quarta-feira, 21 de abril de 2021

Aumentar a longevidade sem envelhecer: pseudociência ou protociência?




De acordo com o Livro do Génesis, Matusalém – filho de Enoque, pai de Lameque e avô de Noé, foi o homem que viveu mais tempo, 969 anos. Morreu no Dilúvio.

A imagem seguinte é uma cópia de uma primeira página da Philosophycal Transactions of the Royal Society of London, de 25 de abril de 1670, em que se lê um extrato de uma carta que fala de um tal Martel de Montauban, usando a palavra ciência, e aludindo ao ilustre Bacon.



The Philosophical Transactions of the Royal Society, ou Phil. Trans., é uma revista científica publicada pela Royal Society (Sociedade Real de Londres), que começou a ser publicada em 1665, sendo por isso a publicação científica mais antiga do mundo anglófono, e a segunda mais antiga do mundo. A mais antiga é a Journal des Savants. É ainda a revista que há mais tempo é editada. O uso da palavra Philosophical no seu nome é derivada da expressão natural philosophy (filosofia natural), que na altura era utilizada para denominar o que hoje chamamos de ciência.

Martel de Montauban é um personagem que não sobreviveu na história, mas é mencionado uma vez por David Boyd Haycock, autor de um artigo sobre a ideia de prolongamento da vida humana na Inglaterra no século XVII. O texto de Haycock cita Montauban e Francis Bacon, o importante filósofo da ciência inglês: “Sir Francis Bacon explorou como um problema médico a questão de que a duração da vida humana poderia voltar a ser de aproximadamente 1000 anos como desfrutada por Adão e os patriarcas”. O ensaio de Haycock faz parte de uma série chamada “Como os factos viajam?”




Trata-se de saber como prolongar a vida humana, e o ilustre francês carrega as suas observações citando Francis Bacon. Mas se isto é uma curiosidade histórica, já o mesmo não se passa com Aubrey de Grey, o polémico cientista inglês da computação, agora com 53 anos de idade, que afirma que humanos podem viver mil anos. Aparentemente recebeu um título de doutor em Biologia pela Universidade de Cambridge em 2000, mas não foi um estudante regular e matriculado lá. Teria recebido o título de doutor pelo seu livro “The mitochondrial free radical theory of aging”. Neste caso, ele dá uma reviravolta à Biologia com a sua transmutação da biologia genética para a computação, ou seja, engenharia genética.




Aubrey de Grey é um investigador da SENS Research Foundation, de que é cofundador e financiador com a herança que Grey recebeu da mãe. Além disso, há doações privadas de maluquinhos que ambicionam a vida eterna. Segundo este cientista marginal (vamos chamá-lo assim para o distinguir dos cientistas da corrente dominante ‘mainstream’), podemos derrotar o envelhecimento. Um painel da revista EMBO Reports, 2005, concluiu que nenhuma das hipóteses de Grey é suscetível de levar ao aumento da longevidade. E um segundo relatório chamou ao projeto da SENS mera pseudociência. Mas Grey insistiu na vida quase eterna, dizendo que já teria nascido o primeiro ser humano que alcançará a idade milenar.

Uma manifestação marginal da ciência, portanto. Mas nos tempos que correm, estas diatribes parecem não ser assim tão simples. Já se passaram quase 15 anos e Aubrey de Grey continua com grande popularidade, além de ser também o editor chefe da revista científica “Rejuvenation Research”, que apresenta pesquisas de ponta e avanços que podem finalmente contribuir para retardar ou reverter o processo de envelhecimento. A sua editora tem outros títulos como “Alternative and Complementary Therapies”, que integra terapias alternativas praticadas em hospitais privados e independentes da medicina convencional regulada pela Ordem dos Médicos dos respetivos países. Esta editora publica ao mesmo tempo, tanto temas marginais (‘fringe science’) como temas no âmbito da ciência convencional (‘mainstream’).




A despeito do que os painéis de avaliação científica possam dizer, a fronteira entre: pseudociência; ciência marginal; ciência estabelecida - está a ser cada vez mais posta em causa. Para isso seria necessário, finalmente, descrever o que significa: pseudociência; ciência marginal; e ciência propriamente dita - ‘mainstream’, institucionalizada ou sistematizada.

Já passaram uns bons anos desde que o filósofo da ciência, Thomas Kuhn, apresentou a sua teoria dos paradigmas e das revoluções no campo da ciência dita regular: um conjunto de crenças, regras, compromissos e valores que são compartilhados pelos cientistas por um determinado período de tempo e que confere à atividade de investigação científica a unidade mínima que permite constituir uma comunidade científica.

Deixando de lado a superstição, é importante definir rapidamente o que poderíamos chamar de pseudociência: afirmações, crenças e práticas que alegam ser científicas e baseadas em evidências, mas que carecem de um grande número de passos e de métodos bem estabelecidos há muito por toda a comunidade científica espalhada pelo mundo como se fosse a sua língua franca. A pseudociência é simplesmente incompatível com o método científico. Já a protociência pode ser considerada um novo tipo de ciência a nascer, ainda não institucionalizada e sistematizada. Na época em que Martel de Montauban publicou o seu artigo, apareciam outros autores na mesma revista, como Robert Boyle, Robert Hooke e Isaac Newton, cujos trabalhos viriam a dar origem a uma disciplina científica, que mais de, cerca de um século depois, viria a chamar-se Física, uma disciplina científica às vezes tratada como a mãe de todas as ciências.

Hoje a comunidade científica ‘mainstream’ debate-se com a peste dos “Negacionistas da peste Covid-19”. Este movimento marginal antissocial, autodenomina-se o único defensor da verdade, o que não deixa de ser desde logo um sintoma preocupante. Aubrey de Grey é uma espécie de protótipo desse modelo de pessoas. Figura de aparência exótica, em parte autodidata, incompreendido pela corrente dominante, e que tem o seu próprio instituto de pesquisa. Com marketing, já sabemos como é o marketing da banha da cobra, não lhe faltam adeptos num determinado nicho de público. Entretanto, a tensão na praça pública continua, e promete estar para durar. A ciência ‘mainstream’ tem de momento um árduo engulho pela frente. Por mais e melhor informação que seja facultada ao público em geral sobre o processo de obtenção do conhecimento científico, não a única forma de conhecermos a realidade do mundo, mas até à data por demais demonstrado que é a mais sólida em prever e obter resultados, apesar de sempre limitada e imperfeita, a verdade é que: crendices; teorias da conspiração e superstições, são idiossincrasias inerentemente humanas, demasiadamente humanas até. E apesar de o conhecimento humano, pelo que se acabou de dizer, ser sempre provisório, arrisco em dizer, na verdade, que a vida humana eterna nunca virá.  


terça-feira, 20 de abril de 2021

Ganância




Sentenças por ganância abundam em quase todas as culturas clássicas.
Políticos republicanos e escritores romanos atribuíram a morte da República Romana à ganância: Cícero (106 a 43 a.C.), Caio Salústio Crispo (86 a 34 a.C.), Plutarco (46 a 120 d.C.) . . . E na Mitologia Grega, Tântalo certa vez, ousando testar a omnisciência dos deuses, roubou os manjares divinos e serviu-lhes a carne do próprio filho Pélope num festim. Como castigo foi lançado ao Tártaro, onde, num vale abundante em vegetação e água, foi sentenciado a não poder saciar a fome e sede, visto que, ao aproximar-se da água esta escoava e ao erguer-se para colher os frutos das árvores, os ramos moviam-se para longe de seu alcance sob a força do vento. A expressão 'suplício de Tântalo' refere-se ao sofrimento daquele que deseja algo aparentemente próximo, porém, inalcançável.




Ganância é um sentimento humano que se caracteriza pela vontade de possuir tudo o que se admira. É a vontade obcecante de possuir qualquer coisa. É um desejo excessivo direcionado principalmente ao dinheiro ou riqueza material. Contudo, é associada também a outras formas de poder, nem que para isso seja necessário corromper terceiros e se deixar corromper, manipular e enganar chegando ao extremo de matar. Muitas vezes é confundida com ambição e avareza. No Cristianismo, é um dos sete pecados capitais. Em meados do século XIX, políticos e economistas afetados pelas ideias fenomenológicas de Hegel, passaram a definir a ganância como um vício inerente à estrutura da sociedade, pernicioso ao seu desenvolvimento saudável. E Max Weber afirmou que o espírito do capitalismo integrava uma faceta de ganância. De acordo com a Ética Protestante, dizia Weber: "a riqueza é, portanto, um afrodisíaco que fomenta a tentação pelo prazer pecaminoso da vida".

Na sátira de  Aristófanes - Plutus - um ateniense diz a Plutus, deus da riqueza, que enquanto os homens podem cansar-se do amor, da música, de figos e outros prazeres, nunca se cansarão da ganância por dinheiro. Se um homem tem treze talentos, faz tudo com o maior ardor para possuir dezasseis; se esse desejo for alcançado, ele vai querer quarenta. E se não conseguir, vai reclamar. 
O poeta romano Lucrécio achava que o medo da morte era um grande impulsionador da ganância. 



Lao Zi, o fundador do Taoismo, e autor, provavelmente apócrifo ou mítico, do Tao Te Ching, também fez alusões a esse fenómeno a que também chama lucro. Xun Zi acreditava que o egoísmo e a ganância faziam parte do lado escuro da natureza humana. Mas a humanidade vivendo em sociedade, o lado luminoso da vida humana, pugnava pela supressão dessas tendências negativas através de leis. Essa crença foi a base do legalismo, uma filosofia que se tornaria a ideologia predominante da Dinastia Qin, que continua a ser influente na China de hoje. Por outro lado, o filósofo Yang Zhu era conhecido por ter abraçado o interesse próprio. No entanto, a sua escola não endossou especificamente a ganância; em vez disso, foi enfatizada uma forma de hedonismo, onde o bem-estar individual tem precedência sobre tudo o resto.

Mêncio (Mestre Meng 370 a.C. - 289 a.C.), o mais eminente seguidor do Confucionismo -, estava convencido da bondade inata da natureza humana, mas mesmo assim alertou contra o impulso excessivo para a ganância. Ele estava preocupado com os efeitos desestabilizadores e destrutivos da ganância. São Tomás de Aquino afirma que a ganância é um pecado contra Deus, assim como todos os pecados mortais, na medida em que o homem é tentado a trocar as coisas espirituais pelas coisas temporais. Ele também escreveu que a ganância pode ser um pecado direto contra o Outro, quando um homem se afoga nas riquezas terrenas. Bens temporais possuídos em excesso nunca podem ser possuídos por todos ao mesmo tempo.

