Leonor de Portugal [1434 - 1467] é filha do rei Dom Duarte e de Leonor de Aragão. Portanto, o irmão – é precisamente Afonso V [1432 – 1481], apelidado de "o Africano" pelas suas conquistas em África = Rei de Portugal e dos Algarves de 1438 até à sua morte. Afonso ascendeu ao trono com apenas seis anos de idade. A regência, inicialmente assumida pela a mãe = Leonor de Aragão, no entanto pouco depois foi passada para o tio Pedro = Duque de Coimbra. Este procurou concentrar o poder no rei em detrimento da aristocracia.
Quando o pai morreu, Leonor tinha quatro anos de idade. A mãe = Leonor de Aragão, viu-se forçada a abandoná-la doente em Almeirim, sob a tutela de Dom Pedro, Duque de Coimbra, para se refugiar em Castela. Havia perdido a contenda palaciana pelo controlo da Regência. A partir de 1445, após a morte de sua mãe, com 11 anos de idade [1445-1448] o destino de Leonor é negociado nas mãos dos dois tios: Dom Pedro e Dona Isabel, casada com Filipe III, Duque de Borgonha. Dom Pedro, por sua vez, casou com outra Isabel, sendo esta a Isabel de Aragão, que poderia ter sido a herdeira do trono de Aragão não se tivesse dado o caso de seu pai o ter perdido para Fernando de Atenquerra após disputa. Como tal, Dom Pedro era naturalmente hostil à Casa de Aragão. Já Isabel, a Duquesa de Borgonha, pretende capitalizar o casamento da sobrinha em seu próprio proveito. Estavam então em disputa duas hipóteses para o casamento de Leonor de Portugal para alianças: ou com França, através de Luís de Valois, filho de Carlos VII e que viria a ser o Luís XI; ou com Frederico III = do Sacro Império Romano-Germânico.
O projeto inicial seria o casamento de Leonor com Luís, o filho de Carlos VII de França. Mas na lógica da Guerra dos Cem Anos (1337-1453), como conflito maior no palco europeu e como força polarizadora de fações políticas da época, o casamento continuava a política da Borgonha na procura dos melhores interesses para o Ducado. E assim, ora se aliava com a França, ora com a Inglaterra. E dado que, à data, a guerra se abeirava de uma esmagadora vitória francesa, à Borgonha seria necessário esquecer o passado recente e aliar-se ao antigo inimigo. Em suma, as duas alianças ajudariam porventura a desequilibrar a balança de poder na Europa a favor da França e de Castela e contra Inglaterra e Aragão. Com Portugal, Borgonha só precisava de fortalecer. À coroa francesa não passou com certeza despercebida a importância das negociações de Portugal com Borgonha, embora palco secundário dos jogos de influências dos conflitos anglo-franceses.
Ao Sacro Imperador Romano-Germânico não passou despercebida a grande riqueza da Casa de Avis. O comércio de açúcar das ilhas atlânticas e de escravos, ouro e malagueta da costa africana, tornavam o Portugal do século XV um país em franco crescimento económico. Ainda mais tendo em conta o clima de paz do Reino, em que as únicas operações militares da época se situavam no Norte de África, não perturbando a economia interna. Frederico III era um governante constantemente atormentado com problemas pecuniários. Os seus rendimentos esvaíam-se entre as tentativas de unificar o património dos Habsburgos na Suábia, nos Alpes e na Baixa Áustria dispersos por inúmeras linhas colaterais.
Sacro Império Romano-Germânico
Maximiliano [1459 - 1519] era, portanto, primo direito do futuro rei de Portugal - D. João II . Em 1486, Maximiliano foi eleito em Frankfurt, ascendendo ao trono do Sacro Império Romano-Germânico após a morte de Frederico III, em 1493. Durante quase toda a vida o imperador manteve fortes relações com os seus familiares da Casa de Avis. Com D. João II, Maximiliano I criou laços amigáveis que ganharam os seus contornos mais evidentes em 1494. Em Junho desse ano, os dois monarcas prometeram mutuamente eterna amizade e aliança em caso de guerra nos denominados Capítulos de Pazes. Com a subida ao trono de Portugal por Dom Manuel I, aparentemente, as boas relações diplomáticas, até aí existentes entre as Casas de Habsburgo e de Avis, esfriaram. Maximiliano havia reclamado também a herança da coroa portuguesa. Apenas no ano de 1499 se constata um primeiro indício de um entendimento e de uma retomada das relações diplomáticas entre as duas dinastias. Neste ano, o Venturoso informou orgulhosamente o seu primo acerca dos resultados da primeira viagem de Vasco da Gama à Índia. É de notar que Maximiliano seguia, desde os anos 90 do século XV, atentamente o desenvolvimento da Expansão Portuguesa.
