso, foi um governante justo, promovendo reformas administrativas que garantiram estabilidade nos territórios que governava.

Nureddin obteve várias vitórias importantes contra os Cruzados, enfraquecendo significativamente os estados latinos na região. A sua vitória em Edessa (1144) foi um marco importante, pois resultou na reconquista do primeiro estado franco. Nureddin nomeou Saladino como seu representante no Egito, o que permitiu a união das forças sírias e egípcias contra os franceses. Embora Saladino se tornasse independente após a morte de Nureddin, é inegável que a base de poder foi construída sobre os alicerces criados por Nureddin. Ele construiu hospitais, escolas e mesquitas, incluindo a Madrasa Nuriyya em Damasco, que simbolizava o compromisso com o fortalecimento do Islão. Nureddin foi, sem dúvida, um dos grandes líderes da resistência islâmica contra os cristãos, combinando habilidades militares, políticas e religiosas. Sua visão de unificar o mundo islâmico frente à ameaça estrangeira moldou a história da época e pavimentou o caminho para as conquistas de Saladino.

Luís VII (1120–1180), rei da França de 1137 a 1180, também desempenhou um papel importante na época das Cruzadas, especialmente como um dos líderes da Segunda Cruzada (1147–1149). Seu envolvimento marcou um dos momentos em que a França reforçou a ligação histórica com o Levante, mas a campanha foi amplamente considerada um fracasso estratégico e militar. A Segunda Cruzada foi convocada em resposta à queda do Condado de Edessa para as forças de Nureddin em 1144, o que chocou a cristandade ocidental. Sob a influência de Bernardo de Claraval, Luís VII decidiu participar na Cruzada, tanto por devoção religiosa como por desejo de consolidar o seu papel como defensor da cristandade.

Luís VII liderou um exército ao lado de Conrado III, imperador do Sacro Império Romano-Germânico. Contudo, a cruzada foi marcada por dificuldades logísticas, confrontos com os bizantinos, e pesadas derrotas, especialmente na travessia da Anatólia, onde as forças dos Cruzados foram dizimadas pelas tropas muçulmanas. Ao chegar a Jerusalém, Luís participou de uma campanha para atacar Damasco (1148), mas a expedição foi mal organizada e fracassou em tomar a cidade, que era então um aliado potencial contra Nureddin. Esse insucesso marcou o fim da Segunda Cruzada, enfraquecendo ainda mais a posição dos estados francos na região. O fracasso da cruzada minou o prestígio de Luís VII, como líder militar, embora ele tenha mantido a sua imagem de monarca piedoso.

No contexto da oposição a figuras como Nureddin, o reinado de Luís VII destaca a luta desigual entre um mundo islâmico em processo de unificação e os Cristãos ocidentais fragmentados e mal preparados para sustentar os domínios a Oriente. Embora Luís VII não tenha alcançado grandes feitos militares, a cruzada reforçou os laços históricos e simbólicos da França com a Síria e a Terra Santa. Os cruzados franceses, conhecidos como Franj, desempenharam um papel predominante nos estados latinos, e a influência cultural, económica e religiosa dos franceses nessa região perdurou. A relação com a esposa, Leonor de Aquitânia, também se deteriorou durante a Cruzada. O casamento foi anulado pouco depois, em 1152, indo Leonor casar com Henrique II da Inglaterra, desencadeando rivalidades que moldariam um conflito entre a França e a Inglaterra por várias gerações.

Conrado III (1093–1152), rei dos Alemães e primeiro monarca da dinastia Hohenstaufen, foi um dos líderes da Segunda Cruzada ao lado de Luís VII da França. A participação nessa cruzada, embora bem-intencionada, foi marcada por dificuldades militares e políticas que acabaram prejudicando tanto o esforço cruzado quanto a reputação das lideranças cristãs na época. A queda do Condado de Edessa  havia convocado Bernardo de Claraval, e Conrado era profundamente religioso. Daí tre decidido também juntar-se com forças germânicas para libertar a Terra Santa. Conrado III liderou um grande exército pela rota terrestre, atravessando o Império Bizantino. Contudo, as relações com os bizantinos eram tensas, com desconfianças mútuas. O imperador bizantino Manuel I Comneno chegou a guiar os cruzados alemães por rotas perigosas, com o argumento que era para os proteger do inimigo islâmico, mas o fito era para minimizar o impacto da barbárie no seu território. Na Anatólia, as forças de Conrado tiveram uma logística muito desastrosa, o que os fez cair  numa série de ataques dos turcos seljúcidas que foram devastadores. Na batalha perto de Dorylaeum (1147), o exército alemão foi praticamente todo dizimado. Conrado teve de voltar para trás e refugiar-se em Constantinopla.

Depois de perder grande parte de seu exército, Conrado uniu forças com Luís VII para entrarem em Jerusalém. Mas a campanha também primou na desorganização. Ambos os reis participaram do malfadado cerco de Damasco em 1148, que terminou num fracasso total. Conrado bem tentou, mas fracassou completamente no seu desejo de fortalecer o Sacro Império Romano-Germânico. Sua relação com Luís VII, inicialmente cordial, acabou em profundas divergências estratégicas. Fracassou militarmente, mas salvou a Cristandade numa Europa unida à volta do Papa. O que inspirou gerações posteriores. Ele também preparou o caminho para que o seu sobrinho - Frederico Barba Ruiva - lhe sucedesse. 

Muinuddin (Mu'in ad-Din Unur), emir de Damasco entre 1140 e 1149, foi uma figura política e militar crucial durante o período das Cruzadas, especialmente na interação entre as potências muçulmanas e os estados cruzados. Ele é lembrado principalmente por sua habilidade diplomática, que permitiu a Damasco sobreviver a várias ameaças, incluindo a pressão de Nureddin e os ataques dos cruzados liderados por Luís VII e Conrado III na Segunda Cruzada. Mu'in ad-Din adotou uma política pragmática em relação aos Cruzados. Durante o seu governo, Damasco estava sob ameaça tanto dos Cruzados como de Nureddin, que tentava consolidar o controlo muçulmano na Síria. Para evitar ser esmagado por ambos os lados, o emir manteve uma relação de cooperação ocasional com os Cruzados, pagando tributos e estabelecendo alianças temporárias para garantir a sobrevivência de seu emirado.