Dante - no poema Inferno - condena aqueles comprometidos com o pecado mortal da ganância à punição no quarto dos nove círculos do Inferno. Os seus habitantes devem lutar constantemente uns contra os outros. Virgílio, o espírito condutor, diz ao poeta que essas almas perderam a sua personalidade na desordem, e não são mais reconhecíveis: "Essa vida ignóbil, que as tornou vis antes, agora as torna sombrias, e a todo conhecimento indiscernível". No Purgatório, penitentes gananciosos foram amarrados e colocados de barriga para baixo no chão, por se terem concentrado demais em pensamentos voluptuosos.




Adam Smith achava que a ganância pelos bens de primeira necessidade era limitada, mas a ganância por bens de luxo era ilimitada. O homem rico não consome mais comida do que o seu vizinho pobre. Em qualidade pode ser muito diferente, e selecioná-la e prepará-la pode exigir mais trabalho e arte; mas em quantidade é quase o mesmo. Mas compare o palácio espaçoso e o grande guarda-roupa de um, com a trouxa e os poucos trapos do outro. Você reconhecerá a diferença, tão grande em quantidade como em qualidade. E o desejo de comida, quer por parte do rico, quer por parte do pobre, é limitado em cada pessoa devido à estreita capacidade dos seus estômagos. Mas tudo o que é externo ao corpo, não tem limites. Não é da benevolência do açougueiro, do cervejeiro ou do padeiro, que esperamos o nosso jantar, mas do respeito que eles têm pelo seu próprio interesse.

John Stuart Mill, no seu ensaio "O Utilitarismo", sobre a ganância por dinheiro diz o seguinte:
«O amor ao dinheiro não é apenas uma das forças móveis mais fortes da vida humana, mas o dinheiro é, em muitos casos, desejado por si mesmo; o desejo de possuí-lo é muitas vezes mais forte do que o desejo de usá-lo. E quanto mais cresce o monte de dinheiro, mais vontade se tem de querer mais, mais e mais. Pode então dizer-se, verdadeiramente, que o desejo do ganancioso por dinheiro é mais como um fim, do que como um instrumento. De ser um meio para o bem-estar humano, já que a felicidade ninguém sabe bem o que é. "Ser feliz", não passa de um slogan para patetas. Assim como "poder" ou "fama". Felicidade, não passa de um ingrediente, de uma droga, de um vício. O mesmo pode ser dito da maioria dos grandes artefactos do engenho humano. Prazer imediato sim, mas efémero.»

segunda-feira, 19 de abril de 2021

A linha férrea do Hejaz






O principal propósito da Hejaz Railway foi estabelecer, com os seus quase 1.400 quilómetros de extensão, a ligação de Istambul, capital do Império Turco-Otomano, à cidade sagrada de Meca. Mas em decorrência dos conflitos na região, não foi além de Medina, a 400 quilômetros de Meca. A linha corta a região do Hejaz (a Oeste da Península Arábica), com um braço que se estende até Haifa, no Mar Mediterrâneo, e promoveria a integração económica e política do Império Turco com as províncias árabes, também facilitando o transporte de forças militares e de mercadorias. Os Turcos tinham-na como fonte vital de abastecimento aos seus 10 mil homens em Medina. Por isso, a ferrovia tornou-se a espinha dorsal da campanha militar.

A linha foi sugerida em 1864, para aliviar os peregrinos do Hejaz na sua viagem de 40 dias através das regiões inóspitas de Mediã e das montanhas do Hejaz. Era comum que 20% dos peregrinos morressem durante a viagem, de fome, sede e de doenças. Basicamente, a linha do Hejaz era um uma parte de um projeto muito mais ambicioso que ligava Berlim a Bagdade. A
 sua construção foi iniciada em 1900 por ordem do sultão Abdullamid II, com as obras dirigidas pelo engenheiro civil alemão Heinrich August Meissner, financiadas pelo Deutsche Bank, com forte apoio do Império Alemão. Foi aberta uma subscrição pública por todo o mundo islâmico para o financiamento da construção, mas em 1912 o Império Otomano devia 29 milhões de libras turcas ao Deutsche Bank. 

Antes da construção, o conselheiro militar alemão Auler Paxá estimou que o tempo de transporte de soldados entre Istambul e Meca seria reduzido para 120 horas. A linha de Bagdade foi construída ao mesmo tempo. Devido ao financiamento depender de doações e à pressão crescente do Reino Unido e da França, a construção avançou muito lentamente e demorou bastante mais do que o previsto. A linha chegou a Medina sob a supervisão do engenheiro chefe Mouktar Bei no dia 1 de setembro de 1908, dia do aniversário da subida ao trono do sultão. No entanto, para que a inauguração pudesse ocorrer nesse dia recorreu-se a vários artifícios, como alguns trechos da linha serem colocados sobre aterros provisórios em Wadi Rum. Em 1913 foi aberta a Estação do Hejaz no centro de Damasco, o terminal da linha.

E então voltamos ao tópico do Lawrence da Arábia e da Revolta Árabe no decurso da Primeira Guerra Mundial. Desde já se diga que, após a queda do Império Otomano, depois da Primeira Guerra Mundial, a linha não voltou a abrir a sul do que é hoje a fronteira entre a Jordânia e a Arábia Saudita. Em meados da década de 1960 foi feita uma tentativa de reabertura, a qual foi abandonada devido à Guerra dos Seis Dias, em 1967 (entre 5 e 10 de junho), um conflito que envolveu Israel e os países Árabes [Síria, Egito, Jordânia e Iraque, apoiados pelo Kuwait, Arábia Saudita, Argélia e Sudão], e em que Israel saiu vitorioso. Em 2018 só dois trechos da linha original estavam completamente funcionais. Um desses trechos - Amã a Damasco. 
Atualmente os comboios partem da estação de Qadam, nos arredores de Damasco, e não da Estação de Hejaz, que encerrou em 2004. Muitas das locomotivas originais foram restauradas: na Síria há nove locomotivas a vapor funcionais; na Jordânia há sete. 

A 9 de maio de 1917, partiram de Wejh. Não havia hipótese de os Turcos esperarem um ataque do deserto porque estava inexplorado e era raro lá passar alguém - não havia poços em centenas de quilómetros. Os Turcos sentiam-se seguros com as costas protegidas pelo deserto. Os dias passavam lentamente e a solidão do deserto abrasador e das noites gélidas apenas se alterava na textura da areia soprada pelo vento ou no cascalho que percorriam. Atravessaram a Linha dos Peregrinos perto da aldeia de Dizad. Os Turcos patrulhavam a via-férrea com tropas em camelos e vagonetas protegidas por metralhadoras, mas não viram sinais de atividade turca, pelo que Lawrence colocou cargas explosivas na linha. Auda ficou desiludido ao ver o tamanho delas, mas nunca tivera a experiência da dinamite. Lawrence ativou os detonadores e o grupo retirou para trás das dunas; Auda ficou ousadamente de pé, sem proteção. A explosão foi sonora e lançou bem alto muita areia e secções de carris e de chulipas. Auda, abalado, impressionado com a explosão, passou a dissertar liricamente sobre a dinamite. Receosos de que as explosões alertassem os Turcos, cortaram o telégrafo. Ouviram os Turcos a aproximar-se. Sem saberem o que tinha acontecido nem a causa das explosões, disparavam a torto e a direito para as colinas. O grupo de Lawrence escapuliu-se e desapareceu.

A 30 de maio, guerreiros da tribo Abu Tayi juntaram-se ao grupo. A caravana pôs-se em marcha, num espetáculo notável. A força de incursão de Lawrence seguiu o caminho-de-ferro para sul e deu com um posto turco que guardava uma estação de reabastecimento e um armazém ferroviário. Ao verem ovelhas amarradas a um poste, os Árabes, famintos, não precisaram de persuasão para atacar. Zaal apontou ao Turco mais próximo, um oficial refastelado numa cadeira. Ouviu-se um disparo e os soldados turcos, incrédulos, viram-no deslizar, atingido no coração. Foi o sinal para os homens de Lawrence carregarem sobre o posto. Os Turcos fugiram para o edifício de pedra e barricaram a porta, e os Árabes, sem interferência dos Turcos apavorados, apoderaram-se do rebanho. O edifício foi regado com parafina e incendiado. Nessa noite, regalaram-se com um festim de borrego assado. Em Bair, juntaram-se à força principal que continuava a avançar para sul, em direção a Aqaba.

Os Turcos não sabiam da aproximação das forças de Lawrence e que bloqueavam o único acesso a Aqaba. Com as provisões a escassear e sem possibilidade de se reabastecer, Lawrence viu-se confrontado com um inesperado contingente turco equipado com metralhadoras, artilharia e cavalaria. Só havia uma opção: atacar de surpresa ao alvorecer; caso contrário, a missão estava condenada ao fracasso ou, pior ainda, ficariam encurralados no deserto, à mercê dos Turcos. Quando o sol nasceu, já os Árabes tinham subido aos montes que dominavam o desfiladeiro de Aba el Lissan. Como os Turcos não tinham colocado sentinelas, Lawrence destruiu a linha de telefone para Maan. Apesar de em inferioridade numérica, os Árabes cercaram os soldados adormecidos. Aos primeiros raios de sol, abriram fogo. Sobreveio então a confusão. Com os sons dos disparos a reverberarem nas colinas, os Turcos não conseguiam identificar as posições dos atacantes nem determinar a sua força. Dispararam às cegas até começarem a ficar sem munições. Passada uma hora, os Árabes tinham dizimado a força turca, e o pânico instalou-se.

