terça-feira, 11 de fevereiro de 2025

Transgénero e transição de género



Recentemente, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, assinou uma ordem executiva que proíbe o uso de recursos federais para procedimentos de transição de género em menores de 19 anos. Esta medida abrange intervenções como cirurgias de redesignação sexual, bloqueadores de puberdade e terapias hormonais. A ordem declara que os EUA "não financiarão, patrocinarão, promoverão, auxiliarão ou apoiarão a chamada 'transição' de uma criança de um sexo para outro". Em consequência, vários hospitais norte-americanos suspenderam esses tratamentos para menores, visando cumprir a nova regulamentação e assegurar o financiamento federal. Por exemplo, o Children's National Hospital, em Washington D.C., interrompeu a prescrição de bloqueadores de puberdade e terapias hormonais para jovens transgénero.

Esta decisão gerou reações diversas. Grupos de defesa dos direitos LGBTQ+ criticaram a medida, argumentando que ela compromete a saúde e o bem-estar de jovens transgénero. Por outro lado, apoiantes da ordem executiva consideram-na uma proteção necessária para menores. O movimento transgénero tem gerado muita controvérsia, especialmente no que toca a intervenções médicas em menores. Há quem veja essas medidas como uma proteção necessária, enquanto outros consideram uma restrição aos direitos individuais. O que me parece evidente é que, ao longo dos últimos anos, houve uma flexibilização rápida demais das normas em torno do tema, sem um consenso consolidado na sociedade. Isso levou a tensões políticas e culturais significativas.

Para quem tenha uma visão do mundo mais naturalista, formada nos conceitos científicos da biologia, não reconhece sensata a posição que tem vindo a ser apoiada por uma determinada corrente contracultura. O que se passou com o movimento transgénero, especialmente nas últimas décadas, foi uma mudança abrupta de paradigma: em vez de se ver a disforia de género como uma condição psicológica a ser tratada, passou-se a tratá-la como uma identidade intrínseca que deve ser afirmada, muitas vezes através de cirurgias irreversíveis e tratamentos hormonais.

A história mostra-nos constantes épocas em que emergem ideologias que anos mais tarde se verificaram ser perniciosas. Ideologias que surgem com grande força, se impõem socialmente e, depois, acabam por se desmoronar sob o peso das suas próprias contradições. A história está repleta de exemplos de ideias que, num determinado momento, pareciam inquestionáveis e até progressistas, mas que, com o tempo, se revelaram destrutivas ou insustentáveis. A sua imposição cultural e institucional, muitas vezes suprimindo dissidências e tratando qualquer oposição como preconceito intolerável, tem semelhanças com os momentos de histeria ideológica do passado. A medicina, que deveria ser guiada pelo rigor científico, acabou por ser arrastada para esse processo.

Trump, com todas as suas contradições e limitações, está a tornar-se um símbolo dessa reversão. Ele pode não ter a estatura de um grande conquistador da história, mas, ao contrário de muitos líderes contemporâneos, não hesita em desafiar as normas culturais dominantes e impor uma viragem brusca. Trump tanto poderá ser lembrado como um restaurador da ordem ou um vilão, dependendo de como História ditar o futuro. Não que esta transformação tenha a magnitude de uma Revolução Francesa, mas o movimento está em marcha, basta ver o que se está a passar na Europa. O que muita gente, tal como no passado, não quer é ver, porque um rombo no status quo é sempre muito doloroso.

Grandes transformações nunca são aceites de imediato por quem está imerso no status quo. A História mostra que, quando um paradigma começa a ruir, há sempre uma resistência feroz, porque ninguém quer admitir que investiu tempo, reputação e poder numa ideia que se revelou insustentável. Mas os sinais estão aí: na Europa, mesmo governos e instituições que antes promoviam incondicionalmente aquilo que vulgarmente se designou por "ideologia de género" estão a recuar, pressionados pela opinião pública e pelos próprios efeitos práticos dessas políticas. Talvez estejamos a assistir ao início de uma correção histórica, como tantas outras que já ocorreram.

domingo, 9 de fevereiro de 2025

A luta feminista pelo derrube do patriarcado

 

 A luta feminista pela "igualdade de género", ainda que já tenha mais de um século de persistência apesar de o vocábulo "género" ser mais recente, não passou tempo suficiente para superar e deitar abaixo o patriarcalismo com mais de cinco milénios de existência. Este é precisamente um destaque da dificuldade de superar uma estrutura patriarcal tão profundamente enraizada, mesmo após um século de luta feminista pela igualdade de género. O patriarcalismo, com suas raízes que remontam a milhares de anos, moldou sociedades, culturas, religiões e sistemas legais ao longo da história, criando uma estrutura de poder que favorece consistentemente os homens em detrimento das mulheres.

A luta feminista, apesar das conquistas alcançadas ao longo dos últimos cem anos — como o direito ao voto, o acesso à educação, a igualdade no mercado de trabalho e leis contra a discriminação, ainda enfrenta enormes desafios. A resistência a essas mudanças não se limita apenas a instituições ou práticas, mas está também profundamente entranhada nas mentalidades, valores culturais e normas sociais que levaram milénios para se consolidar. Transformar essa realidade não é uma tarefa rápida ou simples, pois envolve uma mudança profunda nos paradigmas culturais e sociais, que requer não apenas legislação e políticas públicas, mas também uma mudança de consciência coletiva e uma reconfiguração das relações de poder. Além disso, em muitas partes do mundo, o patriarcado ainda é sustentado por práticas religiosas e tradições culturais que resistem fortemente à mudança.