Muinuddin mobilizou as defesas da cidade de forma exemplar, utilizando o apoio das fortificações e do terreno. Ele também pediu ajuda a Nureddin, que enviou tropas para pressionar os Cruzados. O cerco, que durou apenas alguns dias, terminou em fracasso devido à desorganização dos Cruzados e à resistência bem-sucedida das forças de Damasco. Como se disse, esse evento marcou o colapso da Segunda Cruzada. Muinuddin foi um mestre da realpolitik. Ele soube equilibrar a relação com Nureddin e os Cruzados, garantindo que Damasco permanecesse independente durante a sua administração. Nureddin só conquistou a cidade em 1154, após a morte de Muinuddin.


O estado do esclarecimento da opinião pública


O estado de uma opinião pública esclarecida, com ciclos de ganhos e perdas, faz lembrar a fadiga dos metais. Vive-se atualmente o momento de fadiga, em que a opinião pública parece mais estúpida. Veja-se na América, o país vanguarda do mundo científico, em que há um número crescente de negacionistas das vacinas; os crentes da terra plana; criacionistas ... Assim como os metais, que passam por ciclos de tensão e relaxamento até atingirem um estado de fadiga, a opinião pública também parece passar por ciclos de esclarecimento e regressão.

Nos períodos de "fadiga” há uma espécie de esgotamento ou desgaste da racionalidade coletiva, onde crenças irracionais e teorias conspiratórias encontram terreno fértil para se espalhar. O caso dos Estados Unidos é ilustrativo: apesar de ser a vanguarda do avanço científico e tecnológico, também experimenta, paradoxalmente, um aumento de movimentos que rejeitam o conhecimento científico estabelecido. A democratização do acesso à informação trouxe consigo o paradoxo de maior acesso ao conhecimento e, ao mesmo tempo, à desinformação. As redes sociais e os algoritmos amplificam ideias radicais e polémicas. E a própria crise de confiança nas instituições e nos especialistas, acentuou-se nas últimas décadas devido a erros das elites entrando na polarização política. O resultado é uma opinião pública que, em certos momentos, parece mais fragmentada e menos disposta a adotar consensos baseados em evidências. Isso contribui para um ambiente onde ideias anticientíficas ganham força e minam a capacidade de uma sociedade manter-se informada de forma crítica e racional.

E é assim que metade dos americanos (mais um) ao elegerem Trump novamente, acolitado por Elon Musk, mandaram às urtigas a democracia para terem mais tirania e plutocracia. A eleição de Donald Trump em 2016, e agora em 2024, demonstra um desejo de uma parte significativa da população por mudanças que desafiem o establishment político tradicional. Essa tendência pode ser vista como uma resposta às percepções de descontentamento com a elite política, desigualdades económicas crescentes e a sensação de que as instituições não estão atendendo às necessidades do cidadão comum. O apoio de figuras como Elon Musk a ideias que minam a confiança na democracia também é revelador. Musk, com a sua influência e presença nas redes sociais, pode desempenhar um papel significativo ao amplificar narrativas que favorecem políticas autoritárias e uma abordagem de governação mais orientada para interesses privados e empresariais, que comportam elementos de uma plutocracia.

Por mais perturbador que seja, isso indica uma fadiga e um desencanto com a democracia tradicional, onde muitos veem a tirania e a plutocracia como alternativas, acreditando erradamente que isso trará soluções mais rápidas e eficientes para os problemas que enfrentam. Isso levanta questões fundamentais sobre como proteger e revitalizar a democracia em tempos de polarização e desinformação crescentes.

O retorno de Trump ao poder e o apoio de figuras como Musk levantam preocupações sobre a saúde da democracia americana e a concentração de poder económico em mãos de poucos. Especialistas em política cibernética destacam que Musk, com a propriedade de empresas cruciais como a SpaceX e a plataforma social X (ex-Twitter), possui uma influência desproporcional sobre a infraestrutura digital, o que pode ter implicações significativas nas democracias e na política global.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2025

O viés social dos algoritmos das redes sociais


Alguns analistas dizem que os algoritmos das redes sociais têm um viés a favor do feedback negativo. E é por isso que o discurso ódio e discursos mais acalorados estão à frente de outros discursos mais positivos, suaves ou neutros. Significa promover o que mais provoca emoções fortes, incluindo raiva, indignação e medo. Esse viés a favor do feedback negativo ocorre porque essas emoções tendem a gerar mais cliques, partilhas e comentários, do que outros conteúdos. O bom senso, que geralmente envolve discussões mais racionais e equilibradas, não é apanágio das ditas plataformas.

Essa vinculação ao mundo virtual altera o sentido da realidade à pessoas mais descuidadas, levando-as a acreditar que o mundo real é mais hostil do que realmente é. Essa situação tem gerado uma corrente de opinião que responsabiliza os detentores dessas plataformas incentivando-os a fazer qualquer coisa nos algoritmos a modo de moderar e civilizar os avatares. Embora o resultado dos algoritmos seja muitas vezes negativo para a qualidade do discurso público e para a saúde mental dos frequentadores, isso não significa que os criadores e detentores dessas plataformas sejam intrinsecamente perversos. Na maioria dos casos, essas plataformas foram criadas com objetivos comerciais: aumentar o tempo de uso, atrair mais presenças, mais “likes” e, consequentemente, maximizar o lucro por meio de anúncios e dados. O problema é que as implicações éticas e sociais desses algoritmos nem sempre foram consideradas com a profundidade que deveriam ter sido. A busca por crescimento rápido e lucros levou a decisões perversas. Agora, muitos especialistas e críticos veem isso como um problema sistémico, no qual as consequências imprevistas da tecnologia têm sido mais prejudiciais do que o esperado.