Os soldados tentavam escapar numa direção mas eram alvejados pela retaguarda; quando optavam por direção diferente, eram brindados com idêntico tratamento. A meio da manhã, os sobreviventes esconderam-se entre as rochas que pejavam o desfiladeiro, enquanto os Árabes continuavam a atirar sobre tudo o que mexia. O dia foi avançando e o calor começou a fazer vítimas entre Árabes e Turcos. Cada tentativa dos Turcos para obterem água do poço era saudada com tiros precisos e a crescente pilha de corpos em redor dos baldes de água era forte dissuasor para os sobreviventes, que começavam a perder as forças por causa da sede. Lawrence compreendeu que tinha de agir. Procurou Auda e o velho chefe árabe correu para o camelo e desceu a encosta até um barranco escondido onde concentrara os seus 300 melhores guerreiros. A um sinal seu, carregaram encosta abaixo sobre os Turcos, que estavam exaustos. Já os Árabes estavam a massacrá-los pela destruição da aldeia no dia anterior e, em menos de 5 minutos, jaziam em redor do poço mais de 400 mortos. Exaustos pelo esforço, os atacantes acederam ao apelo de Lawrence para porem fim à chacina e cerca de 100 turcos foram feitos prisioneiros. Admitiram que a guarnição de Maan ficara reduzida a menos de um regimento.

Estes acontecimentos excitaram os Howeitat, que quiseram avançar de imediato sobre Maan. A possibilidade de se apoderarem de uma cidade importante e de a pilharem era quase irresistível para os homens de Auda, que sabiam que a única coisa que existia em Aqaba era um porto em ruínas. Para os Árabes, a vantagem tática de Aqaba era insignificante comparada com a pilhagem de Maan. Mas Lawrence e Auda resolveram a questão com promessas de ouro em Aqaba. Os Árabes contentaram-se com os despojos dos turcos mortos e feridos.

Com 140 novos prisioneiros, seguiram caminho e ao anoitecer estavam a menos de 5 quilómetros de Aqaba. Do alto do desfiladeiro, olharam para o pequeno porto, onde não parecia haver muita atividade turca. A guarnição era comparável ao contingente árabe, mas os Turcos julgaram-se em inferioridade. Aceitaram render-se e Lawrence realizou o impossível: Aqaba fora conquistada, 
hoje uma cidade portuária da Jordânia, junto ao Mar Vermelho.

Depois do triunfo de Aqaba, a caminho para Damasco, há um episódio traumático que muitos têm apontado como o motivo da alteração de comportamento de Lawrence. Mais fechado, mais duro, mais secreto, com vontade de desistir, depois de ter sido capturado pelo exército turco e sujeito a tortura. Antes da violência de que seria alvo, o oficial fizera-lhe uma proposta. O papel de Lawrence na aliança estabelecida com o influente emir Faisal, na conquista de Damasco. 




Os comboios destruídos durante a Revolta Árabe de 1916 a1918 ainda podem ser vistos nos locais onde foram atacados. A estação de Madain Saleh foi restaurada e transformada num museu. O Sítio Arqueológico de al-Hijr ou Madaim Salé ("lugar da rocha"), é uma antiga cidade localizada a norte de Hejaz, Arábia Saudita, a 22 quilómetros da cidade de Al-Ula. Localiza-se a cerca de 320 quilómetros de Petra, na Jordânia, sendo que as duas localidades, no seu conjunto, representam um testemunho histórico da arquitetura dos povos da região, notadamente os Nabateus. Na Antiguidade, a região era habitada pelos povos tamudis e nabateus, sendo denominada como Hegra. Inscrições e gravações encontradas em vários desses monumentais tumulares datam do século II a.C. e a sequência de construção deles se estende até ao século I d.C., todos construídos pela civilização nabateia que habitava a região nesse período. Outros elementos arquitetónicos encontrados, posteriores, datam do período das civilizações tamudi e liane. É Património Mundial da Unesco.

Na leitura de "Os Sete Pilares da Sabedoria", deparamo-nos muitas vezes com um Lawrence contemplativo: “O exército morto das minhas esperanças, agora tornado real, confrontava-me, e a minha vontade, esse instrumento gasto que durante tanto tempo corroera o nosso caminho, partiu-se subitamente nas minhas mãos e parecia ser inútil. Dizia-me que esse capítulo oriental da minha vida chegara ao fim. Havia a manhã e o dia seguinte de cuidado implacável, em que quase de certeza o Faiçal conquistaria os frutos da batalha; e isso era tudo trabalho meu. Ou teria sido apenas um sonho, do qual eu voltaria a acordar sentado na sela, com mais meses de esforço, de pregação e de risco pela frente?” Acaba por ser uma narrativa poética sobre um encontro de culturas, uma obra ao mesmo tempo profundamente observadora e introspetiva, um olhar atento sobre o outro e sobre o próprio. Escrita por um homem em constante conflito interior com o seu papel ambíguo na chamada Revolta Árabe: de um lado os árabes, seus ‘irmãos’ de combate; do outro os ingleses, cheios de promessas que ele sabia que não seriam cumpridas.

Lemos, relemos, citamos e há sempre um silêncio que potencia o mistério, o enigma, ou como escreveu Churchill: nenhum extrato ou citação poderia transmitir a atmosfera que o leitor respirará. A vastidão do deserto, o peso do sol, o terrível cansaço das longas marchas de camelo, os restos de comida e as gotas de água que têm gosto de festas dos deuses, a tensão feroz e rígida das emboscadas, os cruéis e impiedosos combates, as grandes operações de guerra nas quais esse combate teve um papel notável, a aniquilação da coluna turca, a rutura das comunicações turcas, a tentativa perdida com um punhado de irregulares para impedir a retirada de um exército turco-alemão de 80.000 soldados, a entrada triunfante em Damasco, uma série inesgotável de quadros que prendem a mente e agitam a alma. A questão dos enigmas prende-se mais com as vicissitudes que rodearam a pré-publicação. Ele perdeu o manuscrito, teve de escrever outra vez tudo de memória. É claro que é a própria condição do autor que faz da narrativa um romance. Não há dúvida que Lawrence é uma personalidade excêntrica, mas ao mesmo tempo reservada. No texto perpassa mais uma inquietude do narrador, que constantemente se questiona se estará à altura da missão. Quis demitir-se várias vezes. 
Associado a uma simbologia entre o romântico e o pop, morre aos 46 anos, num acidente de mota. 

Mais uns excertos do livro - Os Sete Pilares da Sabedoria de T. E. Lawrence:
A batalha permanente despojava-nos de preocupações pela nossa vida ou pelas dos outros. Tínhamos a corda ao pescoço e as nossas cabeças estavam a prémio, por valores tais que revelavam que o inimigo nos preparava torturas hediondas se fôssemos apanhados. Todos os dias morriam alguns de nós; e os que continuavam vivos sentiam que não passavam de fantoches sencientes no palco de Deus; na realidade, o nosso capataz era impiedoso, impiedoso, enquanto os nossos pés doridos conseguissem arrastar-se pelo caminho. Os fracos invejavam aqueles que se cansavam suficientemente para morrer; pois a vitória parecia tão longínqua e o fracasso uma libertação próxima e garantida, embora dura, do sofrimento. Vivíamos sempre com os nervos ora retesados, ora bambos, ora no auge, ora na depressão das vagas do sentimento. Esta impotência era amarga e fazia que vivêssemos apenas para o horizonte que avistávamos, indiferentes ao mal que infligíamos ou suportávamos, visto que a sensação física se revelava mesquinhamente transitória. As rajadas de crueldade, perversões, desejos, passavam ao de leve sobre a superfície sem nos perturbarem; porque as leis morais que tinham parecido proteger-nos destes acidentes patetas deviam ser palavras ainda mais débeis. Tínhamos aprendido que havia dores demasiado agudas, mágoas demasiado profundas, êxtases demasiado elevados, para poderem ser registados pelos nossos seres finitos. Quando a emoção atingia o seu auge, a mente ficava sufocada; e a memória apagava-se até as circunstâncias regressarem à normalidade.
Tamanha exaltação do pensamento, embora deixasse o espírito à deriva e lhe conferisse permissão para vogar em estranhos ares, retirava-lhe o antigo domínio paciente sobre o corpo. O corpo era demasiado grosseiro para sentir o auge dos nossos desgostos e das nossas alegrias. Por isso, abandonávamo-lo como se fosse lixo; deixávamo-lo abaixo de nós para marchar em frente, um simulacro dotado de respiração, ao seu próprio nível, sem assistência, sujeito a influências das quais, em tempos normais, os nossos instintos nos teriam feito fugir. Os homens eram jovens e robustos; e a carne e o sangue quentes reclamavam inconscientemente um direito e atormentavam-lhes os ventres com estranhos desejos. As nossas privações e perigos acalmavam este ardor viril, num clima tão excessivo quanto se possa imaginar. Não tínhamos locais fechados onde pudéssemos ficar sozinhos, nem roupas espessas para ocultar a nossa natureza. Em todas as coisas, o homem vivia ingenuamente com o homem.

O Árabe era, por natureza, continente; e o uso do casamento universal tinha praticamente abolido relações irregulares nas suas tribos. As mulheres públicas das escassas povoações que encontrámos nos nossos meses de viagem não teriam chegado para nós, mesmo que a sua carne ocre tivesse sido aceitável para um homem de gostos saudáveis. Horrorizados ante esse comércio sórdido, os nossos jovens começaram a satisfazer indiferentemente as poucas necessidades uns dos outros nos seus próprios corpos limpos – uma conveniência fria que, por comparação, parecia assexuada e até pura. Posteriormente, alguns deles começaram a justificar este processo estéril, e juravam que amigos estremecendo juntos na areia macia, com os membros íntimos quentes no abraço supremo, encontravam aí, oculto na escuridão, um coeficiente sensual da paixão mental que fundia as nossas almas e espíritos num esforço ardente. Vários deles, suportando a sede para castigar apetites que não conseguiam evitar completamente, sentiam um orgulho selvagem em degradar o corpo e ofereciam-se ferozmente para qualquer tarefa que prometesse sofrimento físico ou imundície.

Fui enviado para o pé desses árabes como um estranho, incapaz de pensar como eles ou de aceitar as suas crenças, mas compelido pelo dever de os conduzir e de desenvolver ao máximo qualquer movimento deles que pudesse ser vantajoso para a Inglaterra na sua luta. Se não podia assumir o seu carácter, podia pelo menos ocultar o meu, e passar entre eles sem fricção evidente, sem discordar nem criticar, apenas como uma influência despercebida. Como fui seu companheiro, não posso ser seu apologista nem seu defensor. Hoje, nos meus trajos antigos, poderia passar por espectador, obedecendo às sensibilidades do nosso teatro… mas é mais honesto registar que essas ideias e atos eram então considerados naturais. Aquilo que agora parece dissoluto ou sádico parecia inevitável no terreno, ou apenas um hábito pouco importante.