Portanto, embora o progresso tenha sido significativo, um século de luta ainda é um tempo curto em comparação com os cinco milénios de patriarcado que moldaram a civilização humana. Desmantelar estruturas de poder tão antigas e enraizadas exige um esforço contínuo e uma transformação geracional, que precisa ser sustentada por educação, políticas inclusivas e uma mudança na cultura global. Não é muito clara a evolução a partir da primitiva esquerda francesa em relação à esquerda atual. A evolução da esquerda, desde as origens na Revolução Francesa, até à forma que assume hoje, é complexa e nem sempre linear. A esquerda atual é bastante diferente daquela primitiva esquerda francesa que emergiu no final do século XVIII, tanto em seus objetivos quanto em suas estratégias e fundamentos ideológicos.

A esquerda primitiva, representada pelos jacobinos e outros revolucionários, surgiu num contexto de derrube da monarquia e de luta contra o privilégio aristocrático e clerical. O seu alcance residia numa mudança radical da estrutura social e política, guiada pelos princípios de liberdade, igualdade e fraternidade. Esses ideais estavam profundamente ligados à oposição ao Antigo Regime e visava o estabelecimento de uma sociedade republicana que eliminasse os privilégios de nascimento e promovesse a soberania popular. Ao longo dos séculos XIX e XX, a esquerda passou por transformações significativas, influenciada por novos movimentos e ideologias, como o socialismo e o comunismo. A obra de pensadores como Karl Marx e Friedrich Engels reformulou a esquerda em torno da luta de classes e do fim da exploração capitalista, focando na emancipação do proletariado e na redistribuição equitativa da riqueza. A luta contra a desigualdade económica tornou-se o eixo central do pensamento e das políticas de esquerda.

Com o passar do tempo e com as mudanças no cenário global, como a queda do comunismo no final do século XX e a ascensão do neoliberalismo, a esquerda atual diversificou as bandeiras. Hoje, além de lutar por justiça económica, ela se preocupa com uma ampla gama de questões sociais, como direitos das minorias, igualdade de género, justiça climática, direitos LGBTQ+, e outras formas de igualdade e inclusão social. Em muitos casos, a esquerda contemporânea também adotou uma abordagem mais reformista e menos revolucionária, aceitando o jogo democrático e buscando influenciar políticas públicas dentro do sistema existente, em vez de tentar destruí-lo. Portanto, a transição da esquerda revolucionária francesa para a esquerda moderna não é uma linha reta, mas sim uma trajetória que se ramificou em várias direções. Há uma tensão constante entre as suas raízes radicais e revolucionárias e as abordagens mais pragmáticas e reformistas adotadas nos tempos atuais. Enquanto algumas correntes da esquerda ainda defendem mudanças estruturais profundas, outras estão mais focadas em promover avanços graduais e reformas dentro das democracias liberais. Essa evolução reflete, em parte, a adaptação da esquerda às novas realidades políticas, sociais e económicas, mas também levanta questões sobre a sua identidade e seus valores centrais, que nem sempre são claros ou coerentes ao longo dessa longa trajetória histórica.

A conexão entre a esquerda revolucionária da época da Revolução Francesa e a esquerda contemporânea é complexa e, em muitos aspectos, marcada por diferenças significativas. A esquerda de hoje é, em grande parte, resultado de uma longa evolução ideológica e prática, que a afastou em grande medida das táticas e dos métodos radicais empregados pelos jacobinos, que lideraram o período do Terror, executando milhares de pessoas, incluindo o próprio rei Luís XVI. Os jacobinos, liderados por figuras como Robespierre, defendiam uma transformação radical da sociedade, empregando métodos violentos e repressivos para atingir seus objetivos. Eles acreditavam que, para construir uma nova ordem igualitária, era necessário destruir os inimigos da revolução e eliminar todos os vestígios do Antigo Regime, o que justificava as execuções em massa e o uso do terror como ferramenta política.

 A esquerda contemporânea, por outro lado, embora ainda se baseie em ideais de igualdade e justiça social, geralmente rejeita a violência como meio para alcançar seus objetivos. A maioria dos movimentos de esquerda de hoje defende métodos pacíficos e democráticos para promover mudanças sociais e económicas, focando em reformas institucionais, mobilizações populares, diálogo e ações legislativas. A luta pelos direitos civis, a justiça económica e a igualdade de género são abordadas por meio de campanhas políticas, protestos pacíficos e negociações dentro das normas democráticas. No entanto, o espírito de confrontar desigualdades e questionar estruturas de poder injustas é algo que a esquerda moderna herdou dos revolucionários franceses. A indignação contra a opressão e a busca por uma sociedade mais justa e igualitária continuam a ser temas centrais tanto para a esquerda de ontem quanto para a de hoje. O que mudou foram as estratégias e, em grande parte, os meios usados para atingir esses objetivos.

A diferença crucial está no contexto histórico e nas lições aprendidas com os excessos do passado. A esquerda contemporânea aprendeu que o uso da violência e do terror pode minar os seus próprios princípios e objetivos, levando a resultados desastrosos que muitas vezes contradizem os ideais que defendem. Assim, embora haja uma conexão ideológica em termos de objetivos de igualdade e justiça, a abordagem e os métodos são hoje muito mais moderados e adaptados às normas das sociedades democráticas modernas. Portanto, enquanto os revolucionários do século XVIII eram mais propensos a usar medidas drásticas para alcançar seus fins, a esquerda atual se distancia dessas práticas, preferindo processos democráticos e reformas graduais, refletindo uma maturidade que reconhece os perigos do radicalismo e da violência política.

sábado, 8 de fevereiro de 2025

A Geografia Humana e Suas Ironias



A Europa, berço da Revolução Industrial e do capitalismo moderno, construiu a sua riqueza e estabilidade muito à custa dos recursos naturais de suas antigas colónias. Hoje, porém, essa mesma Europa depende demograficamente dos descendentes das populações que outrora explorou. Sem eles a economia e o  modelo social europeu é insustentável. A ironia é ainda mais cruel quando percebemos que a riqueza acumulada no Norte global resultou de uma atividade humana que agora as alterações climáticas estão a cobrar os seus custos. Mas ainda mais irónico é que é o Sul global que está a pagar a fatura.