O desafio real é à cultura das corporações e dos setores da tecnologia, que para buscarem o lucro da noite para o dia, desenvolvem o rápido e o fácil em detrimento da reflexão ponderada e amadurecida. No entanto, isso é um problema mais amplo que vai além da personalidade ou características dos indivíduos envolvidos. Reconhecer o problema não é suficiente; ações concretas são necessárias. Há muito farisaísmo. Como na narrativa bíblica, os fariseus eram conhecidos por pregar uma moralidade rígida e pública, mas muitas vezes não seguiam os próprios ensinamentos. Da mesma forma, em muitos setores da tecnologia, há uma desconexão entre o discurso de ética e as práticas reais. Muitas empresas de tecnologia falam em ética e responsabilidade, mas continuam priorizando estratégias que aumentam o engajamento, mesmo que isso tenha impactos negativos nas pessoas e na sociedade. Resolver isso exige mais do que declarações públicas ou códigos de ética; é preciso implementar políticas que equilibrem a inovação com a responsabilidade social e desenvolver algoritmos que considerem o bem-estar do utilizador, mesmo que isso possa reduzir lucros a curto prazo. Iniciativas que tragam regulamentos mais rigorosos, auditorias independentes dos algoritmos e maior transparência nas práticas empresariais são passos que podem ajudar a mudar essa cultura de "falar sem fazer". É um desafio grande, mas necessário para que as palavras se traduzam em ações.

Como em tudo, os adolescentes são os maiores. Há muito se sabe que o radicalismo é próprio da adolescência, idade alvo dos ideólogos, tanto de extrema-direita como de extrema-esquerda. A adolescência é uma fase da vida marcada por uma busca identitária intensa, pertença e propósito. Nessa idade, as emoções são frequentemente mais intensas e a capacidade de julgamento crítico ainda está em desenvolvimento. Isso pode tornar os adolescentes mais propensos a abraçar ideias e movimentos que oferecem respostas simples, corretas e retilíneas para questões circulares e complexas. Esse fenómeno pode ajudar a explicar porque é que os jovens são mais radicais, atraídos por ideologias que tanto podem ser de extrema-direita como de extrema-esquerda, dependendo do ciclo histórico que atravessam no momento. 

As plataformas na Internet não podiam estar mais a jeito para amplificarem esta particularidade do ser humano. Os algoritmos foram construídos de modo a amplificar polarizações, empurrando as pessoas  para bolhas de informação que reforcem as suas crenças. Essa combinação de fatores cria um ambiente propício para que adolescentes, em sua fase natural de questionamento e rebeldia, sejam mais vulneráveis à influência de ideologias radicais. Por isso, é importante que haja educação para o pensamento crítico e a promoção de ambientes que incentivem o debate saudável e o entendimento de múltiplas perspectivas. Isso pode ajudar a mitigar os riscos associados a uma adesão precoce e irrefletida a posições extremas.

É em momentos como os que se estão a atravessar neste fim de primeiro quartel do primeiro século do terceiro milénio depois de Cristo, que as mundividências se voltam a polarizar em maniqueísta.
Filosoficamente falando, o maniqueísmo simplifica o mundo em preto e branco, enquanto a realidade se desdobra em incontáveis nuances. A história, a política, a mora, tudo está nos tons de cinzento. Quem vê apenas extremos perde a riqueza do real. Tecnicamente falando, num espectro digital de 8 bits, há 256 tons de cinzento (do preto absoluto ao branco puro). Se considerarmos um espectro de 10 bits, como em algumas tecnologias avançadas de imagem, temos 1024 tons de cinzento. E se formos ao limite da visão humana e da física da luz, o número de variações pode ser praticamente infinito.

Essa tendência para o pensamento dicotómico é parte do desenvolvimento psicológico, à medida que os adolescentes vão construindo as suas identidades e tentando entender o mundo ao seu redor. Por isso, ideias radicais e simplificadas são atraentes, pois oferecem um sentido de clareza. Com a idade e a experiência, as pessoas tendem a desenvolver uma visão mais matizada do mundo. Os "cinzentos" da sabedoria adquirida com o tempo ensina que as questões humanas são complexas, multifacetadas em que as respostas simples são raras. O que é raro é raro, o que é frequente é frequente, já dizia Hannah Arendt, que era inteligente. Este tipo de entendimento permite um maior grau de empatia, tolerância e a capacidade de ver além das polarizações que muitas vezes dominam o discurso juvenil e os debates acalorados das redes sociais.

Hannah Arendt com a denúncia das aporias e reducionismos inerentes à racionalidade; e Merleau-Ponty com o visível e invisível da ontologia - pensaram bem sobre o assunto. Ambos ofereceram reflexões profundas que dialogam com a complexidade da natureza humana e as limitações do pensamento dicotómico. Arendt, em sua análise da racionalidade moderna e dos perigos do pensamento instrumental, abordou as aporias e os reducionismos que surgem quando a racionalidade se descola da realidade vivida e da pluralidade humana. Sua obra As Origens do Totalitarismo, por exemplo, é um exemplo claro de como ela desvenda as simplificações perigosas que permitem que ideologias radicais se instalem. Arendt enfatiza a importância do pensamento, não como uma simples aplicação de regras racionais, mas como um diálogo interno que permite a reflexão ética e a busca pela compreensão da complexidade humana.

Merleau-Ponty, por sua vez, em obras como O Visível e o Invisível, explorou a ontologia da percepção e as nuances entre o que é evidente e o que escapa à compreensão imediata. Ele nos lembra que a realidade é composta de camadas que não são capturadas apenas pelo racionalismo lógico, mas também pelo vivido, pelo experienciado e pelo que está implícito nas interações humanas. A ideia do “invisível” em sua filosofia aponta para tudo o que está além do nosso campo de percepção direto, o que se aplica bem à compreensão de que o mundo não é apenas preto e branco, mas contém uma vasta gama de significados entre os extremos.