Tínhamos sempre sangue nas mãos; estávamos habituados a ele. Ferir e matar pareciam-nos sofrimentos efémeros, tão breve e dorida era a vida para nós. Sendo tão grande a dor de viver, a dor do castigo tinha de ser implacável. Vivíamos para o dia de hoje e morríamos por ele. Quando havia razão e desejo de castigar, escrevíamos imediatamente a nossa lição com a espingarda ou o chicote na carne obstinada do desgraçado, e não havia hipótese de apelo. O deserto não permitia os lentos e requintados castigos dos tribunais e das prisões.

Evidentemente, as nossas recompensas e prazeres eram tão subitamente arrebatadores como os nossos sofrimentos; mas, para mim, em particular, era menor o seu volume. Os modos dos beduínos eram duros mesmo para os que neles tinham sido criados, e para os estrangeiros terríveis; uma morte em vida. Quando a marcha ou o trabalho terminavam, eu não tinha energia para registar as sensações, nem, enquanto duravam, tempo para ver a beleza espiritual que por vezes nos invadia no caminho. Nas minhas notas encontram-se mais coisas cruéis do que belas. Sem dúvida apreciávamos mais os raros momentos de paz e esquecimento; mas eu recordo-me melhor da agonia, dos terrores e dos erros. A nossa vida não se resumia àquilo que escrevi (há coisas que não podem ser repetidas a sangue-frio, tão vergonhosas são); mas o que escrevi existiu e fez parte da nossa vida. Queira Deus que quem ler estas páginas não decida, por amor ao fascínio da singularidade, prostituir-se a si e ao seu talento ao serviço de outra raça.

Um homem que se ponha à disposição de estranhos faz uma vida de animal, pois vendeu a alma a um treinador de animais. Não é um deles. Pode voltar-se contra eles, pode convencer-se de que tem uma missão, transformá-los em algo que eles, por sua própria vontade, nunca seriam. Assim explora o seu próprio ambiente antigo, para os forçar a sair do deles. Ou, segundo o meu modelo, poderá imitá-los tão bem que eles, simuladamente, o imitam também. Então está a sair do seu próprio ambiente, fingindo pertencer ao deles; e os fingimentos são coisas vãs, inúteis. Em nenhum dos casos faz uma coisa sua, nem uma coisa tão límpida que possa tornar sua (sem a ideia de conversão), permitindo aos outros que ajam ou tenham as reações que lhes agradem, a partir do exemplo silencioso.

No meu caso, o esforço feito durante estes anos para viver disfarçado de árabe, imitando as suas bases mentais, separaram-me do meu eu inglês e fizeram-me olhar para o Ocidente e para as suas convenções com novos olhos; destruíram-no completamente em relação a mim. Simultaneamente, não podia sinceramente meter-me na pele dos Árabes; era apenas uma imitação. Era fácil fazer de um homem um infiel, mas dificilmente se poderia convertê-lo a outra fé. Eu tinha abandonado uma forma sem tomar outra, e tinham-me tornado como o caixão de Maomé da nossa lenda, com a consequente sensação de intensa solidão na minha vida, e um desprezo, não pelos outros homens, mas por aquilo que eles fazem. Este distanciamento ocorre, por vezes, com os homens exaustos por um esforço físico e isolamento prolongados. O corpo continua a funcionar mecanicamente, enquanto a mente racional os abandona e, de fora, os olha criticamente, perguntando a si mesma o que fez e porquê aquele traste inútil em que habitou. Por vezes, os dois eus travam conversas no vácuo; e então a loucura está próxima, como creio que se aproximaria do homem que conseguisse ver as coisas simultaneamente através dos véus de dois costumes, duas culturas, dois ambientes

Houve de novo uma pausa no meu trabalho, e de novo tive tempo para pensar. Até Faiçal, e Jaafar, e Joyce, e o exército chegarem, pouco podíamos fazer, além de pensar; contudo, pensar, devemos reconhecê-lo, era um processo essencial. Até então, a nossa guerra tivera uma única operação planeada – a marcha sobre Aqaba. Aqueles movimentos acidentais dos homens e das ações de que havíamos assumido o comando davam-nos cabo da cabeça. Fiz o voto de, a partir daquela altura, antes de tomar uma decisão, saber sempre antecipadamente para onde ia e quais as rotas a percorrer.

Em Wejh, a Guerra do Hejaz estava ganha: depois de Aqaba, terminara. O exército de Faiçal pagara as suas responsabilidades árabes, e agora, sob o comando do general Allenby, comandante-chefe adjunto, o seu papel seria participar na libertação da Síria. A diferença entre o Hejaz e a Síria era a diferença entre o deserto e a terra semeada. O problema que se nos deparava era um problema de carácter – aprendermos a tornar-nos civis. A aldeia do Wade Musa era o nosso primeiro ponto de recruta de camponeses. A menos que nos tornássemos camponeses também, o movimento de independência não poderia prosseguir.

Era vantajoso para a revolta árabe que se impusesse aquela modificação quase no início do seu crescimento. Esforçáramo-nos em vão por semear terrenos baldios, para fazer crescer a nacionalidade num lugar cheio da certeza de Deus, aquela certeza perniciosa que proibia todas as esperanças. Entre as tribos, a nossa crença só poderia ser como a erva do deserto – uma bela e rápida aparência de Primavera que, ao fim de um dia de calor, secava coberta de poeira. Os objetivos e as ideias tinham de ser traduzidos em expressão material. Os homens do deserto estavam demasiado separados para expressarem os primeiros; demasiado pobres em bens materiais, demasiado afastados da complexidade para apoiarem as segundas. Se quiséssemos prolongar a nossa duração, teríamos de conquistar as terras cultivadas, chegar às aldeias onde os tetos ou os campos conservavam os olhos dos homens voltados para baixo e para o que estava próximo e iniciar a nossa campanha como iniciáramos.

Tínhamos os pés na sua fronteira meridional. Para leste, estendia-se o deserto dos nómadas. A oeste, a Síria era limitada pelo Mediterrâneo, desde Gaza a Alexandreta. A norte, era limitada pelas povoações turcas da Anatólia. Dentro destes limites, a terra estava bastante emparcelada por divisões naturais. Destas, a primeira e a maior era longitudinal, a acidentada cordilheira de montanhas que, de norte a sul, separava uma faixa costeira de uma ampla planície interior. Estas regiões tinham diferenças climáticas tão acentuadas que quase formavam dois países, duas raças, com as suas respectivas populações. Os sírios da costa viviam em casas diferentes, alimentavam-se e trabalhavam de maneira diferente, e o seu árabe diferia, na inflexão e no tom, daquele que falavam os homens do interior. E gostavam pouco de falar do interior, como se se tratasse de uma terra selvagem, onde dominassem o sangue e o terror.

A planície interior encontrava-se geograficamente subdividida em diversas faixas pelos rios. Estes vales continham as safras mais estáveis e mais prósperas de todo o país. Os seus habitantes eram um reflexo deles: contrastavam, do lado do deserto, com as populações estranhas e instáveis da fronteira, que se deslocavam para leste ou para oeste conforme as estações, viviam de expedientes, atacadas pela seca e pelos gafanhotos ou pelos ataques dos Beduínos; ou, se nada disto as conseguisse destruir, pelas suas próprias incuráveis quezílias sangrentas.

A Natureza dividira, pois, o país em zonas. Os homens, aperfeiçoando a Natureza, deram aos seus compartimentos uma maior complexidade. Cada uma destas divisões principais em faixas, de norte a sul, era atravessada e dividida artificialmente, por meio de muralhas, em diversas comunidades. Era necessário reuni-las nas nossas mãos para a ação ofensiva contra os Turcos. As oportunidades e as dificuldades de Faiçal residiam nessas complicações políticas da Síria que ordenámos mentalmente, como num mapa social.

No extremo norte, o mais afastado de nós, a fronteira da linguagem acompanhava, naturalmente, a estrada que ia de Alexandreta a Alepo, até se encontrar com o caminho-de-ferro de Bagdad, ao longo do qual subia o vale do Eufrates; mas havia enclaves de expressão turca a sul desta linha, nas aldeias turcomanas a norte e a sul de Antioquia, e entre os arménios que se haviam introduzido no meio delas.

Além disso, uma das principais componentes da população costeira era a comunidade de Ansarianos, os discípulos de um culto da fertilidade, puramente pagã, xenófoba, descrente do islamismo, atraída por vezes para o lado dos cristãos graças a perseguições comuns. Esta seita, de importância vital, estava apegada às tradições do clã quanto a sentimentos e a política. Um Nosairita nunca trairia outro e dificilmente deixaria de trair um não-crente. As suas aldeias estavam situadas em pequenas manchas ao longo dos montes principais até ao desfiladeiro de Trípoli. Falavam árabe, mas viviam ali desde o início da cultura grega na Síria. Mantinham-se geralmente afastados dos negócios e deixavam em paz o Governo turco, numa esperança de reciprocidade.

Havia colónias de cristãos sírios misturadas com os Ansarianos; e na faixa do Orontes houvera algumas sólidas comunidades de arménios, inimigas dos Turcos. No interior, perto de Harim, encontravam-se os Drusos, de origem árabe; e alguns circassianos provenientes do Cáucaso. Estes eram inimigos de todos. A nordeste deles encontravam-se os Curdos, que se haviam fixado umas gerações antes e se estavam a casar com árabes e a adotar a sua política. Odiavam sobretudo os cristãos nativos; e a seguir a estes, odiavam os Turcos e os Europeus.

Se se fizesse um corte da Síria, do mar ao deserto, um pouco mais para sul, começar-se-ia por encontrar colónias de circassianos muçulmanos, perto da costa. Na nova geração falavam árabe e constituíam uma raça engenhosa, mas beligerante, muito hostilizada pelos seus vizinhos árabes. Para o interior ficavam os Ismaelitas. Estes imigrantes persas tinham-se tornado árabes ao longo de séculos, mas reverenciavam entre si um Maomé que, em carne e osso, era o Aga Khan. Consideravam-no um magnífico soberano, que honrava os Ingleses com a sua amizade. Evitavam os muçulmanos, mas disfarçavam mal a sua animosidade sob um verniz de ortodoxia.

