quarta-feira, 21 de abril de 2021

Aumentar a longevidade sem envelhecer: pseudociência ou protociência?




De acordo com o Livro do Génesis, Matusalém – filho de Enoque, pai de Lameque e avô de Noé, foi o homem que viveu mais tempo, 969 anos. Morreu no Dilúvio.

A imagem seguinte é uma cópia de uma primeira página da Philosophycal Transactions of the Royal Society of London, de 25 de abril de 1670, em que se lê um extrato de uma carta que fala de um tal Martel de Montauban, usando a palavra ciência, e aludindo ao ilustre Bacon.



The Philosophical Transactions of the Royal Society, ou Phil. Trans., é uma revista científica publicada pela Royal Society (Sociedade Real de Londres), que começou a ser publicada em 1665, sendo por isso a publicação científica mais antiga do mundo anglófono, e a segunda mais antiga do mundo. A mais antiga é a Journal des Savants. É ainda a revista que há mais tempo é editada. O uso da palavra Philosophical no seu nome é derivada da expressão natural philosophy (filosofia natural), que na altura era utilizada para denominar o que hoje chamamos de ciência.

Martel de Montauban é um personagem que não sobreviveu na história, mas é mencionado uma vez por David Boyd Haycock, autor de um artigo sobre a ideia de prolongamento da vida humana na Inglaterra no século XVII. O texto de Haycock cita Montauban e Francis Bacon, o importante filósofo da ciência inglês: “Sir Francis Bacon explorou como um problema médico a questão de que a duração da vida humana poderia voltar a ser de aproximadamente 1000 anos como desfrutada por Adão e os patriarcas”. O ensaio de Haycock faz parte de uma série chamada “Como os factos viajam?”




Trata-se de saber como prolongar a vida humana, e o ilustre francês carrega as suas observações citando Francis Bacon. Mas se isto é uma curiosidade histórica, já o mesmo não se passa com Aubrey de Grey, o polémico cientista inglês da computação, agora com 53 anos de idade, que afirma que humanos podem viver mil anos. Aparentemente recebeu um título de doutor em Biologia pela Universidade de Cambridge em 2000, mas não foi um estudante regular e matriculado lá. Teria recebido o título de doutor pelo seu livro “The mitochondrial free radical theory of aging”. Neste caso, ele dá uma reviravolta à Biologia com a sua transmutação da biologia genética para a computação, ou seja, engenharia genética.




Aubrey de Grey é um investigador da SENS Research Foundation, de que é cofundador e financiador com a herança que Grey recebeu da mãe. Além disso, há doações privadas de maluquinhos que ambicionam a vida eterna. Segundo este cientista marginal (vamos chamá-lo assim para o distinguir dos cientistas da corrente dominante ‘mainstream’), podemos derrotar o envelhecimento. Um painel da revista EMBO Reports, 2005, concluiu que nenhuma das hipóteses de Grey é suscetível de levar ao aumento da longevidade. E um segundo relatório chamou ao projeto da SENS mera pseudociência. Mas Grey insistiu na vida quase eterna, dizendo que já teria nascido o primeiro ser humano que alcançará a idade milenar.

Uma manifestação marginal da ciência, portanto. Mas nos tempos que correm, estas diatribes parecem não ser assim tão simples. Já se passaram quase 15 anos e Aubrey de Grey continua com grande popularidade, além de ser também o editor chefe da revista científica “Rejuvenation Research”, que apresenta pesquisas de ponta e avanços que podem finalmente contribuir para retardar ou reverter o processo de envelhecimento. A sua editora tem outros títulos como “Alternative and Complementary Therapies”, que integra terapias alternativas praticadas em hospitais privados e independentes da medicina convencional regulada pela Ordem dos Médicos dos respetivos países. Esta editora publica ao mesmo tempo, tanto temas marginais (‘fringe science’) como temas no âmbito da ciência convencional (‘mainstream’).




A despeito do que os painéis de avaliação científica possam dizer, a fronteira entre: pseudociência; ciência marginal; ciência estabelecida - está a ser cada vez mais posta em causa. Para isso seria necessário, finalmente, descrever o que significa: pseudociência; ciência marginal; e ciência propriamente dita - ‘mainstream’, institucionalizada ou sistematizada.

Já passaram uns bons anos desde que o filósofo da ciência, Thomas Kuhn, apresentou a sua teoria dos paradigmas e das revoluções no campo da ciência dita regular: um conjunto de crenças, regras, compromissos e valores que são compartilhados pelos cientistas por um determinado período de tempo e que confere à atividade de investigação científica a unidade mínima que permite constituir uma comunidade científica.

Deixando de lado a superstição, é importante definir rapidamente o que poderíamos chamar de pseudociência: afirmações, crenças e práticas que alegam ser científicas e baseadas em evidências, mas que carecem de um grande número de passos e de métodos bem estabelecidos há muito por toda a comunidade científica espalhada pelo mundo como se fosse a sua língua franca. A pseudociência é simplesmente incompatível com o método científico. Já a protociência pode ser considerada um novo tipo de ciência a nascer, ainda não institucionalizada e sistematizada. Na época em que Martel de Montauban publicou o seu artigo, apareciam outros autores na mesma revista, como Robert Boyle, Robert Hooke e Isaac Newton, cujos trabalhos viriam a dar origem a uma disciplina científica, que mais de, cerca de um século depois, viria a chamar-se Física, uma disciplina científica às vezes tratada como a mãe de todas as ciências.

Hoje a comunidade científica ‘mainstream’ debate-se com a peste dos “Negacionistas da peste Covid-19”. Este movimento marginal antissocial, autodenomina-se o único defensor da verdade, o que não deixa de ser desde logo um sintoma preocupante. Aubrey de Grey é uma espécie de protótipo desse modelo de pessoas. Figura de aparência exótica, em parte autodidata, incompreendido pela corrente dominante, e que tem o seu próprio instituto de pesquisa. Com marketing, já sabemos como é o marketing da banha da cobra, não lhe faltam adeptos num determinado nicho de público. Entretanto, a tensão na praça pública continua, e promete estar para durar. A ciência ‘mainstream’ tem de momento um árduo engulho pela frente. Por mais e melhor informação que seja facultada ao público em geral sobre o processo de obtenção do conhecimento científico, não a única forma de conhecermos a realidade do mundo, mas até à data por demais demonstrado que é a mais sólida em prever e obter resultados, apesar de sempre limitada e imperfeita, a verdade é que: crendices; teorias da conspiração e superstições, são idiossincrasias inerentemente humanas, demasiadamente humanas até. E apesar de o conhecimento humano, pelo que se acabou de dizer, ser sempre provisório, arrisco em dizer, na verdade, que a vida humana eterna nunca virá.  


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