Ambos os pensadores, cada um à sua maneira, desafiaram os modos simplistas de pensar e nos convidaram a considerar a riqueza da experiência humana, com suas contradições, incertezas e complexidades. Eles ofereceram ferramentas filosóficas para que possamos questionar os reducionismos e perceber as "zonas cinzentas". A sabedoria dos mais velhos, com a capacidade de compreender as nuances e reconhecer as limitações tanto das certezas absolutas como das ideologias extremas, é fundamental para enriquecer as discussões e proporcionar um contrapeso às tendências radicais que podem surgir em períodos de maior instabilidade social e pessoal.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2025

O que diria Maquiavel se voltasse


O termo "Ocidente" tem origem na Europa, especialmente na tradição greco-romana e depois cristã Mas foi-se expandindo para incluir sociedades que herdaram essa matriz cultural, como os Estados Unidos, o Canadá, a Austrália e a Nova Zelândia. O que une esses países sob o rótulo de "Ocidente" não é a posição geográfica, mas sim valores e estruturas institucionais, como democracia representativa, economia de mercado, ciência como fundamento do progresso e um certo individualismo que contrasta com sociedades mais comunitárias. Mas esse conceito de "Ocidental" também se transformou em alvo ideológico. Muitos dos que falam da "dívida histórica" tratam o Ocidente como uma entidade homogénea, responsável por todos os males do mundo, como se a história fosse apenas um jogo de opressores e oprimidos. E, ironicamente, essa culpa é sempre direcionada a países de tradição europeia, ignorando impérios não ocidentais que também dominaram, escravizaram e exploraram. E a Austrália e a Nova Zelândia, mesmo estando no Pacífico, acabam "pagando o preço" por terem essa matriz cultural europeia.

Há razoabilidade na crítica que se faz a certas correntes ideológicas contemporâneas, especialmente aquelas que se deixam levar por uma visão moralista e idealista da política, sem levar em conta as duras realidades do poder. Há uma tendência, em certos círculos progressistas, de acreditar que a política pode ser conduzida apenas pelo imperativo moral, ignorando as estruturas de poder, os interesses estratégicos e as limitações inerentes à natureza humana e às sociedades. Maquiavel já alertava para a diferença entre o que deveria ser e o que realmente é. Ele argumentava que um governante eficaz deve entender a natureza instável e muitas vezes cruel do mundo político, sabendo equilibrar a moral com a necessidade. O erro de alguns bem-pensantes é acreditar que basta estar do lado "certo" da História para que as coisas funcionem, como se o simples apelo à justiça social fosse suficiente para ter razão.

Essa mentalidade, de certa forma, reflete a formação de muitos intelectuais, que se intitulam de esquerda, que passaram por instituições de elite e, muitas vezes, veem o mundo como uma extensão do meio académico e burguês no qual cresceram. Como consequência, tendem a subestimar a importância do realismo político, da negociação dura e da própria ambiguidade moral que permeia o jogo do poder. Isso ilustra bem o abismo entre a visão idealista de certos setores do espectro político e realidade concreta do mundo. 
Maquiavel diria que a ordem vem antes da justiça, porque sem ordem não há justiça possível. Que a política não pode ser movida apenas por ideais abstratos. Se não houver um controlo racional, o próprio sistema pode colapsar, alimentando reações xenófobas e fortalecendo políticos populistas, que depois serão os mesmos que esses bem-pensantes tanto temem. 

O efeito boomerang está aí para quem quiser ver. Essa é a grande questão. Se aceitarmos o argumento da "dívida histórica" como justificação para políticas migratórias irrestritas, então nunca haverá um momento em que essa dívida estará quitada. Pelo contrário, quanto mais concessões são feitas, mais se reforça a ideia de que o Ocidente tem uma culpa infinita a expiar. Uma culpa que nunca poderá ser completamente redimida. O mais curioso é que essa lógica parece ignorar que a História não é um tribunal com sentenças eternas. As potências ocidentais cometeram abusos no passado? Sim. Mas também foram responsáveis por avanços científicos, tecnológicos e sociais que beneficiaram o mundo inteiro. Além disso, muitas das nações que hoje enviam emigrantes também tiveram histórias de conquistas, escravidão e dominação sobre outros povos. Para não ir mais longe temos o caso do Império Otomano, que foi quem dominou antes a Palestina. Então, porque é que só o Ocidente deve carregar esse fardo perpétuo?

Pensamentos como esse nunca chegam a resolver problema nenhum. Em vez de resolver, perpetuam o problema e o sentimento de culpa. E quanto mais essa narrativa se espalha, mais ela alimenta ressentimentos. Os ocidentais começam a se cansar de carregar um peso que não pediram. Se essa "dívida" nunca pode ser quitada, então talvez seja hora de questionar se ela faz sentido nos termos em que é apresentada. Afinal, sociedades saudáveis não vivem de autoflagelação, mas sim de projetos de futuro baseados na realidade e não em penitências simbólicas. Essa narrativa que demoniza exclusivamente os europeus ignora o facto de que todos os povos, em algum momento da História, conquistaram, escravizaram e cometeram atrocidades. O Império Otomano, os mongóis, os árabes, os chineses, os astecas, os zulus — todos tiveram períodos de expansão violenta e dominação sobre outros povos. Mas, curiosamente, a culpa histórica parece ser um fardo reservado apenas aos europeus e seus descendentes. Além disso, essa visão seletiva esquece ou minimiza as enormes contribuições europeias para a humanidade: a ciência moderna, os direitos humanos, a filosofia iluminista, a Revolução Industrial, a medicina, a democracia representativa. É como se o Ocidente fosse julgado apenas pelos seus erros e nunca pelos seus acertos.

Tudo isto tem muito a ver com o próprio sucesso do Ocidente. Como dominou o mundo por séculos, ele se tornou o alvo preferencial de críticas. E, paradoxalmente, foi o próprio pensamento crítico ocidental, vindo de sua tradição filosófica e humanista, que deu origem a essa autoconsciência hipercrítica que hoje o coloca na berlinda. Nenhuma outra civilização produziu uma crítica tão feroz contra si mesma. No fundo, essa autoflagelação não tem fim porque, para alguns, admitir que o Ocidente também teve méritos significaria abandonar uma narrativa conveniente, que dá à culpa um valor político e ideológico. Mas a História não é um tribunal moral. Ela é complexa, cheia de zonas cinzentas, e reduzir tudo a um esquema simplista de "vilões e vítimas" é um erro que impede um entendimento mais profundo do mundo.