Além deles, podiam observar-se as estranhas paisagens das aldeias tribais de árabes e cristãos, chefiados por xeques. Pareciam ser cristãos muito sólidos, diferentemente dos seus irmãos lamurientos dos montes. Viviam como os sunitas que os rodeavam, vestiam-se como eles e mantinham com eles as melhores relações. A oriente dos cristãos, encontravam-se comunidades muçulmanas pastoris; e, no limite final dos terrenos cultivados, havia algumas aldeias párias de ismaelitas, procurando a paz que os homens não lhes concediam. Para lá deles, os Beduínos.

Um terceiro corte através da Síria, outro grau mais abaixo, passava entre Trípoli e Beirute. Em primeiro lugar, perto da costa, estavam os cristãos libaneses; na sua maior parte, maronitas ou gregos. Era difícil desenredar as políticas das duas Igrejas. À primeira vista, uma delas devia ter sido francesa e a outra russa; mas uma parte da população, em busca de riqueza, estivera nos Estados Unidos, e aí se desenvolvera uma tendência anglo-saxónica, não menos vigorosa por ser espúria. A Igreja grega orgulhava-se de ser a da Síria antiga, autóctone, de um intenso regionalismo que seria mais suscetível de se aliar à Turquia do que de suportar o domínio irremediável de uma potência romana.

Nas encostas mais elevadas dos montes aglomeravam-se povoações dos Metawalas, maometanos xiitas de ascendência persa. Eram gente suja, ignorante, sombria e fanática, que se recusava a comer ou a beber com infiéis; consideravam os sunitas tão maus como os cristãos; seguiam apenas os seus próprios sacerdotes e notáveis. A força de carácter era a sua virtude, uma virtude rara na volúvel Síria. Nos cumes dos montes havia aldeias de camponeses cristãos, que viviam em paz com os seus vizinhos muçulmanos como se nunca tivessem ouvido os protestos do Líbano. A oriente destes encontravam-se camponeses árabes seminómadas; e depois havia o deserto.

Um quarto corte, um grau para sul, passaria perto de Acra, cujos habitantes, a começar pela costa, eram antes de mais árabes sunitas, depois drusos e depois Metawalas. Nas margens do vale do Jordão viviam colónias, terrivelmente desconfiadas, de refugiados argelinos, diante de aldeias judaicas. Os judeus eram de diversos tipos. Alguns deles, estudiosos hebreus de estilo tradicionalista, tinham criado um padrão e um estilo de vida adequado à região, ao passo que os que chegaram depois, muitos dos quais de influência alemã, tinham introduzido hábitos estranhos, culturas estranhas e casas europeias (construídas graças a doações) naquela terra da Palestina, que parecia demasiado pequena e demasiado pobre para poder retribuir devidamente os seus esforços; mas a região tolerara-os. A Galileia não demonstrava a aversão profundamente arreigada aos colonos judeus que constituía uma característica desagradável da vizinha Judeia.

Nas planícies orientais (altamente povoadas de árabes), estendia-se um labirinto de lava estalada, o Leja, onde os homens sem lei da Síria se congregavam havia inúmeras gerações. Os seus descendentes viviam em aldeias indisciplinadas, a salvo dos Turcos e Beduínos, dedicando-se à vontade às suas quezílias mutuamente destrutivas. A sul e a sudoeste deles abria-se o Hauran, uma enorme região fértil, povoada por camponeses árabes belicosos, autossuficientes e prósperos.

A leste destes encontravam-se os Drusos, muçulmanos heterodoxos seguidores de um sultão egípcio completamente louco. Sentiam pelos Maronitas um ódio terrível, que, quando encorajado pelo Governo e pelos fanáticos de Damasco, se manifestava por meio de grandes matanças periódicas. Não obstante, os Drusos eram detestados pelos árabes muçulmanos e, por sua vez, desprezavam-nos. Estavam em permanente hostilidade com os Beduínos e preservavam na sua montanha manifestações do feudalismo cavaleiresco do Líbano dos tempos dos seus emires autónomos.

Um quinto corte, à latitude de Jerusalém, começaria por alemães e judeus alemães, de expressão alemã iídiche, ainda mais intratáveis que os judeus da era romana, incapazes de aceitar o contacto com quem não fosse da sua raça, alguns deles camponeses, na sua maioria comerciantes, constituindo a mais estrangeira e menos caritativa parte de toda a população da Síria. À sua volta concentravam-se os seus inimigos, os sombrios camponeses da Palestina, mais estúpidos que os do Norte da Síria, interesseiros como os Egípcios e desprovidos de tudo.

A leste deles ficava a profundeza do Jordão, habitada por escravos escuros; e, em frente dela, grupos sucessivos de dignas aldeias cristãs que constituíam, a seguir aos seus correligionários agrícolas do vale do Orontes, os exemplos menos tímidos de nossa fé original naquele país. Entre elas, e a leste delas, viviam dezenas de milhares de árabes seminómadas, preservando o credo do deserto, receosos e sujeitos aos seus vizinhos cristãos. Nesta região disputável, o Governo otomano implantara uma linha de imigrantes circassianos do Cáucaso russo. Estes só conseguiam conservar as suas terras pela força da espada e com a ajuda dos Turcos, aos quais eram, por necessidade, dedicados.

O Zaagi irrompeu em gargalhadas nervosas, ainda mais desoladas perante o sol quente e o ar transparente daquela tarde no planalto. Eu disse: «Que o melhor de vós me traga o maior número de turcos mortos», e corremos atrás do inimigo em fuga, abatendo de caminho todos os que tinham caído junto da estrada e imploravam a nossa piedade. Um turco ferido, meio nu, incapaz de se pôr de pé, sentou-se e começou a chorar, olhando para nós. Abdulla voltou a cabeça do camelo, mas o Zaagi, praguejando, adiantou-se e meteu três balas da sua automática no peito nu do homem. O sangue começou a jorrar com os batimentos do coração, cada vez mais lentamente.

Tallal vira o mesmo que nós. Soltou um gemido, como um animal ferido; depois, dirigiu-se para o terreno mais elevado e ficou aí, durante algum tempo, montado na sua égua, a tremer e a olhar fixamente na direção dos Turcos. Comecei a aproximar-me para falar com ele, mas Auda agarrou-me nas rédeas e deteve-me. Muito lentamente, Tallal tapou o rosto com o pano da cabeça; em seguida, pareceu subitamente tomar consciência de si mesmo, porque enterrou os estribos nos flancos da égua e partiu a galope, inclinado para a frente e oscilando na sela, direito ao corpo principal do inimigo.

Era uma longa cavalgada, ao longo de uma encosta suave, passando por uma depressão. Ficámos parados, como estátuas, enquanto ele avançava, e o martelar dos cascos da égua parecia-nos anormalmente elevado, pois parávamos de disparar, e os Turcos também. Ambos os exércitos esperavam por ele; e ele continuava a cavalgar, na tarde silenciosa, até se encontrar a curta distância do inimigo. Depois endireitou-se na sela e soltou o seu grito de guerra: «Tallal, Tallal», por duas vezes, com uma voz terrível. As espingardas e as metralhadoras inimigas entraram imediatamente em funcionamento, e ele e a sua égua, crivados de balas, caíram mortos entre as pontas das lanças.

quinta-feira, 15 de abril de 2021

Oro incenso & birra




Incivilire la malavita - civilizar a delinquência
Castigare la carne - castigar a carne
Oro bianco - ouro branco
Bruciare l’incenso - bajular
Birra chiara - cerveja branca


Civilizar é subjugar as pulsões, ou por outras palavras: as maldades, que nem todas são crime da alçada do direito penal. As outras são do direito cível. São os tais pecados segundo a religião: os primeiros, os do crime, são mortais ou capitais; e os segundos, os cíveis, são veniais.

Tivemos que fazer trocas, ceder liberdade para receber segurança. Para não sofrermos castigo, há que civilizar. A título individual ninguém deve gostar de ser civilizado, porque para nos civilizarmos implica inexoravelmente sermos coagidos.

A Civilização foi necessária para que tivéssemos umas relações mais humanas, para o bem da sociedade. Mas é algo que teve sempre de ser imposto por uma minoria a uma maioria refratária. E será sempre assim em Civilização.

Os seres humanos não tiveram outro remédio senão viver em sociedade. Os seres humanos deram um passo mais além da barbaridade e da bestialidade. Mas a bestialidade ficou retida. Já Aristóteles o havia pensado ao falar da pólis. E Thomas Hobbes atualizou-o ao assegurar que, sem coação, exercida a partir de cima, a humanidade estaria condenada a uma vida horrível.




E assim os católicos, costumavam, antigamente, mandar os filhos à catequese, com um livrinho na mão chamado catecismo. Nós, as crianças, chamávamos “Doutrina”. E a primeira coisa que aprendíamos era que havia pecados. No catecismo líamos que tínhamos uma mácula na nossa alma por via de Adão e Eva.

E então a senhora catequista ensinava que havia sete pecados capitais, ou mortais, e sete virtudes correspondentes: à soberba opunha-se a humildade; à avareza a generosidade; à inveja a caridade; à ira a doçura; à luxúria a castidade; à gula a temperança; à preguiça a solicitude.

Se o estado e graça não fosse recuperado mediante o arrependimento e o perdão de Deus, éramos excluídos do Reino de Cristo e então teríamos a morte eterna no inferno, já que possuíamos livre-arbítrio. Mas, por outro lado, ainda havia outros pecados, mas mais leves, que não causavam a perda do estado de graça. No entanto, eram prejudiciais à vida espiritual da pessoa. Chamavam-se pecados veniais. Comete-se um pecado venial quando não se observa, em matéria leve, a lei moral, ou então, quando se desobedece à lei moral em matéria grave, mas sem pleno conhecimento ou sem pleno consentimento. Quando acontece uma falta, mas que não é contrário ao amor a Deus e ao próximo, tais pecados são veniais. O pecado venial enfraquece a caridade; mostra uma afeição desordenada pelos bens criados; impede o progresso da alma no exercício das virtudes e a prática do bem moral. O pecado venial, deliberado, e que fica sem arrependimento, dispõe-nos pouco a pouco a cometer o pecado mortal. Santo Agostinho disse que: “O homem não pode, enquanto está na carne, evitar todos os pecados, pelo menos os pecados leves". Mas esses pecados leves, não os devemos considerar insignificantes. Um grande número de objetos leves faz uma grande massa; um grande número de gotas enche um rio; um grande número de grãos faz um montão. Qual é então a nossa esperança? Antes de tudo, a confissão.