O fluxo de bens naturais e manufatura tecnológica corre através dos mares, o capital corre através dos cabos submarinas e dos satélites. Com abundância, quase sem barreiras. E os fluxos migratórios não podiam ser excepção. Então, e as pessoas? Agora Aqui-d'El-Rei que os migrantes estão a entrar através das nossas fronteiras. Ora, essa atitude contrasta com a necessidade de trabalhadores para setores que os próprios europeus não querem trabalhar, como a construção civil, a agricultura e o cuidado de idosos. A contradição aqui é clara: o fechamento das fronteiras responde a pressões políticas internas, mas enfraquece as dinâmicas que sustentam a própria sociedade europeia.

Séculos atrás, europeus colonizaram e impuseram os seus sistemas nas regiões hoje marcadas pela emigração. Ironia maior não poderia haver: os descendentes dessas populações buscam agora refúgio nos antigos centros coloniais, não como invasores, mas como trabalhadores dispostos a revitalizar economias envelhecidas. A migração atual é um eco invertido das caravanas coloniais que levaram "civilização" às colónias, mas desta vez é o Sul que leva vitalidade ao Norte.

A Europa, altamente mecanizada e dependente de tecnologia, vê a sua população envelhecida incapaz de preencher as lacunas do mercado de trabalho. Enquanto isso, regiões como a Guiné, ricas em juventude, carecem de acesso à educação e tecnologia para reter o seu próprio capital humano. Esse desequilíbrio é uma chamada de atenção irónica de como o progresso tecnológico pode tanto aproximar como ao mesmo tempo aprofundar as desigualdades.

É assim que a relação entre o Norte e o Sul se faz por uma espécie de pragmatismo cínico. Enquanto as elites políticas e económicas europeias defendem o controlo migratório para agradar a seus eleitores, silenciosamente dependem da força de trabalho imigrante para sustentar os seus modelos de bem-estar social. O cinismo é ainda mais evidente na narrativa política: imigrantes são retratados ora como uma ameaça cultural, ora como uma necessidade económica, dependendo do contexto. Por conseguinte, os valores universais europeus proclamam liberdade, igualdade e fraternidade, mas os europeus aplicam esses princípios seletivamente. Na prática, a liberdade europeia convive com muros fronteiriços; a igualdade é uma abstração distante para os imigrantes; e a fraternidade se dissolve no discurso nacionalista. Este paradoxo revela que, apesar das divisões, somos profundamente interdependentes. A juventude africana sustenta a velhice europeia; o capital europeu molda o destino africano. Essa relação, porém, não é de cooperação, mas de exploração disfarçada.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2025

No grande esquema das coisas, as escolhas conscientes têm alcance limitado


As dinâmicas históricas e sociais tornam-se indeterminadas em momentos de rutura. Chegados ao "ponto crítico", as forças em jogo são tantas, e suas interações tão complexas, que o resultado se torna imprevisível: tanto pode emergir uma renovação transformadora como um colapso destrutivo. É como a moeda que é lançada ao ar, estando sujeita a variáveis ocultas que nenhum modelo consegue prever plenamente. No entanto, há um detalhe intrigante: mesmo no caos quântico ou social, padrões podem emergir. Esses padrões não são determinísticos, mas probabilísticos — a moeda não é totalmente arbitrária. O que surge depende das condições iniciais, das forças em ação e, talvez, de pequenos fatores contingentes que podem inclinar o resultado para um lado ou outro. Isso leva à questão: será que, mesmo num momento de caos social, há espaço para escolhas conscientes e intervenções que moldem os resultados?

As forças impessoais predominam sobre as ações individuais ou coletivas. Vivemos num Universo onde as incertezas e os "dados jogados" desempenham um papel fundamental, seja no mundo subatómico ou no tecido das sociedades humanas. No grande esquema das coisas, as escolhas conscientes têm alcance limitado. Líderes e movimentos podem influenciar eventos locais ou temporários, mas dificilmente conseguem alterar o rumo das grandes tendências estruturais. Por exemplo, as mudanças climáticas, as transformações demográficas ou os ciclos de declínio e ascensão de civilizações funcionam em escalas tão vastas que parecem impermeáveis à vontade individual.

Essa ideia também ecoa a crítica à visão humanista tradicional, que tende a superestimar o papel do livre-arbítrio e da agência humana. Talvez o que chamamos de "escolhas conscientes" não sejam mais do que reações locais dentro de um fluxo inexorável. Se assim for, seria possível que essa aparente "aleatoriedade" ou incerteza no momento das bifurcações seja, na verdade, apenas o reflexo da nossa incapacidade de compreender a totalidade das variáveis envolvidas. Por paradoxal que possa parecer, e é, determinismo e acaso parecem matrioskas russas. Quem percebeu isso foi Bertrand Russel, com a sua mente lógica e analítica, essa inter-relação paradoxal entre determinismo e acaso. Ele entendeu que o acaso, muitas vezes, é apenas a manifestação do desconhecimento humano diante da complexidade de sistemas maiores. As "matrioskas" escondem camadas e camadas de causalidade. O que chamamos de acaso pode ser o resultado de uma rede determinista tão intrincada que transcende a nossa capacidade de compreensão.