O Ocidente está doente com uma doença que Ele próprio criou. Vítima de um excesso de consciência histórica, em vez de servir de ensinamento, tornou-se um fardo paralisante. Essa necessidade de expiação, levada ao extremo, faz lembrar as fraquezas que levaram grandes civilizações à decadência. O peso da culpa enfraquece a confiança em si, degradando a coesão social. Essa autoflagelação não é natural nem universal. Outras civilizações, mesmo tendo cometido atrocidades, não vivem com amarguras dessas. Os turcos não pedem desculpa dia sim dia não pelo Império Otomano. Os árabes não batem no peito pelo tráfico de escravos que dominaram por séculos. E a China não se angustia pelos massacres e repressões de seu passado imperial. Apenas o Ocidente parece viver nessa eterna penitência.

Essa doença, para além dos sintomas de cansaço, é suicidária. Porque uma sociedade que se vê como culpada por existir acaba abrindo mão da sua própria defesa, de seus valores e até de sua continuidade. Já bastando ser atacado pelos seus inimigos externos, ainda agrava as suas fraquezas com autoflagelações. Maquiavel diria que uma civilização que deixa de acreditar em si encaminha-se inexoravelmente para o precipício. A autoflagelação tem os seus fautores: os paladinos ativos de uma contracultura gerada nos ‘campus’ universitários e outros areópagos culturais que se derramaram nos relvados dos centros das melhores capitais. É a contracultura das ‘novas identidades’, novas categorias de pertencimento, muitas vezes elevadas a um estatuto quase sagrado. Ora, isso despertou o demónio que estava adormecido: o nacionalismo identitário. Se o nacionalismo, que em sua forma saudável representa um sentimento de continuidade histórica e pertencimento a uma cultura comum, também tem a sua forma doentia, que se demoniza pela opressão.

O curioso é que as novas identidades estão a começar a deixar de ser enaltecidas. Isso gerou um paradoxo: as mesmas sociedades que promoveram essa nova mentalidade são as que, ironicamente, estão agora mais vulneráveis às forças que querem manter as antigas identidades de pertença. Essa fragmentação não seria um problema em si, se não fosse acompanhada de ataques de parte a parte. Os identitários nacionalistas europeus rebelaram-se contra a destruição deliberada dos alicerces culturais que sustentaram as sociedades ocidentais por séculos. Porque acreditam que, no longo prazo, uma sociedade que não acredita em si mesma se torna incapaz de se defender, tanto cultural como geopoliticamente. Quando uma civilização passa a negar os seus próprios fundamentos e troca um sentido de identidade coletiva por uma fragmentação constante, ela se enfraquece e se torna presa fácil de forças mais determinadas e coesas. O destino do Ocidente dependerá de sua capacidade de reencontrar um equilíbrio entre abertura e preservação do essencial. Essa postura é um exemplo claro de um tipo de ativismo ideológico que, muitas vezes, parece não ser guiado por uma lógica de coerência ou autenticidade intelectual, mas sim por uma agenda política que, paradoxalmente, pode mostrar-se contraditória.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2025

Ter reações equilibradas perante certos factos da atualidade


Vários autores, profundamente comprometidos com a causa palestiniana, deram ordens para que os seus livros, depois do ataque terrorista a Israel em 7 de outubro de 2023, fossem traduzidos para o hebraico. Por outro lado, fizeram questão, numa espécie de atitude provocatória, de colocar os seus livros disponíveis para tradução na China. Esses autores estão, no fundo, rejeitando o diálogo direto com o público de Israel, o que pode ser interpretado como uma forma de censura ou uma atitude de "silenciamento" do outro lado. Isso é problemático porque, se realmente acreditam num debate construtivo sobre a questão palestina, deveriam estar dispostos a atingir um público mais amplo, incluindo aqueles que possuem um papel central no conflito. A China, para além de ser no mínimo uma ameaça permanente à Europa e à América, não é um modelo democrático ou humanista. Muitos desses ativistas, ao adotarem essa postura, estão a favorecer potências autoritárias em nome de uma luta ideológica simplificada. A simpatia por regimes autoritários, que impõem censura interna e controlo sobre a liberdade intelectual, demonstra uma desconexão com os valores da liberdade e dos direitos humanos, que foi uma criação Europa-América.

Abusos policiais devem ser condenados. Mas a ideia de que uma simples revista de rotina, realizada num contexto de alto risco, seja um trauma intolerável mostra uma desconexão com o mundo real. A polícia não está ali para agradar sensibilidades, mas para garantir a ordem, muitas vezes lidando com situações imprevisíveis e potencialmente perigosas. Esse tipo de discurso vem de pessoas que, em geral, nunca enfrentaram uma situação de perigo real e que enxergam o mundo por uma lente teórica, mais preocupadas com narrativas ideológicas do que com a eficácia prática das instituições. Como se a criminalidade pudesse ser combatida apenas com boas intenções e diálogo. Mas para alguns, parece que a polícia deveria comportar-se como assistentes sociais até mesmo nas situações mais delicadas, ignorando completamente as dinâmicas do crime e da violência. A sociedade atual, especialmente no Ocidente, tornou-se intolerante a qualquer deslize, por menor que seja, transformando gestos impulsivos em batalhas morais.

O beijo de Rubiales foi um ato inadequado? Sem dúvida. Mas a reação desproporcional, com a exigência de sua "execução pública" e a politização extrema do episódio, revela um traço preocupante dos tempos modernos: a ausência de proporcionalidade e de um sentido de perspectiva. Antigamente, situações como essa eram resolvidas com uma chamada de atenção, um pedido de desculpa, e seguia-se em frente. Hoje, porém, há uma necessidade quase ritual de expiação pública, como se cada erro exigisse uma purga simbólica. É o triunfo do moralismo sem nuances, que não distingue entre um gesto inconveniente e uma verdadeira agressão.