Onde há coação - onde as pessoas se veem obrigadas a manter um comportamento diferente daquele que as suas inclinações naturais ditam - há insatisfação e dissensão. Porque há um preço a pagar pela segurança e pelo conforto. Em vida civilizada não é pequena a quantidade de satisfação que temos de privar os nossos instintos, se quisermos nos habilitar a um maior resguardo dos perigos que provêm da natureza e dos outros seres humanos. É claro que nunca ficamos satisfeitos com a troca. Por isso, a Civilização foi sempre uma aquisição ambígua, portadora também de maldição. A felicidade padece devido ao atropelo da razão pela paz social.

É explorando a ganância, a carência afetiva, o desejo sexual, a fragilidade de um momento em família, e a vontade de ajudar alguém que os golpistas têm tido sucesso em ludibriar as suas vítimas. A inteligência e a experiência não protegem ninguém. No conto do vigário, na corrupção, a ganância da vítima acaba por lhe ser fatal. Por outro lado, deixar-se iludir por uma figura sedutora, é outra situação. E então, quando a vítima é possuída pelo fenómeno da caridade, é a cereja no bolo. Já o efeito manada é típico dos golpes conhecidos como pirâmides. Se todos estão a ganhar, vou ganhar também.

Apesar de ser notícia diária, as pessoas continuam a cair no engodo. A vítima acaba acreditando, sendo envolvida e se iludindo e, às vezes, perde as economias de uma vida. O golpista, conforme o tipo de golpe, aposta na ganância humana, ou na fragilidade e na carência. O golpista é rápido a agir. A vítima é lenta a pensar. Quando cai em si já é tarde demais.

No caso da sedução, é a vontade da vítima ser amada ou ser desejada que torna a vítima mais vulnerável ao sedutor. O golpista apresenta-se como o príncipe encantado, embora também haja princesas dos contos de fada, que capta a atenção da vítima. As pessoas ao serem seduzidas, sentem-se amadas, e isso é sempre bom. E também existe em algumas pessoas o sentido irresistível da caridade, que é o lado bom. Querer ajudar alguém quem precisa, ou alguém com quem nos importamos, é um fenómeno humano muito presente nas pessoas. E é assim que essas pessoas se expõem demais, tornando-se um alvo fácil dos malfeitores. Boa parte das pessoas é propensa a ajudar alguém. E isso é explorado por predadores, por parasitas, por oportunistas, psicopatas . . .

quarta-feira, 14 de abril de 2021

Populismo



Argumentum ad populum (apelo à multidão) é uma expressão latina que define um tipo de falácia. Um argumento é falacioso quando apela ao facto de ser defendido pela maioria das pessoas. E se é defendido pela maioria só pode ser válido e bom. Simplesmente porque muitas pessoas (ou a maioria delas) o aprovam, não lhe garante validade. Também chamado de apelo à quantidade, o argumento é inválido pois nada garante que algo seja verdadeiro ou correto apenas pela sua popularidade.
Em 1967, realizou-se uma Conferência sobre o Populismo na London School of Economics. Os participantes não chegaram a um acordo sobre uma definição clara e única. Como resultado, o interesse académico sobre o assunto fomentou a criação na Academia de um campo de estudos conhecido por "estudos do populismo". E assim é porque o populismo anda de braço-dado com outras tendências que lhe são aliadas conforme os sítios e as circunstâncias. E essas tendências são variáveis tais como: discriminação e preconceito; fanatismo; dogmatismo; demagogia.

Margaret Canovan observou que "se a noção de populismo não existisse, nenhum cientista social iria inventá-lo deliberadamente; o termo é muito ambíguo para isso". Ao examinar como o termo "populismo" tinha sido usado, ela propôs sete tipos diferentes de populismo que podia ser distinguidos. Três delas eram formas de populismo camponês: agricultores radicais; movimentos de camponeses; socialismo agrário. Os outros quatro eram formas de populismo político, mais ou menos reacionário, mais ou menos democrático. Estas formas eram "construções analíticas" às quais se podiam sobrepor exemplos da vida real. Nenhum movimento político consegue absorver todas as sete categorias. Desta forma, Canovan concebeu o populismo como uma família de conceitos relacionados e não como um único conceito em si.




O preconceito é uma ideia negativa com sentimentos hostis para uma pessoa ou grupos de pessoas num vasto conjunto de opções e situações. As mais candentes na atualidade envolvem: o racismo e xenofobia; a discriminação em relação à identidade de género; religião; orientação sexual e muito mais. Discriminação é, portanto, a conduta que transgride os direitos de alguém de forma injusta e infundada, que pode levar à exclusão social. Discriminação é qualquer distinção, exclusão ou restrição baseada na raça ou etnia, cor, descendência ou origem nacional, que tenha o propósito ou o efeito de anular ou prejudicar o reconhecimento, gozo ou exercício em pé de igualdade de direitos humanos e liberdades fundamentais nos campos político, económico, social, cultural ou em qualquer outro domínio da vida pública.

Assim, Discriminação é um conceito mais amplo e dinâmico do que o Preconceito. Ambos têm agentes diversos: a discriminação pode ser perpetrada por indivíduos e por instituições; o preconceito é mais da esfera individual. A discriminação coloca o enfoque do agente discriminador sobre o alvo da discriminação. Enquanto o preconceito foca o preconceituoso, a discriminação afeta o recetor da discriminação. Desde 2000 que são proibidas, na União Europeia, todas as formas de discriminação com base na idade, deficiência, orientação sexual ou religião no local de trabalho, mas o âmbito de aplicação da legislação em vigor poderá agora alargar-se a outras esferas da vida. A legislação deve proibir a discriminação direta e indireta, a discriminação múltipla ou por associação e aplicar-se a domínios como a proteção social, a educação e o acesso à mesma, o fornecimento e a prestação de bens e serviços.

A acusação de populismo, no discurso político, geralmente é utilizado com sentido pejorativo na contenda política contra certo tipo de adversários. Em filosofia política e nas ciências sociais, como disse, não encontramos uma definição uniforme de populismo. Neste contexto são colocadas duas categorias abstratas em confronto: povo e elite. O termo entrou na França na década de 1920. Até a década de 1950, o uso do termo populismo permaneceu restrito em grande parte aos historiadores que estudavam o Partido Popular, mas em 1954 o sociólogo americano Edward Shils publicou na década de 1960 um artigo propondo o populismo como um termo para descrever tendências contra a elite na sociedade dos EUA de forma mais ampla. O político francês de extrema-direita Jean-Marie Le Pen, por exemplo, foi frequentemente acusado de populismo, e, por vezes, respondia que "o populismo estava precisamente a levar em conta a opinião do povo. As pessoas têm o direito, numa democracia, a ter uma opinião? Se esse é o caso, então sim, eu sou um populista”. Mais recentemente, a expressão "populismo" voltou a ser muito empregue depois do consolado de Trump e do Brexit no Reino Unido.

Não sendo bem uma ideologia, há tendência para o abordar como tal: o "povo" como uma força moralmente boa, contra a "elite", que é vista como corrupta e egoísta. Os populistas diferem na forma como "o povo" é definido, mas pode ser baseado em linhas étnicas e de classe. Os populistas normalmente apresentam "a elite" como um grupo de interesses e de privilégios. Um populista é geralmente um político carismático que lidera um partido ou um movimento que se apresenta como a voz do povo. De acordo com esta abordagem, o populismo é frequentemente combinado com ideias de nacionalismo, racismo e xenofobia por políticos de extrema-direita, uma vez que o populismo de esquerda não se identifica com esses valores. Este populismo de esquerda apresenta-se como uma força social emancipatória através da qual grupos marginalizados desafiam estruturas dominantes de poder.

Já vimos que o seu uso é substancialmente pejorativo. Popularmente, é confundido com Demagogia, um simplismo carregado de emoção. Ou um oportunismo político para agradar aos eleitores sem qualquer consideração à racionalidade da ação. 
Demagogia é um termo de origem grega que significa "arte ou poder de conduzir o povo". É uma forma de atuação política na qual existe um claro interesse em manipular ou agradar a massa popular, incluindo promessas que muito provavelmente não serão realizadas, visando apenas à conquista do poder político e ou outras vantagens correlacionadas. Com a utilização de argumentos apelativos, emocionais ou irracionais, em vez de argumentos racionais, para proveito próprio. Manipulação da maioria pelo uso de aparentes argumentos de senso comum, mas raramente de bom senso.

Os demagogos gregos defendiam as classes mais pobres, em geral fazendo uso de violência e outros artifícios apelativos, sem restrições de ordem comum, alegando o benefício de suas próprias ações na defesa de direitos da maioria, justificando-se como tal uma oposição à aristocracia conjuntural. Aristóteles, no livro “A Política” aponta a demagogia como a corrupção da democracia assim como a tirania correspondia à corrupção da monarquia. Contudo, para Aristóteles, o que hoje denominamos demagogia, ele chamava democracia, pois tinha para si a profunda corrupção do governo popular no tempo que escreveu. E o que para nós é democracia, ele designava por política. Ele aponta que a demagogia seria para a democracia o que a tirania seria para a monarquia. De facto, é comum na população em geral, discutir-se esse tipo de temática com o uso de conceitos de senso comum, mas, no contexto da obra de Aristóteles, que inspirou toda a produção posterior, a política seria "intimamente unida à moral, sendo o fim último do Estado a virtude, isto é, a formação moral dos cidadãos e o conjunto dos meios necessários para isso". 
Os gregos clássicos tinham também a expressão “Oclocracia” para designar a governação ao sabor da irracionalidade das multidões, acima da lei, ou daquilo a que chamamos um Estado de Direito. O conceito de "Tirania da Maioria" de Sócrates (e Platão) foi depois repescado por outros autores, mantendo o significado original.