Esse paradoxo é fascinante porque, ao mesmo tempo que desafia o senso comum, captura a essência de como o mundo opera em múltiplos níveis. No plano físico, a incerteza quântica de Heisenberg demonstra que, no microcosmo, não podemos prever o que acontece com precisão absoluta. Mas, no macrocosmo, quem domina são as leis determinísticas. O acaso quântico não destrói o determinismo cósmico englobando-o. No plano histórico, os eventos parecem aleatórios - revoluções, colapsos, renascimentos - mas frequentemente são resultados inevitáveis de tensões acumuladas. A teoria dos sistemas complexos é uma tentativa para o explicar. As ruturas são aparentes apenas porque a nossa visão não abrange as "variáveis ocultas". No plano filosófico, Russell viu que determinismo e acaso não são opostos, mas interdependentes. O acaso pode ser uma camada dentro de um sistema maior, que é determinístico. Ou vice-versa.

Ora, tudo isto leva-nos para uma outra questão paradoxal: se aceitamos que o acaso é uma forma de determinismo incompreendido, ainda resta espaço para um conceito de liberdade ou escolha humana? Ou será que afinal de contas não passamos de meras engrenagens conscientes numa máquina cósmica?

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2025

Que Estado para os palestinos?





A seguir ao recente encontro de Netanyahu com Trump na Casa Branca, durante a conferência de imprensa, Trump expôs um plano para os EUA “assumirem” Gaza, deslocando palestinos para países vizinhos e reconstruírem o território devastado pela guerra. No que ele descreveu como a “Riviera do Médio Oriente”. Trump rompe com décadas de política externa dos EUA, que há muito tempo enfatiza uma solução de dois Estados para Israel e Palestina. Ora, até que ponto a proposta é viável, é outra questão.

“Os EUA vão assumir o controlo da Faixa de Gaza e faremos um trabalho com isso também”, anunciou Trump, revelando o que chamou de “propriedade a longo prazo” e plano de reconstrução para o território, grande parte do qual foi reduzido a escombros após 15 meses de guerra entre Israel e o Hamas. Os ataques aéreos israelitas danificaram ou destruíram cerca de 60% dos edifícios, incluindo escolas e hospitais, e cerca de 92% das casas, segundo as Nações Unidas.

“Nós seremos donos e seremos responsáveis ​​por desmantelar todas as bombas perigosas não detonadas e outras armas no local, nivelar o local e nos livrar dos edifícios destruídos”, afirmou o presidente americano na terça-feira. Não está claro como exatamente a apropriação de terras proposta por Trump funcionaria, e analistas lançaram dúvidas sobre a viabilidade do seu plano. A maioria dos dois milhões de pessoas que vivem em Gaza não vai querer sair. E é proibido serem removidas à força pela lei internacional. Nenhum Exército árabe vai transportar pessoas contra sua vontade para fora de sua terra natal. Já existem cerca de 5,9 milhões de refugiados palestinos em todo o mundo, a maioria deles descendentes de pessoas que fugiram com a criação de Israel em 1948.

Metade da população de Gaza já era formada por refugiados de fora da faixa costeira. Aproximadamente 90% dos moradores de Gaza foram deslocados na última guerra, e muitos foram forçados a se mudar repetidamente, alguns mais de 10 vezes, segundo a ONU. Pode-se argumentar que a solução de Trump é pragmática, quando se pergunta se os palestinos serão masoquistas. Mas também é simplista demais. O apego de um povo que se identifica com um determinado pedaço de terra é atávico. É a Pátria. “Por que eles iriam querer retornar? O lugar tem sido um inferno”, disse Trump, enquanto um repórter gritava: “Porque é o lar deles”. Em vez de Gaza, Trump sugeriu que os palestinos recebessem um “bom, fresco e belo pedaço de terra” para viver.

A ocupação ou o bloqueio não podem ser usados para justificar completamente os erros internos, práticas autoritárias e discriminatórias de grupos palestinos, e o terrorismo do Hamas. O Hamas, que governa Gaza desde 2007, tem sido amplamente responsabilizado pela repressão política, corrupção, violações de direitos humanos e pela imposição de normas sociais obedientes à Sharia. Ora isso é tudo contrário à Carta das Nações Unidas para os Direitos Humanos. Além disso, o uso de violência, incluindo ataques terroristas, prejudica a causa palestina e agrava o sofrimento da população.

A ocupação e o bloqueio criam um contexto que exacerba essas questões, mas não devem ser uma desculpa para evitar críticas legítimas aos erros internos das lideranças palestinas. Assim como é injusto desconsiderar os impactos estruturais da ocupação, também é necessário reconhecer que a responsabilidade pelas condições de vida dos palestinos não é apenas externa, mas também fruto de escolhas internas das lideranças e da fragmentação política entre grupos como o Fatah e o Hamas.

Por conseguinte, a piedade e discursos idealistas, por si só, não resolvem problemas estruturais profundos. No caso de Gaza, a situação atual é o resultado de décadas de conflitos, bloqueios, má gestão interna e a brutalidade dos ciclos de violência. As lideranças locais têm muita culpa, tanto por priorizarem esforços bélicos em vez de bem-estar civil quanto por falharem em construir instituições que promovam o desenvolvimento sustentável e a prosperidade da população. Por outro lado, as faltas de uma solução política para o conflito agravam enormemente a situação. Mesmo com ajuda humanitária e esforços internacionais, a destruição em Gaza é vasta, e a economia está em colapso. Uma infraestrutura incapaz de atender às necessidades básicas de milhões de pessoas.

Os "bem-pensantes" que defendem abordagens puramente idealistas, desconhecem a profunda realidade do conflito, limitando-se apenas a uma retórica típica de quem só olha para o ar do tempo. Sem mudanças estruturais concretas a realidade da população de Gaza dificilmente mudará. Ao mesmo tempo, estratégias unilaterais baseadas apenas na força ou repressão também não têm gerado soluções duradouras, como demonstra o estado atual da região. A verdadeira elevação de um povo exige paz, e políticas realistas que combinem investimento. Neste caso muito investimento para a habitação, saúde e educação. Mas quanto à questão económica, as oportunidades serão sempre muito escassas. Mas antes de tudo isso são necessários os líderes certos no momento certo. E onde estão eles?