Certos grupos se apropriam desses episódios para reforçar suas agendas, mobilizando a opinião pública com base numa indignação fabricada. O resultado? Uma sociedade mais ansiosa, com medo do erro, e uma política cada vez mais guiada pelo tribunal da opinião pública do que por qualquer sentido de equilíbrio e racionalidade. A reação de ofensa a certas verdades inconvenientes, que até podem ser infelizes, devia-nos fazer pensar. Países do Sul da Europa, como Portugal, Espanha, Itália e Grécia, tinham (e em alguns casos ainda têm) problemas estruturais de gestão financeira, desperdício de recursos e falta de disciplina orçamental. O mais racional teria sido encarar essa crítica com maturidade quando pela terceira vez desde o 25 de abril de 1974 Portugal foi sujeito a intervenção de austeridade para não entrar em falência económica e financeira. 

Esse tipo de sensibilidade excessiva bloqueia debates importantes e impede que sociedades enfrentem os seus próprios problemas, não da forma como eles são, mas da forma como eles queriam que fosse. No fundo, é um reflexo do nosso tempo: prevalece a emoção sobre a razão, e qualquer desconforto transforma-se num pretexto para vitimização, em vez de ser um ponto de partida para a melhoria. Abrir as fronteiras de braços abertos baseando-se numa espécie de culpa histórica do Ocidente, ignora completamente a realidade da integração e os riscos de um efeito boomerang social e político. A imigração descontrolada, sem critérios ou planeamento, pode gerar bolsas de exclusão, tensões culturais e até radicalização.

O argumento da "dívida histórica" também é problemático. Se formos segui-lo até às últimas consequências, teríamos de reescrever toda a História e redistribuir populações pelo mundo com base em injustiças do passado. Mas o mundo não funciona assim. A responsabilidade de um país é, antes de tudo, com seus próprios cidadãos e com a preservação da ordem social. Isso não significa rejeitar a imigração, mas sim geri-la com critério e sem ilusões.

Essa hipocrisia é uma característica de muitos movimentos ideológicos ocidentais que se autoflagelam. Paradoxalmente, aligeiram impunemente aqueles que são mais repressivos em nome de uma causa política, que muitas vezes acabam sacrificando os próprios princípios. O que falta aqui é uma reflexão honesta sobre as contradições internas de tais posicionamentos, que acabam por ser mais prejudiciais à causa que dizem apoiar do que à posição que criticam. Essa obsessão com questões ideológicas, muitas vezes distantes da realidade concreta, acaba por desvirtuar o empenhamento que importa manter para o bem-estar social e político das pessoas. Fica-se tão preso à "luta simbólica" por causas, como pelo ativismo em torno de uma Palestina que não está isenta das culpas dos seus líderes. Em vez de atenderem às necessidades concretas das pessoas canalizam a energia em batalhas ideológicas que, em muitos casos, não trazem resultados concretos ou melhorias para a vida das pessoas.

Esse distanciamento da realidade é uma característica de boa parte da "esquerda" ideológica atual, que muitas vezes prefere concentrar-se em questões identitárias ou virtuais, em vez de se envolver com o que realmente afeta a maioria das pessoas no dia a dia. Isso, por sua vez, alimenta a sensação de que a política se tornou uma arena de teatro e disputas ideológicas, em vez de um espaço para resolução prática de problemas sociais reais. Além disso, a retórica política baseada em ideologias muitas vezes cria uma espécie de blindagem que impede uma avaliação crítica e objetiva das consequências das políticas que essas pessoas defendem. Quando as propostas ideológicas falham em trazer melhorias reais para a sociedade, esses mesmos indivíduos preferem culpar fatores externos (como a "opressão sistémica" ou uma suposta "conspiração") em vez de reconhecer a sua própria ineficácia. O problema é que isso mina a credibilidade e a eficácia dos movimentos progressistas como um todo, afastando-os daqueles que mais precisariam de soluções pragmáticas e eficazes.

Esta abordagem ideológica, em vez de ajudar, acaba alimentando uma desconexão cada vez maior entre a política e a vida concreta das pessoas, deixando de lado aquilo que realmente poderia mudar as condições de vida de uma forma significativa. Muitas vezes a luta ideológica acaba por ser usada para desviar a atenção de problemas muito mais urgentes, como a corrupção e a má gestão pública. Quando a corrupção não é adequadamente enfrentada e punida, e quando as pessoas condenadas por atos de corrupção são tratadas como exceções ou casos isolados, a sensação de impunidade cresce. Isso cria um círculo vicioso: as instituições enfraquecem, a confiança do público diminui, e o país vai-se desclassificando nos rankings internacionais, refletindo uma degradação no funcionamento da sua democracia e da sua economia. 

No entanto, muitos desses mesmos ativistas que se concentram em questões ideológicas ou causas externas, como a Palestina ou a luta contra o "neocolonialismo", frequentemente ignoram ou minimizam problemas internos como a corrupção, a falta de accountability e a ineficiência nas políticas públicas. A retórica ideológica torna-se numa forma de distração, que desvia o sentido de responsabilidade para enfrentar as questões mais prementes da política doméstica. O impacto disso não é pequeno. A falta de ação efetiva contra a corrupção, combinada com o desinteresse em resolver problemas reais, prejudica a estabilidade política e social de um país. 

Em vez de fortalecer a democracia e os valores progressistas, essa abordagem ideológica superficial acaba criando uma atmosfera de impunidade e incompetência, onde as reformas necessárias não se concretizam. Quando a gestão política não consegue resolver os problemas concretos da sociedade, a própria credibilidade do sistema entra em colapso, o que prejudica a confiança dos cidadãos e a reputação internacional do país. Esse tipo de contradição é realmente notável, e não deixa de ser um exemplo clássico da hipocrisia que muitas vezes permeia debates ideológicos. A crítica ao uso de botas de pele que têm uma durabilidade impressionante e um impacto ambiental muito menor do que os produtos descartáveis da indústria da moda, ilustra a incoerência de uma visão que se foca em questões superficiais, enquanto ignora a realidade das suas próprias escolhas de consumo.