Como resultado das várias ideologias diferentes com as quais o populismo pode ser emparelhado, as formas que o populismo pode tomar variam amplamente. O populismo em si não pode ser posicionado no espetro político de esquerda-direita. Existe tanto populismo de direita como de esquerda. Há movimentos populistas que combinam atitudes xenófobas comumente assumidas pela extrema-direita com políticas económicas redistributivas que são habitualmente defendidas pela esquerda. Daí que o populismo possa apresentar muitas ideias contraditórias. Na direita política, o populismo é frequentemente combinado com o nacionalismo, com "o povo" e "a nação" tornando-se categorias bastante intercambiáveis em seu discurso.

Para os populistas, "o povo" é apresentado como sendo homogêneo, e também virtuoso. Ao simplificar as complexidades da realidade, o conceito de "povo" é vago e flexível, com essa plasticidade beneficiando populistas que são capazes de "expandir ou contratar" o conceito "para se adequar aos critérios escolhidos de inclusão ou exclusão" a qualquer momento. Ao empregar o conceito de "povo", os populistas podem incentivar um senso de identidade compartilhada entre diferentes grupos dentro de uma sociedade e facilitar sua mobilização para uma causa comum. Uma das maneiras que os populistas empregam a compreensão do "povo" está na ideia de que "o povo é soberano", que em um estado democrático as decisões governamentais devem recair sobre a população e que, se forem ignoradas, podem se mobilizar ou se revoltar.

O cientista político Paul Taggart propôs o termo "o coração" para refletir melhor o que os populistas costumam significar em sua retórica. Segundo Taggart, "o coração" era o lugar "no qual, no imaginário populista, reside uma população virtuosa e unificada". Quem é esse "coração" pode variar entre populistas, mesmo dentro do mesmo país. Por exemplo, em Portugal, o líder do Chega na sua campanha eleitoral à Presidência da República utilizou muitas vezes a expressão “coração”, colocando a mão direita no peito, no lado do coração, dirigindo-se ao povo português nativo como estando no seu coração, uma espécie de entidade mítica com forte carga nacionalista. Ao fazê-lo, eles não buscam mudar "o povo", mas sim procurar preservar o "modo de vida" de uma tradição como uma fonte do “bem”. Para os populistas, o modo de vida do "povo" é apresentado como enraizado na história e na tradição e considerado propício ao bem público. Embora líderes populistas muitas vezes se apresentem como representantes do "povo", eles muitas vezes vêm de estratos da elite na sociedade; exemplos como Berlusconi, Fortuyn e Haider estavam todos bem ligados às elites políticas e económicas do seu país.

O populismo também distingue identidades: “quem são as pessoas"? Marginalizando grupos minoritários. Todos os populismos são implicitamente excludentes. Apesar de colocarem "o povo" contra "a elite", o anti elitismo por si só não define o populismo. No discurso populista a característica fundamental da "elite" é ela estar contra o povo. Em contrapartida, os populistas dizem: “estar contra o sistema”, muitas vezes conotado com a corrupção. Ora, é uma retórica demasiado cínica na medida em que ao mesmo tempo não rejeitam o sistema político partidário para se afirmarem.

O populismo de esquerda combina a retórica e os temas da esquerda com o populismo. Normalmente concentra a ação contra o capitalismo e a sociedade de classes a ele ligada. A crítica ao capitalismo e à globalização está ligada ao sentimento antiamericano e anti-imperialista que surgiu no campo ideológico do socialismo/comunismo. Apesar de englobar vários temas e ideologias dentro dele, um dos principais pontos do populismo de esquerda é a defesa dos ideais de combate às desigualdades, inclusão social e igualitarismo. Já na entrada do século XXI, a partir do acirramento das crises migratórias e o crescimento das organizações identitárias por todo o mundo, a imigração e os direitos LGBT passaram a ingressar na agenda populista, sendo definido pelo termo "populismo inclusivo". 
Uma tática comum entre os populistas de extrema-direita, particularmente na Europa, é a acusação de que "as elites" colocam os interesses dos imigrantes acima dos da população nativa. Assim, nas campanhas eleitorais adotam uma postura xenófoba, focando as suas críticas às elites bem-pensantes do politicamente correto.

Quando os populistas tomam o poder governamental, enfrentam um desafio na forma de representar uma nova elite. Assim, mantém a sua retórica anti-establishment fazendo mudanças no seu conceito de "elite" para se adequar às suas novas circunstâncias, alegando que o poder real não é mantido pelo governo, mas por outras forças poderosas que continuam a minar o governo populista e a vontade do próprio "povo". Nesses casos, governos populistas muitas vezes conceituam "a elite" como aqueles que detêm o poder económico, o que muitas vezes não deixa de ser verdade.

Para alguns líderes e movimentos populistas, o termo "a elite" também se refere a académicos e intelectuais. Nestes casos também são levados por arrasto os cientistas, e a ciência organizada como um todo. É claro que, num dado momento, certos cientistas sociais também se colocaram nessa posição ao alegarem que: “ciência sim, mas temperada com o sal do humanismo, ou das Humanidades, como área académica por excelência nos chamados “estudos culturais”. Líderes e intelectuais de esquerda ligados a movimentos ecologistas criticaram o empreendimento científico aplicado à indústria extrativa e poluidora do planeta, como responsável pela catástrofe climática ligada ao aquecimento global causado pela poluição carbónica lançada para a atmosfera e para os oceanos.

terça-feira, 13 de abril de 2021

Ora bolas . . . burocratas!




As instituições que deviam proteger-nos estão a alimentar uma cultura de impunidade – e não se vê quem esteja disposto a combatê-la e a travá-la. A bem dizer estas instituições parecem não ser bem instituições, mas sim corporações. E de entre as várias corporações que existem enquadradas por “Ordens”, estas corporações são das mais corporativas que há.

Isto é um pouco assim porque a nossa sociedade é também uma sociedade que convive bem, e confortável, com a mundividência da impunidade. Uma grande benevolência com a mentira e a aldrabice. José Sócrates é um corrupto, disse o juiz Ivo Rosa, porque vendeu a sua personalidade a Carlos Santos Silva enquanto Primeiro-Ministro. A bondade sobre o corrupto não devia ser-lhe útil, mas é. O que parece ser inútil é a indignação. As leis não deviam ter latitudes interpretativas tão alargadas.

A indignação diz-nos: “Prisão firme sem remorsos”. Ficamos a saber pelo juiz que o rendimento proveniente de atividade criminosa não paga imposto. Isso parece certo. Mas então os “1,7 milhões de euros cativos" deviam ser apreendidos e revertidos totalmente para o Estado. Agora, se o Estado devia entregar à Autoridade Tributária o imposto disso, é já uma história para burocratas. Ivo Rosa sustentou a existência de indícios mais do que suficientes para acreditar que Sócrates recebeu de forma ilegítima 1,7 milhões de euros de Carlos Santos Silva. "Corrupção passiva sem demonstração de ato concreto" […] ora bolas!

Diria que a disfunção está no burocrata, quando a sua razão de ser está na burocracia em si. Quando passa a trabalhar para os regulamentos e não para servir o cidadão com proficiência. Sendo os regulamentos e as normas apenas os meios, as coisas descambam quando passa a ser o fim e o principal objetivo. Passam a ser absolutos e prioritários. O funcionário se aliena e se condiciona, perdendo a capacidade do bom senso.

A necessidade de documentar e de formalizar todos os atos e comunicações, pode conduzir ao excesso de formalismo. Como tudo dentro da burocracia padronizado pela rotina passa a ser corriqueiro, o funcionário geralmente acostuma-se a uma completa pasmaceira alimentada pela repetição daquilo que faz, pelo rame-rame. O que passa a proporcionar-lhe uma completa segurança a respeito do seu futuro. Logo, qualquer mudança significa uma ameaça à sua segurança, sendo, portanto, altamente indesejável.

Ao contrário do que se passa nas profissões liberais, e de prestadores de serviços independentes, os burocratas com o tempo desumanizam-se. O cidadão é um número, um dado estatístico. Até prova em contrário é um adversário, quando não um inimigo. Daí, exorbitar a sua função, justificada pelo cargo e não pela sua utilidade, que a nível interno o que prevalece é a categoria hierárquica mais elevada, independentemente da sua competência ou do seu conhecimento sobre o assunto.

Como a burocracia enfatiza a autoridade hierárquica, torna-se necessário um sistema de signos que indique a todos, quem é quem manda. E quem manda o mais, manda o menos. Surge a tendência à utilização intensa de símbolos de status para demonstrar a posição hierárquica dos funcionários: diferentes tamanhos de mesas e poltronas; localização na sala junto da janela; lugar no parque de estacionamento, etc.

Por tudo isso os conflitos com o público são enormes. O funcionário está completamente voltado para dentro da organização, para as suas normas e regulamentos internos, para as suas rotinas e procedimentos. A burocracia fecha-se ao cidadão, um absurdo na medida em que é essa a sua razão de ser.
«23 de junho de 1986: Burocracia. Os ministros do governo são demasiado velhos. Os oficiais do partido estão preservados com naftalina. Estamos num lodaçal. É aí que estamos.

Chernobil devera-se a uma profunda irresponsabilidade, ao hábito calcificado de não ver além das tacanhas obrigações técnicas de cada um. Tudo se devera ao quase monopólio da informação, e do controlo sobre a energia atómica, por parte dos principais cientistas/burocratas intocáveis.»
[ Mikhail Gorbachev -
De memórias e apontamentos ]

 

segunda-feira, 12 de abril de 2021

O conhecido homem e os narcísicos sem princípios




Se a pessoa tiver alguma capacidade de olhar para si própria e de ser autocrítica, o narcisismo moderado não tem grandes consequências para ela, nem para os outros. Nas suas conceções iniciais, os psicanalistas falaram em ‘defesas narcísicas do eu’ como mecanismos de defesa que não têm de ser patológicos, na medida em que nos protegemos de uma avaliação negativa do próprio eu.

Não devemos confundir a patologia narcísica, em que há uma hipervalorização de si mesmo, com o vulgar egoísmo que todos temos e é constitutivo. Defendemos todos os nossos interesses e, de algum modo, somos todos autocentrados. Nas suas manifestações extremas, o narcisismo patológico – “perturbação narcísica da personalidade” – faz parte das chamadas “perturbações da personalidade”, que estão associadas a formas de pensar e de sentir sobre si próprio e os outros e que prejudicam o funcionamento da pessoa.