O Hamas nunca fez isso em Gaza, antes pelo contrário. E a Autoridade Palestina tem-se revelado muito incompetente, fraca e corrupta. Ambos igualmente prejudiciais para o avanço do povo palestino. O Hamas, que controla Gaza, tem priorizado políticas militares e de confronto, enquanto negligencia o desenvolvimento social e económico da região. Além disso, sua repressão interna, autoritarismo e o uso de Gaza como base para ataques contra Israel resultaram em retaliações devastadoras, deixando a população civil numa situação desesperada. Já a Autoridade Palestina, liderada pelo Fatah em Ramallah, tem enfrentado grandes dificuldades para governar com eficiência. Corrupção endémica, fraqueza institucional e falta de legitimidade entre os próprios palestinos minaram a sua capacidade de implementar reformas significativas ou alcançar avanços políticos na busca de um Estado palestino viável. Essa liderança enfraquecida não conseguiu negociar uma solução com Israel nem oferecer uma alternativa convincente à resistência armada promovida pelo Hamas. Ambas as lideranças falharam em fornecer à população palestina uma visão unificada e uma estratégia viável para superar os desafios históricos e atuais. Isso deixou o povo palestino preso entre a repressão militar de Israel, a estagnação política e a falta de progresso económico, enquanto a devastação em Gaza se torna cada vez mais insuportável.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2025

O género deve ser uma escolha pessoal indiferente à biologia?


É pena que os pós-modernistas, com algumas excepções, tenham negligenciado os trabalhos de Charles Sanders Peirce no campo da semiótica e da percepção. E o humanismo está hoje a pagar por isso. Charles Sanders Peirce oferece uma abordagem robusta e profundamente estruturada para compreender os processos de significação e percepção, o que poderia ter enriquecido enormemente as discussões pós-modernas. A ênfase de Peirce na lógica triádica (ícone, índice e símbolo) e na semiose contínua fornece uma base epistemológica e metodológica que, talvez, corrigisse algumas das tendências mais relativistas e fragmentárias dos pós-modernistas. O pós-modernismo, ao rejeitar as "grandes narrativas" e abraçar o pluralismo interpretativo, muitas vezes deixou de lado sistemas que sugerem uma conexão mais profunda entre percepção, significado e realidade. Isso acabou enfraquecendo as bases do humanismo contemporâneo, especialmente no que diz respeito a um fundamento ético ou epistemológico comum.

Peirce, com a sua visão de que a verdade é alcançável (ainda que de maneira assintótica) por meio de um processo comunitário e contínuo de investigação, oferece um contraponto crucial ao niilismo que muitas vezes permeia o pensamento pós-moderno. Sua abordagem poderia ter ajudado o humanismo a evitar a armadilha de cair em um relativismo absoluto, preservando ao mesmo tempo a abertura à multiplicidade de perspectivas. Ignorar Peirce foi uma oportunidade perdida, mas talvez ainda haja tempo para resgatar e integrar a suas ideias à filosofia contemporânea, especialmente no esforço de reconstruir um humanismo mais sólido e coerente.

Muito bem. Então faz sentido reposicionarmos certos valores ditos tradicionais perdidos, em que, por exemplo, os pós-modernos identitários chegaram ao ponto de quase nos exigir que deitássemos fora os conceitos tradicionais de homem e mulher? Os conceitos de homem e mulher, enraizados tanto na biologia como em construções culturais, não precisam ser rejeitados para abrir espaço às novas perspectivas. Pelo contrário, podem ser reinterpretados de maneira que incorporem a diversidade sem negar o que há de valioso e funcional na tradição. A crítica pós-moderna, ao desconstruir categorias e binarismos, trouxe contribuições significativas, como a ampliação do reconhecimento de subjetividades e identidades que antes eram marginalizadas. No entanto, ao pressionar por uma desconstrução quase total de conceitos estabelecidos, corre-se o risco de criar uma desconexão cultural e histórica, privando a sociedade de referências compartilhadas que dão sentido e coesão à experiência humana. Por exemplo, a ideia de homem e mulher pode coexistir com o reconhecimento de identidades não binárias, desde que seja permitido que essas categorias continuem desempenhando seu papel onde são significativas, como na linguagem quotidiana, na biologia e na psicologia.

A semiótica de Peirce, aliás, poderia ser útil nesse esforço, pois enfatiza a necessidade de interpretar signos dentro de um contexto dinâmico e evolutivo. Isso nos permite ver categorias como homem e mulher não como prisões fixas, mas como signos cuja significação se expande ao longo do tempo, acomodando tanto a tradição quanto a transformação. A verdadeira solução talvez não esteja em abolir, mas em complexificar e enriquecer os conceitos, preservando o melhor dos dois mundos.

É claro que preservar a biologia tal como é, e fazer ver aos ideólogos pós-modernos que não há outra volta a dar senão dizer que só as mulheres podem parir, e que isso não pode ser um atributo de homem, a biologia estabelece parâmetros fundamentais. A questão da biologia é central, especialmente quando tratamos de definições fundamentais como a capacidade de parir. Essa é uma realidade objetiva: apenas indivíduos com sistema reprodutivo feminino possuem a capacidade biológica de gerar e dar à luz. Isso não é uma construção social, mas um dado científico inegável, baseado na anatomia e fisiologia humanas. Os ideólogos que tentam desconstruir essa base objetiva muitas vezes caem no ridículo de relativizar tudo, ignorando que certos limites naturais não são passíveis de debate. Portanto, ao preservar a biologia tal como ela é, estamos garantindo um terreno comum e estável, que serve de base para discussões mais amplas. Negar factos biológicos em nome de uma ideologia corre o risco de alienar as pessoas e enfraquecer os próprios movimentos sociais que buscam inclusão e justiça. Reconhecer essas verdades fundamentais é essencial para uma convivência que respeite tanto a ciência quanto a pluralidade humana.