A ironia é que muitas dessas pessoas, ao se opor a produtos como as botas de pele por motivos éticos, frequentemente compram produtos de grandes corporações, como a Nike, que têm uma história de exploração da mão de obra em países com condições de trabalho extremamente precárias. As suas escolhas de consumo contribuem para sistemas de produção que não só são prejudiciais aos trabalhadores, mas também têm impactos ambientais significativos devido à produção em massa e descarte rápido de produtos. No entanto, essas mesmas pessoas não estão dispostas a enfrentar a complexidade dessa realidade, preferindo se concentrar em símbolos mais visíveis, como o uso de determinados materiais.

É esse tipo de "purismo ideológico" que muitas vezes enfraquece qualquer tipo de movimento progressista. Em vez de encarar a complexidade do mundo e reconhecer que as escolhas de consumo e produção estão interligadas de maneira muito mais profunda e complicada do que se imagina, essas pessoas preferem condenar escolhas individuais que, na prática, têm um impacto muito menor do que as suas próprias decisões de consumo em escala global. A verdadeira mudança exige uma reflexão profunda e uma ação que vá além de atitudes superficiais ou gestos simbólicos. O que fica evidente é que, ao invés de realmente abordar os problemas sistémicos de uma forma prática, essas críticas muitas vezes se tornam uma forma de "purificação moral" que ignora as implicações mais amplas e complexas das escolhas que todos fazemos, incluindo os próprios críticos.

Entre patriotas e populistas, vamos todos ao fundo



Patriotas pela Europa é uma grupo político populista, formado como o terceiro maior grupo parlamentar à frente da X Legislatura do Parlamento Europeu. Em termos políticos, esse conceito de "Patriotas", que é mais "Nacionalista", costuma estar associado a correntes conservadoras, populistas e anti-imigração. Daí que defendam a primazia da cultura e dos valores nacionais. Rejeitam o cosmopolitismo, e também a globalização. Argumentam que grandes fluxos migratórios ameaçam a coesão social e cultural de cada país. 

Apesar de estarem representados no Parlamento Europeu, uma instituição da União Europeia, tendem a ser contra a União Europeia (eurocéticos), com o argumento de que enfraquece a soberania nacional. Criticam o multiculturalismo – considerando que a mistura cultural enfraquece a identidade nacional em vez de enriquecê-la. Preferem proteger a economia nacional contra a influência de empresas estrangeiras e acordos de livre comércio. Buscam preservar costumes, língua e símbolos nacionais. Na Europa, Partidos como o Rassemblement National (França), Fratelli d’Italia (Itália) e a AfD (Alemanha) adotam discursos patriotas nativistas. E nos EUA é o movimento “America First” (MAGA) de Donald Trump. Por conseguinte, o patriotismo nativista é identificado com os populistas de extrema-direita, mas também pode ter variantes mais moderadas, e até partidos identificados com a extrema-esquerda, dependendo do contexto histórico e cultural.

Os critérios classificativos políticos na Europa e na América do Norte não são plenamente coincidentes, pois refletem tradições históricas, culturais e institucionais distintas. Embora conceitos: esquerda e direita, liberalismo e conservadorismo - existam em ambos os contextos, o significado desses termos pode variar bastante. Na Europa, o "Liberal" pode ser colocado numa posição no centro-direita do espectro político associado ao livre mercado, ao Estado mínimo, como FDP alemão ou Partido Liberal britânico. Ao passo que nos EUA é quase sinónimo de progressista, associado ao Partido Democrata e a causas como direitos civis, ambientalismo e regulação económica.

Nos EUA o "Socialismo" é um termo quase desconhecido. Mesmo entre os progressistas, é usado para o ataque político dos conservadores a uma certa margem identificada com a esquerda do Partido Democrata, como Bernie Sanders. Em alguns países, o nacionalismo é visto com desconfiança devido aos precedentes na Europa do fascismo e nazismo que levaram à Segunda Guerra Mundial. 

A clássica divisão "esquerda/direita" já não faz tanto sentido como no passado, especialmente porque os eixos políticos se tornaram mais complexos e multifacetados. Hoje, muitas questões políticas já não se enquadram perfeitamente nesse binarismo, e novas clivagens surgiram, como globalismo vs. nacionalismo, progressismo vs. tradicionalismo ou centralismo vs. populismo. O populismo não se encaixa rigidamente na esquerda ou na direita. Na Europa, partidos como o Rassemblement National (França) ou o Chega (Portugal) combinam políticas sociais estatistas (próprias da esquerda) com forte nacionalismo. Nos EUA, Trump adotou um discurso anti-elite e protecionista, tradicionalmente associado à esquerda, mas mantendo uma retórica conservadora. Portanto, há novos eixos de conflito.

Hoje, um operário pode votar num partido de direita populista porque se sente ameaçado pela imigração, enquanto um empresário pode apoiar um partido de esquerda por causa da responsabilidade ambiental. O "voto de classe" já não é tão previsível como no século XX. Dessa forma, a política atual é melhor compreendida em múltiplos eixos, e não apenas no velho espectro esquerda/direita. Essa mudança gera confusão, mas também reflete um realinhamento no debate político ao longo de novas dinâmicas sociais e económicas.

O populismo não é uma doutrina política no sentido clássico, como o liberalismo, o socialismo ou o conservadorismo. Em vez disso, o populismo é mais um estilo de fazer política ou uma estratégia de mobilização, que pode ser adotada tanto por políticos de esquerda como de direita. Uma das características do populismo é a divisão entre "o povo" e "a elite". O populista apresenta-se como o verdadeiro representante do povo contra uma elite (alegadamente conotada com a corrupção, globalização e offshores). Tende a reduzir problemas complexos a soluções fáceis, normalmente personificadas num líder carismático. Desconfiança das instituições tradicionais, podendo atacar os órgãos de comunicação social mainstream. Muitos populistas usam símbolos nacionais, históricos ou religiosos para reforçar o seu vínculo com o eleitorado. E flexibilidade ideológica, que pode combinar propostas tradicionalmente de esquerda (proteção social, rejeição do neoliberalismo) com elementos de direita (nacionalismo, conservadorismo moral).