A perturbação narcísica da personalidade foi incluída em 1980 no Manual de Diagnóstico e Estatística das Doenças Mentais (DSM, na sigla em inglês), da Associação Americana de Psiquiatria. Entre os critérios de diagnóstico encontra-se o “sentido grandioso” da importância pessoal. Acham-se acima dos outros, acima da lei e das normas sociais. Sentem o direito a ter um tratamento especial. E gostam de ser o alvo da atenção dos outros. Requerem admiração excessiva.



A esta depreciação do outro para, por contraponto, se elevarem a si próprios pode ainda juntar-se traços de arrogância e atitudes altivas. Quando alguma coisa não corre bem, a culpa é dos outros. Quando corre bem: “Fui eu”. Fazem tudo para evitar reconhecer as suas falhas, as suas limitações, as suas dificuldades, os seus erros. Usam o outro para atingir os seus próprios fins, pelo que são abusivas nas relações interpessoais. E quando os outros já não são úteis, quando já atingiram os fins, descartam-nos. Outra característica é a inveja. Têm muitas vezes inveja dos outros. E podem denegrir-lhes a imagem e tentar baixar-lhes a reputação. Também podem achar que os outros têm inveja deles.

Os narcísicos não têm empatia afetiva, mas têm empatia cognitiva, pelo que são bons na manipulação do outro. A empatia cognitiva é importante para manipular o outro. Mas não têm sensibilidade ao sofrimento do outro, aquilo que nos leva a querer ajudar alguém. Quando parecem empáticos, é sempre para trazer o outro para o seu lado e o usarem, quando der jeito. É uma empatia instrumental. Um acidente no outro lado do mundo, pode provocar empatia cognitiva, mas emocionalmente, não nos compromete. Não temos a proximidade que permita criar esse vínculo emocional. Empatia é sentir com o outro, é comprometer-se emocionalmente.

Um narcísico, quando está no governo ou no conselho de administração de uma grande empresa, pode ser perigoso. Tem poder sobre muita gente. Alguns não têm escrúpulos, não têm valores éticos, morais. Os narcísicos mais extrovertidos, costumam emergir como líderes de grupo. Mas narcisismo a mais pode minar a eficácia de alguém como líder, que com o tempo, tendem a surgir os aspetos mais negativos do narcisismo. Geralmente, os narcísicos são bons a curto prazo. Mas a sua reputação rapidamente se desfaz. Depressa percebemos que não são aquilo que pretendem mostrar.

Na verdade, sofrem e fazem sofrer os outros. O pior é que não têm sequer consciência disso. Nem dos seus sentimentos de inferioridade, nem da falta de confiança em si próprios, nem das oscilações da autoestima. A perceção dos indivíduos com perturbação narcísica da personalidade é de que têm sempre razão. E na verdade, é real a ausência de sentido de autocrítica. A pessoa não percebe que o problema está nela. Por isso, está fora de questão ter de se corrigir. As perturbações da personalidade, ao contrário de outras doenças mentais, estão presentes desde muito cedo na vida da pessoa. E como sempre se conheceram assim, como se costuma dizer: não se enxergam.

Pensa-se que na origem desta perturbação de personalidade estão experiências, que até podem ser consideradas contraditórias. Tanto pode ter acontecido humilhação e abandono durante a infância, geralmente por parte do pai. Assim como excesso de valorização por parte da mãe. Em certos casos, o pai ou a mãe, ou ambos, podem ter sido figuras parentais frias, que fizeram a criança sentir-se rejeitada. Noutros casos foi a valorização excessiva da criança pelos pais, como quando nos convencemos que temos uma criança muito especial, mais do que as outras crianças.


domingo, 11 de abril de 2021

Os viajantes





O Regresso de Williams B. Arrensberg – escultura em bronze de tamanho real, de Eduardo Urculo, situada na Plaza de Porlier, Oviedo, foi instalada em 6 de setembro de 1993, com uma orientação no sentido da Catedral de Oviedo. O viajante, de chapéu, sobretudo ou gabardine, guarda-chuva (
na Galiza, como em Bruxelas, está sempre a chover) e três malas. Talvez acabado de chegar de comboio, repousa um pouco enquanto contempla a cidade. 

José Saramago, ainda havia de vir a receber o Prémio Nobel de Literatura em 1998, em 15 de setembro de1993, quase com 71 anos de idade, viu adiada a operação às cataratas porque a enfermeira faltou por baixa médica. E isto já numa altura em que ele não tinha olhos a medir a tanto convite para viajar, fazer conferências, e sei lá mais um par de botas. Escreve no seu caderno de Lanzarote:
Depois de uma semana em Santiago de Compostela, que choveu sempre, na semana seguinte ia para Paris. Dali a um mês estaria em Estrasburgo. Depois Münster. A seguir Roma. E no dia 27 de novembro, depois de uma deslocação a Turim, partiria para Manchester, Edimburgo, Liverpool e Londres . . .
Então veio o desabafo:
Começa a parecer-me absurda esta maneira de viver.
Na Galiza acaba sempre por chover. Por isso, os de Santiago dizem aos caminhantes dos Caminhos de Santiago: "que não se esqueçam das botas".

A viagem faz parte da história da humanidade desde o seu começo. Exploradores de Grutas saíram do seu lugar e atravessaram o mar para o outro lado da noite, na busca de um outro lugar melhor que aquele. Condições de vida em outros lugares: resultou na criação de povoados; cidades; e a formação de culturas. Por um longo período, o ser humano deu-se bem como nómada, não fixando residência em nenhum lugar. Mesmo depois da criação de cidades, a viagem continuou a fazer parte da barganha com desconhecidos de outras regiões.

As civilizações vieram, e com elas veio a guerra. Depois vieram os Gregos, os homens do ócio, e veio Homero com a sua Odisseia. Depois vieram os Romanos, os homens do lazer, e os precursores do turismo. A vida das sociedades Greco-Romanas tinha valores e conceitos diferentes dos que temos hoje. O ócio e as viagens eram muito apreciados, ao contrário do trabalho, que era desprezado. Por isso havia escravos. Já me esquecia, Os Jogos Olímpicos, realizados na Grécia Antiga, são um exemplo de um evento turístico, que atraía multidões de diversas regiões.

Com a chegada da Idade Média, o homem fica preso à terra, e ao trabalho servil. As viagens por terra tornam-se perigosas, e de barco só para quem fosse rico, ou marinheiro da marinha mercante. Então a viagem passou a ter um outro sentido com a moda das peregrinações religiosas: Terra Santa, Meca, Santiago de Compostela. Os Caminhos de Santiago medievais, resultado da expansão do Cristianismo, foi um aproveitamento do que havia ficado dos tempos do Império Romano, com outros nomes. Um marco desse período foi a descoberta da tumba de Santiago, em Compostela, na Galiza. Os dogmas sempre foram bons nisso. Nesse período destacam-se a participação dos peregrinos, também denominados “palmeiros”, dentro do mundo das viagens, que cresciam de número com o aumento significativo das peregrinações a outros santuários espalhados pela Europa.

Constantinopla acabou por ser uma cidade decisiva, para o bem e para o mal. Para o bem, com as rotas de comércio para os Europeus. Para o mal, com a peste e outras epidemias. A partir da sua tomada pelos Turcos Otomanos, um povo muçulmano, Constantinopla passou a Istambul, e os Europeus foram forçados a encontrar novas rotas que os levassem ao Oriente, assim dando início ao período das Grandes Navegações, que impulsionou o mundo das viagens novamente. E foi nesta empreitada que entraram os Portugueses.

Com a Revolução Industrial, começada no século XVIII, veio o comboio. Thomas Cook, em 1841, freta um vagão e dá início à primeira excursão organizada do mundo, contando com um roteiro previamente estudado. E assim, empresas especializadas num turismo de novo tipo vão surgindo, assim como revistas e mapas. As viagens denominadas turísticas são voltadas para a satisfação dos povos, um investimento em nome do conhecimento, da cultura, e, está claro, do estatuto: O Expresso do Oriente; O Expresso Transiberiano; A Linha Ferroviária do Hejaz.

Depois vieram os aviões, e eu entretanto perdi-me, tudo foi tão rápido. Não sei como tudo aconteceu. . .

Eu não sei como tudo aconteceu
Tudo foi tão rápido
Um grupo de soldados cruzou o rio profundo e largo de madrugada
Todas as barganhas que havia para fazer foram feitas
A causa era nobre e o propósito era justo
É aquela velha história com um nome diferente
A seguir à noite veio a alvorada já nada os podia deter
Numa jangada com as bandeiras despregadas
Atravessaram o rio para a outra margem a cantar
Tudo foi tão rápido

sábado, 10 de abril de 2021

Ovulube Chinachi, um menino de 9 anos a estudar à luz da vela na Nigéria





O que tem de ser feito para que o planeta não caminhe em direção a uma catástrofe anunciada? Bill Gates apresenta-nos os passos concretos fundamentais para combatermos os efeitos de estufa carbónica. Passou a última década a estudar as causas e os efeitos das alterações climáticas, com a ajuda de peritos no domínio da física, química, biologia, engenharia, ciência política e economia.

Neste livro Bill Gates traça um plano prático, abrangente e acessível, mostrando-nos de que maneira o mundo pode eliminar as emissões de gases com efeito de estufa, a tempo de evitarmos um desastre climático.

Além de explicar porque temos de alcançar a neutralidade carbónica, Bill Gates oferece-nos uma visão esclarecedora dos desafios que nos esperam, apoiado no seu vasto conhecimento em matéria de inovação e do que envolve lançar novas ideias.

Bill Gates indica-nos as áreas em que a tecnologia está a ajudar-nos a reduzir emissões, onde e como podemos tornar a tecnologia atual mais eficiente, onde são necessárias novas soluções, e quem se encontra já a desenvolvê-las. Por fim, dá-nos conta do seu plano, um guia prático e concreto para alcançarmos a neutralidade carbónica, sugerindo não só as políticas que os governos devem adotar, mas o que nós, indivíduos, podemos fazer para nos mantermos todos, incluindo os nossos líderes, responsáveis pelo êxito desta missão crucial. Alcançar a neutralidade carbónica será tudo menos fácil, mas é um objetivo que se encontra certamente ao nosso alcance.