E é com exemplos desses que desmistificamos aqueles que nos atiram a retórica de termos de ser mais abertos e não nos agarrarmos ao fechamento das tradições. A realidade não pode ser ignorada sem consequências. A retórica pós-moderna que exige uma reinterpretação radical de conceitos tradicionais, como homem e mulher, muitas vezes falha ao desconsiderar as verdades fundamentais e imutáveis da biologia. Essas ideias podem ser atraentes em um nível teórico, mas quando se trata de questões tangíveis, como a reprodução ou as capacidades biológicas, as tradições e os conhecimentos científicos não devem ser descartados sem reflexão cuidadosa. A crítica que fazemos ao fechamento das tradições não significa uma aceitação cega do status quo, mas sim um reconhecimento de que certos valores e conhecimentos, forjados ao longo do tempo, têm uma validade intrínseca e ainda oferecem uma base fundamental para a sociedade. Essa base, por sua vez, pode ser adaptada para acomodar novas realidades, mas sem perder a sua essência.

Ao apontar exemplos claros e inegáveis, como o fato biológico de que apenas as mulheres podem parir, estamos desmistificando a ideia de que o apego à tradição é uma forma de conservadorismo vazio. Em vez disso, mostramos que há uma diferença entre manter valores fundamentais e ser fechado à mudança. A verdadeira abertura vem de uma integração consciente e ponderada entre a tradição, a ciência e as novas perspectivas, sem perder de vista o que é imutável e essencial para a sociedade. Este tipo de argumentação permite desarmar a acusação de que estamos "agarrados ao passado" e revela, de forma clara, que a tradição pode e deve ser um ponto de ancoragem para resistir ao que é, por vezes, uma excessiva e imprudente desconstrução.


É com esse ânimo leve que o esquerdismo, ao querer passar certas ideias que não são mais do que uma moda estúpida, acabam por se descredibilizar junto das pessoas do senso comum. Com o devido respeito, ao ponto de uma mulher cirurgiã entrar no bloco operatório para operar com estas unhas da moda muito compridas e pintadas. A questão das unhas longas e pintadas, por exemplo, pode parecer um detalhe trivial, mas simboliza um problema maior. Algumas correntes ideológicas ou culturais tendem a abastardar as questões mais substanciais. A mulher cirurgiã que entra no bloco operatório com unhas extremamente longas e decoradas pode ser vista como alguém priorizando uma estética que não se alinha com as exigências profissionais do seu campo, como precisão, higiene e eficiência. Isso não apenas desvia a atenção do que realmente importa, mas pode também gerar desconfiança quanto à seriedade do movimento que a pessoa representa.

Mas se em relação ao profissional do bloco operatório, seja médica ou enfermeira, cujas implicações tem a ver com a destreza dos movimentos das mãos, e a higiene que te a ver com as bactérias instaladas nos espaços subungueais, também se aplica às próprias pacientes que vão ser operadas. É que o anestesista precisa de monitorizar a oxigenação do sangue durante a intervenção. E para isso utiliza-se um oxímetro que é colocado na ponta do dedo. E é a luz que atravessa a unha que vai registar o nível de saturação de oxigénio no sangue. Ora, os pigmentos coloridos que cobrem a unha funcionam como uma barreira a essa leitura.

É verdade que, ao tornar certas ideologias ou tendências como uma "moda", o esquerdismo corre o risco de banalizar temas importantes, tornando-os suscetíveis de serem desprezados por parte do senso comum. Quando certas questões, especialmente as relacionadas com identidade de género, são apresentadas de maneira excessivamente radical ou desconectada da realidade quotidiana, pode criar-se uma percepção de superficialidade e até de irracionalidade, que, no final, enfraquece a credibilidade das discussões.

O problema surge quando essas "modas" ou símbolos de identidade se tornam representações de um movimento mais amplo, que deveria ser focado na promoção de direitos e igualdade, mas acaba sendo confundido com uma agenda de performance superficial. É crucial que os defensores dessas ideias sejam cuidadosos para não perderem o foco na substância das questões, como direitos, acesso a recursos e igualdade de oportunidades, ao invés de se perderem em símbolos e tendências que podem ser facilmente desacreditados por aqueles que têm uma visão mais pragmática da realidade. A busca por aceitação e visibilidade não pode, portanto, ser confundida com um descompasso com a realidade quotidiana, onde as funções sociais e profissionais exigem mais do que uma imagem ou um gesto. Isso pode ser um fator decisivo para que algumas propostas sejam vistas com um ceticismo até mesmo desmedido por aqueles que, fora dos círculos ideológicos, preferem uma abordagem mais equilibrada e pragmática.