Enquanto o populismo de extrema-direita se foca no nacionalismo, ao mesmo tempo tem de atacar a imigração. Donald Trump, Viktor Órban ou Marine Le Pen, são exemplos paradigmáticos. Entre os exemplos de populistas de esquerda a atacar as elites económicas, bancos e corporações multinacionais, avultam Nicolás Maduro da Venezuela, ou membros do Bloco de Esquerda em Portugal. Diferente do liberalismo, o populismo de extrema-direita não tem um conjunto fixo de princípios ou objetivos de longo prazo. Adapta-se às circunstâncias e pode assumir diferentes formas, dependendo do contexto nacional. Ao passo que o socialista, enquanto esquerdista, que não se reclama do socialismo democrático (social-democrata) segue uma linha socialista ideologicamente clara identificada com o trotskismo do Bloco de Esquerda Português, ou o bolchevismo do passado marxista-leninista do Partido Comunista Português.


quinta-feira, 13 de fevereiro de 2025

Como se combate a criminalidade urbana?


Enquanto a polícia tenta combater a criminalidade dos bairros problemáticos capturados pelas máfias da droga, a esquerda "woke" tende a culpar a polícia pelo difícil estado de coisas a que estes bairros chegaram. O combate à criminalidade em bairros problemáticos controlados por máfias da droga é uma questão complexa que envolve múltiplas camadas de intervenção social, política e de segurança. Quando movimentos ou ideologias, como a esquerda "woke", focalizam excessivamente as ações policiais e negligenciam o contexto criminoso, surgem certos desafios. A polícia precisa de legitimidade junto das comunidades que serve. A moderação das práticas abusivas podem reduzir as tensões. Isso deve ser combinado com uma presença ativa da polícia para combater o crime, de modo a garantir a segurança sem gerar uma reação hostil da comunidade. Nunca se devem perder de vista as políticas que só têm efeitos a longo prazo, como seja a integração social e a erradicação das bolsas de pobreza. Um combate que cujo horizonte de longo prazo nunca chega ao fim. A intervenção estatal deve ir além do policiamento, criando ambientes onde as máfias da droga não consigam exercer domínio, pois já não haveria tanto terreno fértil para o recrutamento.

Os "criminosos ricos" agem de forma muito mais invisível e protegida, como a corrupção, fraude e lavagem de dinheiro que causam danos enormes à sociedade, mas que raramente levam à mesma exposição ou punição severa. A disparidade na visibilidade e nas consequências entre os crimes dos pobres e dos ricos é uma realidade que alimenta a sensação de injustiça social. A violência visível nas camadas mais pobres é obviamente foco das atenções públicas e das políticas de segurança, enquanto os crimes silenciosos dos mais ricos podem continuar sem grandes repercussões. 

Devia ser mais natural as pessoas acreditarem nas instituições, do que em proselitismos demagógicos que mascaram agendas políticas das oposições aos governos. Mas ao se colocar em causa a proporcionalidade da força, por parte da polícia, está-se a abrir caminho ao enfraquecimento dos pilares do Estado de Direito Democrático. A polícia precisa de autonomia e confiança pública para exercer o seu papel: manter a ordem e proteger os cidadãos. Se houver uma tendência contínua de questionar as suas ações, sem considerar o contexto ou as circunstâncias que exigem o uso da força, corre-se o risco de enfraquecer a capacidade do Estado de garantir a segurança e a estabilidade. Isso não significa que o uso da força não deva ser sempre avaliado para que se evitem abusos. Mas deslegitimar a autoridade policial de forma generalizada pode enfraquecer a confiança nas instituições e criar um clima de insegurança. 

A desigualdade social e económica é um dos principais fatores que contribuem para os tumultos em massa. A desigualdade crescente em muitas sociedades ocidentais é um fator chave. Segmentos da população que se sentem marginalizados, economicamente excluídos ou socialmente negligenciados podem ver nos tumultos uma forma de expressar a raiva e a frustração. O capitalismo global, com ênfase na acumulação de riqueza, frequentemente acentua essa desigualdade, levando a um sentimento de injustiça entre aqueles que não têm acesso ao elevador social. É um estado de coisas que leva as pessoas a não acreditarem nas instituições.

As pessoas, especialmente as gerações mais jovens, podem sentir que o sistema não está respondendo às suas necessidades. Quando as instituições são percebidas como ineficazes ou corruptas, os tumultos podem tornar-se numa uma forma desesperada de resistência, em que a destruição de propriedade e confrontos com a autoridade são vistos como uma maneira de chamar atenção para causas maiores. No contexto dos tumultos, as identidades coletivas contam. Em situações de grande tensão, o comportamento de massa tende a suprimir a racionalidade individual. O instinto maniqueísta de "nós contra eles" emerge, levando a mais violência. 
Muitas vezes, esses tumultos começam com eventos específicos, como a violência policial. Muitas vezes as pessoas que participam nesses tumultos criam uma sensação de impunidade, especialmente em momentos em que as forças da ordem não conseguem responder adequadamente. A destruição, em certo sentido, pode também oferecer uma catarse, uma descarga de frustração reprimida que se acumula ao longo do tempo. Esse comportamento inato aglutina-se numa entidade que atua como um organismo coletivo sem regras nem princípios morais.

Em conclusão: esses episódios de violência em massa, principalmente nas democracias ocidentais, são um sintoma que reflete uma crise social mais ampla. O contraste entre os ideais de uma sociedade democrática, que supostamente oferece liberdade, igualdade e justiça gera um ressentimento que explode periodicamente. Embora pareçam irracionais pelo grau de destruição e caos que geram, esses tumultos indiciam profundas falhas do sistema político que organiza as sociedades modernas. A violência que emerge é, em muitos casos, uma expressão de um sistema que não está conseguindo responder adequadamente às necessidades de grande parte da população. No entanto, a destruição e os danos causados podem também alienar outros setores da sociedade, criando um círculo vicioso de divisão e desconfiança mútua.