Carlos o Temerário – 1460
usando o colar da Ordem do Tosão de Ouro
Pintado por Rogier van der Weyden.
A Borgonha era uma terra de escolha para o monaquismo. No século IX, apesar de alguns centros ativos de vida religiosa, como a abadia de Saint-Germain d'Auxerre e as fundações de abadias, incluindo, entre as mais famosas, as de Sainte-Marie de Vercellacus (Saint-Père sous Vézelay) para as freiras (Vézelay) e Saints-Pierre-et-Paul de Pothières para os monges, (858-859), devido à generosidade de Girart de Roussillon, conde de Vienne, e sua esposa Berthe, as abadias que sofreram com as invasões na Borgonha experimentaram declínio. O renascimento veio com a fundação em 909 da Abadia de Cluny, devido à doação de uma villa, um simples ponto de encontro de caça, do duque da Aquitânia Guilherme, o Piedoso, ao monge Bernon para que um "mosteiro regular pudesse ser construído lá em homenagem aos apóstolos Pedro e Paulo"[UMA 21] e colocados sob a proteção imediata da Santa Sé. Depois de um início difícil, com uma sucessão de grandes abades à sua frente (Mayeul, Odilon de Mercœur, Hugues, cunhado do duque de Borgonha Robert I), a abadia aumentou sua influência no século XI e atingiu seu apogeu no século XII século. Naquela época, quase 1500 mosteiros foram colocados sob sua autoridade.
Por volta de 1475–1477, a Europa central vivia um momento de transição: o ideal cavalheiresco borgonhês estava no seu auge estético, mas já declinava perante o novo realismo político e militar dos tempos modernos. Carlos, o Temerário, duque da Borgonha, 1433–1477, sonhava criar um reino independente entre a França e o Sacro Império Romano-Germânico. O seu ducado, a Borgonha, era um dos territórios mais ricos e culturalmente refinados da Europa, com gente esplendorosa, torneios fastuosos e uma cultura cavaleiresca herdada do ciclo arturiano. Em 1477, após a morte de Carlos na batalha de Nancy, o seu imenso património territorial passou para a sua filha, Maria de Borgonha.
Antes mesmo da morte de Carlos, o duque buscava assegurar alianças fortes contra a França. Para tal, negociou o casamento de Maria (Duquesa da Borgonha) com Maximiliano. As negociações começaram em 1475, e a contenda de Neuss (ou Neuber) está relacionada a esse contexto político e militar. A “Contenda de Neuss” (1474–1475) refere-se ao cerco da cidade de Neuss por Carlos, o Temerário, contra o arcebispo de Colónia, um episódio marcante nas Guerras da Borgonha. O cerco fracassou, e o Imperador Frederico III aproveitou o momento para aproximar-se do duque da Borgonha, propondo o casamento entre Maria e o seu filho Maximiliano, como forma de pacificação e aliança. Após o cerco de Neuss e a celebração dos esponsais de Maximiliano e Maria (1477), ocorreram vários torneios e festas cavalheirescas, especialmente nas cortes de Gante e Bruges, que se tornaram símbolos da transição entre o cavalheirismo medieval e o renascimento cortesão.
A Borgonha, na Idade Média, viu nascer os maiores movimentos de reforma monástica com as abadias de Cluny e Cister. As duas famosas abadias foram durante vários séculos ao mesmo tempo centros de ciência dogmática, de pensamento reformador, centros de atividade econômica e social, artística e até política de primeira ordem para toda a Europa. Edifícios como a basílica de Vézelay e a abadia de Fontenay ainda testemunham essa influência. Alguns séculos depois, o empreendimento dos duques de Valois marcou profundamente a sua história. Filipe, o Bom e Carlos, o Temerário, fizeram do seu estado uma grande potência europeia que abrangia a atual Bélgica e Holanda e se tornou rival do reino da França. Filipe, o Bom, fundador da Ordem do Tosão de Ouro, fez brilhar a sua corte e espalhou a sua fama para o Oriente. Seu filho Carlos, o Temerário, reprimiu as revoltas de Gante na Flandres e Liège. Ele elevou o estado da Borgonha ao seu apogeu, mas a sua morte na Batalha de Nancy em 1477 trouxe o Ducado da Borgonha para o domínio da coroa francesa para sempre.
