A ideia de que género deve ser uma escolha pessoal é mais frequente em movimentos ativistas do que na literatura académica. No entanto, na academia, é um tema de debate, e não um consenso. Muitos pesquisadores enfatizam que, mesmo que o género seja em grande parte construído socialmente, ele ainda está intrinsecamente relacionado às condições materiais e biológicas. Como diz Andrew Sullivan, é uma moda que leva toda a absurdidade de arrasto por tudo o que é "campus"

Andrew Sullivan tem sido um crítico vocal do movimento que ele vê como uma extensão do "wokeismo" nos campi universitários, acusando-o de promover ideias radicais e, muitas vezes, absurdas. Ele argumenta que essas ideias, como a completa desvinculação entre género e biologia ou a ênfase extrema na identidade pessoal como determinante de todas as questões sociais, representam uma moda académica que foge ao bom senso e à base empírica. Sullivan, em seu estilo provocador, frequentemente critica o que ele considera ser a intolerância ideológica que tomou conta de muitas universidades, onde debates sobre género, raça e identidade seriam tratados com rigidez quase dogmática. Para ele, isso não só sufoca o debate intelectual, mas também aliena pessoas que poderiam ser aliadas em causas legítimas de justiça social, por conta dos excessos e da falta de conexão com a realidade prática. Ele vê essa tendência como parte de um movimento maior, que ele denomina de "religião secular". Nessa visão, o ativismo progressista radical teria substituído a religião tradicional como uma estrutura moral, com doutrinas rígidas, heresias (opiniões divergentes), e práticas punitivas, como a "cultura do cancelamento".

Woke pode ser definido em português pelo slogan que caracteriza as feministas da terceira vaga que vieram dizer que finalmente acordaram em relação à opressão do perpétuo patriarcalismo que se havia inaugurado há dez mil anos com a Revolução Agrícola na zona do Crescente Fértil Foi o "despertar" para questões sistémicas de opressão. Esse contexto histórico reforça a ideia de que, com a transição de sociedades de caçadores-coletores para estruturas agrícolas e hierárquicas, emergiram sistemas mais rígidos de dominação, incluindo o patriarcado. O termo woke em português poderia, de facto, ser interpretado como esse "estado de alerta" ou "despertar consciente" para opressões que muitas vezes estão profundamente enraizadas na história humana. No caso das feministas da terceira vaga, elas ampliaram o debate, abordando não apenas o patriarcado como uma estrutura de opressão, mas também como ele se entrelaça com outras formas de dominação, como o racismo, o classismo e o colonialismo.

A afirmação de que "o género deve ser uma escolha pessoal indiferente à biologia" é mais uma ideia amplamente debatida no campo académico, especialmente em disciplinas como estudos de género, sociologia e filosofia, do que uma posição consolidada. Dentro da academia, existem pensadores e teóricos que exploram a distinção entre sexo (biológico) e género (construção social), mas poucos afirmariam de forma tão absoluta que o género deve ser completamente desvinculado da biologia.

Judith Butler, uma das principais figuras nos estudos de género e autora de Gender Trouble (1990), argumenta que o género é uma construção social performativa, ou seja, que ele é sustentado por atos e práticas sociais repetidos, em vez de ser algo inerente ou biologicamente determinado. No entanto, mesmo Butler não diz que o género é totalmente "indiferente" à biologia, mas que as categorias biológicas de sexo são interpretadas socialmente e, portanto, carregam significados culturais.

Académicos da teoria queer, como Jack Halberstam e Paul B. Preciado, questionam as fronteiras fixas entre sexo, género e sexualidade. Preciado, em particular, em obras como Testo Junkie (2008), aborda a transição de género e a "biopolítica" do corpo, sugerindo que os avanços tecnológicos e sociais permitem maior autonomia individual sobre a identidade de género.

Em alguns círculos académicos e ativistas, há posições mais radicais que defendem que género deve ser tratado como algo inteiramente autodeterminado, independentemente de características biológicas. Essas ideias frequentemente encontram críticas de outros académicos que alertam para o risco de negligenciar aspetos materiais, como as diferenças biológicas que têm relevância em áreas como saúde e medicina. Nem toda a academia concorda com essas perspetivas. Feministas materialistas, como Germaine Greer e Sheila Jeffreys, e teóricas como Kathleen Stock, criticam a desvinculação completa entre género e biologia, argumentando que isso pode apagar as experiências concretas das mulheres como classe social, definida, em parte, por características biológicas.

Sullivan argumenta que a "moda woke" se espalhou rapidamente pelas universidades, particularmente nas áreas de humanidades e ciências sociais, por algumas razões, entre as quais avulta a pressão social e o conformismo. Professores e estudantes sentem-se compelidos a alinhar-se a essas ideias para evitar represálias ou ostracismo. Muitas universidades adotaram códigos de conduta e programas que reforçam essas perspetivas, limitando o espaço para debates genuínos. A academia reflete e amplifica as tendências culturais de justiça social que dominam redes sociais e movimentos ativistas.

A "absurdidade" a que ele se refere incluem-se a noção de que género é puramente uma construção social e pode ser redefinido indefinidamente. É a rejeição de ideias científicas tradicionais em nome de "epistemologias alternativas". Os wokes fazem passar a ideia de que discordar de determinados posicionamentos é automaticamente sinal de opressão ou preconceito. Muitos académicos, mesmo progressistas, apontam que o movimento atual carece de bom senso, ou seja, não está escrito na pedra que a estupidez seja obrigatória. A questão que ele coloca, e que muitos compartilham, é se essas tendências representam um avanço para a justiça social ou um retrocesso intelectual.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2025

O que se está a passar com as candidatas aos Óscares da Academia de Hollywood?




Karla Sofía Gascón é uma atriz que nasceu em Espanha em 1972. Ela apareceu em várias novelas e filmes, incluindo El Señor de los Cielos (2013) e Nosotros los Nobles (2013). Ela havia-se mudado para o México em 2009, e considera-se “mexicana por adoção”, uma vez que vive e trabalha no México há muitos anos. É budista Nichiren. Gascón é casada com Marisa Gutierrez, que conheceu aos 19 anos numa discoteca em Alcobendas, Espanha. Juntas, elas têm uma filha, nascida em 2011. Em 2018, aos 46 anos, Gascón publicou sua autobiografia, Karsia, Una história extraordinária, onde se assumiu como uma mulher trans.

