terça-feira, 20 de abril de 2021

Ganância




Sentenças por ganância abundam em quase todas as culturas clássicas.
Políticos republicanos e escritores romanos atribuíram a morte da República Romana à ganância: Cícero (106 a 43 a.C.), Caio Salústio Crispo (86 a 34 a.C.), Plutarco (46 a 120 d.C.) . . . E na Mitologia Grega, Tântalo certa vez, ousando testar a omnisciência dos deuses, roubou os manjares divinos e serviu-lhes a carne do próprio filho Pélope num festim. Como castigo foi lançado ao Tártaro, onde, num vale abundante em vegetação e água, foi sentenciado a não poder saciar a fome e sede, visto que, ao aproximar-se da água esta escoava e ao erguer-se para colher os frutos das árvores, os ramos moviam-se para longe de seu alcance sob a força do vento. A expressão 'suplício de Tântalo' refere-se ao sofrimento daquele que deseja algo aparentemente próximo, porém, inalcançável.




Ganância é um sentimento humano que se caracteriza pela vontade de possuir tudo o que se admira. É a vontade obcecante de possuir qualquer coisa. É um desejo excessivo direcionado principalmente ao dinheiro ou riqueza material. Contudo, é associada também a outras formas de poder, nem que para isso seja necessário corromper terceiros e se deixar corromper, manipular e enganar chegando ao extremo de matar. Muitas vezes é confundida com ambição e avareza. No Cristianismo, é um dos sete pecados capitais. Em meados do século XIX, políticos e economistas afetados pelas ideias fenomenológicas de Hegel, passaram a definir a ganância como um vício inerente à estrutura da sociedade, pernicioso ao seu desenvolvimento saudável. E Max Weber afirmou que o espírito do capitalismo integrava uma faceta de ganância. De acordo com a Ética Protestante, dizia Weber: "a riqueza é, portanto, um afrodisíaco que fomenta a tentação pelo prazer pecaminoso da vida".

Na sátira de  Aristófanes - Plutus - um ateniense diz a Plutus, deus da riqueza, que enquanto os homens podem cansar-se do amor, da música, de figos e outros prazeres, nunca se cansarão da ganância por dinheiro. Se um homem tem treze talentos, faz tudo com o maior ardor para possuir dezasseis; se esse desejo for alcançado, ele vai querer quarenta. E se não conseguir, vai reclamar. 
O poeta romano Lucrécio achava que o medo da morte era um grande impulsionador da ganância. 



Lao Zi, o fundador do Taoismo, e autor, provavelmente apócrifo ou mítico, do Tao Te Ching, também fez alusões a esse fenómeno a que também chama lucro. Xun Zi acreditava que o egoísmo e a ganância faziam parte do lado escuro da natureza humana. Mas a humanidade vivendo em sociedade, o lado luminoso da vida humana, pugnava pela supressão dessas tendências negativas através de leis. Essa crença foi a base do legalismo, uma filosofia que se tornaria a ideologia predominante da Dinastia Qin, que continua a ser influente na China de hoje. Por outro lado, o filósofo Yang Zhu era conhecido por ter abraçado o interesse próprio. No entanto, a sua escola não endossou especificamente a ganância; em vez disso, foi enfatizada uma forma de hedonismo, onde o bem-estar individual tem precedência sobre tudo o resto.

Mêncio (Mestre Meng 370 a.C. - 289 a.C.), o mais eminente seguidor do Confucionismo -, estava convencido da bondade inata da natureza humana, mas mesmo assim alertou contra o impulso excessivo para a ganância. Ele estava preocupado com os efeitos desestabilizadores e destrutivos da ganância. São Tomás de Aquino afirma que a ganância é um pecado contra Deus, assim como todos os pecados mortais, na medida em que o homem é tentado a trocar as coisas espirituais pelas coisas temporais. Ele também escreveu que a ganância pode ser um pecado direto contra o Outro, quando um homem se afoga nas riquezas terrenas. Bens temporais possuídos em excesso nunca podem ser possuídos por todos ao mesmo tempo.

Dante - no poema Inferno - condena aqueles comprometidos com o pecado mortal da ganância à punição no quarto dos nove círculos do Inferno. Os seus habitantes devem lutar constantemente uns contra os outros. Virgílio, o espírito condutor, diz ao poeta que essas almas perderam a sua personalidade na desordem, e não são mais reconhecíveis: "Essa vida ignóbil, que as tornou vis antes, agora as torna sombrias, e a todo conhecimento indiscernível". No Purgatório, penitentes gananciosos foram amarrados e colocados de barriga para baixo no chão, por se terem concentrado demais em pensamentos voluptuosos.




Adam Smith achava que a ganância pelos bens de primeira necessidade era limitada, mas a ganância por bens de luxo era ilimitada. O homem rico não consome mais comida do que o seu vizinho pobre. Em qualidade pode ser muito diferente, e selecioná-la e prepará-la pode exigir mais trabalho e arte; mas em quantidade é quase o mesmo. Mas compare o palácio espaçoso e o grande guarda-roupa de um, com a trouxa e os poucos trapos do outro. Você reconhecerá a diferença, tão grande em quantidade como em qualidade. E o desejo de comida, quer por parte do rico, quer por parte do pobre, é limitado em cada pessoa devido à estreita capacidade dos seus estômagos. Mas tudo o que é externo ao corpo, não tem limites. Não é da benevolência do açougueiro, do cervejeiro ou do padeiro, que esperamos o nosso jantar, mas do respeito que eles têm pelo seu próprio interesse.

John Stuart Mill, no seu ensaio "O Utilitarismo", sobre a ganância por dinheiro diz o seguinte:
«O amor ao dinheiro não é apenas uma das forças móveis mais fortes da vida humana, mas o dinheiro é, em muitos casos, desejado por si mesmo; o desejo de possuí-lo é muitas vezes mais forte do que o desejo de usá-lo. E quanto mais cresce o monte de dinheiro, mais vontade se tem de querer mais, mais e mais. Pode então dizer-se, verdadeiramente, que o desejo do ganancioso por dinheiro é mais como um fim, do que como um instrumento. De ser um meio para o bem-estar humano, já que a felicidade ninguém sabe bem o que é. "Ser feliz", não passa de um slogan para patetas. Assim como "poder" ou "fama". Felicidade, não passa de um ingrediente, de uma droga, de um vício. O mesmo pode ser dito da maioria dos grandes artefactos do engenho humano. Prazer imediato sim, mas efémero.»

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