Portanto, para quem ainda está alinhado com o satatus quo do passado, Gascón nasceu rapaz e a dada altura apareceu como um mexicano transsexual, e por isso, agora é uma mulher, e candidata ao Óscar de melhor atriz feminina pela sua interpretação no filme ‘Emilia Pérez’, realizado pelo francês Jacques Audiard.

Em 2024, Gascón interpretou a personagem-título no filme musical Emilia Pérez, pelo qual venceu o Prémio do Festival de Cinema de Cannes de Melhor Atriz ao lado de suas colegas de elenco Zoe Saldaña, Selena Gomez e Adriana Paz. O seu desempenho recebeu reconhecimento mundial e tornou-se a primeira mulher abertamente transgénero indicada ao Oscar de Melhor Atriz. Além disso foi nomeada para os Globo de Ouro, SAG Awards e BAFTA, além de vencer o European Film Awards de Melhor Atriz. Em outubro de 2024, Gascón tornou-se Cavaleira da Ordem das Artes e das Letras em França. No mesmo ano, vieram à tona publicações em seu perfil pessoal na plataforma X nas quais criticava o Óscar por trazer filmes com maior representatividade cultural, além de criticar a imigração de muçulmanos em Espanha, de chineses no México, e insinuar que George Floyd seria um "drogado com quem ninguém se importaria".

As nomeações para o Óscar de Melhor Atriz em 2025 incluem: para além de 
Karla Sofía Gascón por "Emilia Pérez"; Fernanda Torres por "Ainda Estou Aqui"; Demi Moore por "A Substância"; Cynthia Erivo por "Wicked"; e Mikey Madison por "Anora". Assim, Karla Sofía Gascón fez história ao tornar-se a primeira mulher transgénero nomeada para esta categoria. No entanto, a sua nomeação tem sido envolta em controvérsia devido a publicações antigas nas redes sociais consideradas ofensivas, incluindo comentários racistas e islamofóbicos. Estas publicações geraram críticas significativas e levaram a atriz a desativar a sua conta no X. Em resposta às críticas, Gascón pediu desculpa publicamente, expressando profundo arrependimento pelo impacto das suas palavras e afirmando que sempre lutou por um mundo melhor. Apesar da controvérsia, ela decidiu manter a sua candidatura ao Óscar, afirmando que o seu trabalho como atriz está a ser avaliado, não os seus comentários passados. A Netflix, distribuidora de "Emilia Pérez", tomou medidas em relação à controvérsia, removendo o nome de Gascón do material promocional da campanha do filme para o Óscar.

Esta situação destaca os desafios que as campanhas para os Óscares podem enfrentar devido a ações ou declarações passadas dos envolvidos, afetando potencialmente as suas hipóteses de sucesso. Estaremos perante um novo tipo de Inquisição?

A comparação com a Inquisição faz sentido num certo nível metafórico, especialmente se pensarmos no fenómeno da "cultura do cancelamento" como um novo tipo de ortodoxia ideológica. Hoje, nestes meios ditos "culturais", o passado de figuras públicas é escavado nas profundezas do tempo até se encontrarem declarações inaceitáveis, segundo os padrões morais contemporâneos, mesmo que essas declarações tenham sido proferidas na puberdade ou enquanto adolescentes. Isso veio gerar um ambiente em que nenhum longevo, que hoje em dia abundam, estava à espera dado ninguém a partir de agora estará a salvo mesmo com mais de cem anos de idade. Os ditos "valores" hoje mudam muito rapidamente, pelo que o que hoje é aceitável pode ser problemático amanhã.

A grande questão é: qual o limite? Teremos um espaço para redenção genuína ou a condenação será perpétua? Uma jornalista (que se autointitula negra e muçulmana, como se isso interessasse para quem é jornalista) escreveu para a revista ‘Variety’ que ela não deveria ser candidata. Porquê? Não por ser transgénero, o que seria mais óbvio, dado sobrepor-se o talento genético masculino sobre a avaliação de usos e costumes femininos. Mas por ser racista. Sim, a controvérsia em torno de Karla Sofía Gascón ganhou outra camada quando a jornalista Nadira Goffe, da Variety, escreveu um artigo argumentando que a atriz não deveria ser candidata ao Óscar devido a postagens antigas nas redes sociais com comentários considerados racistas e islamofóbicos.

O caso ilustra bem a forma como a política identitária tem moldado o espaço público. Goffe, ao destacar que é negra e muçulmana, deixa claro que a sua posição não é apenas profissional, mas pessoal e identitária, como se a sua perspectiva tivesse um peso especial no julgamento moral da situação. Esse tipo de argumentação tornou-se comum nos debates contemporâneos: em vez de discutir objetivamente se o desempenho de Gascón como atriz merece o prémio, não senhora, o foco desloca-se para uma questão moral e identitária que transcende o filme. O problema dessa abordagem é que, ao longo da história, praticamente qualquer figura pública, se analisada sob os padrões atuais, pode ser considerada culpada de algo. Assim, a questão fundamental é: estamos a julgar artistas pelo seu trabalho ou pelo seu histórico pessoal e opiniões passadas? Se a resposta for a segunda opção, caminhamos para um ambiente em que a arte deixa de ser avaliada por seus méritos e passa a ser uma extensão da moralidade pública, o que nos remete, mais uma vez, a um tipo de Inquisição moderna.

Por Karla Sofia em 2020 ter referido – que há cada vez mais muçulmanos em Espanha e que, quando ia buscar a filha à escola, via cada vez mais mulheres com o cabelo coberto e vestidos até aos calcanhares, foi o suficiente para este alarido todo. O que Karla Sofía Gascón disse em 2020 pode até ser visto como uma simples constatação sociológica – o aumento da população muçulmana em Espanha é um facto demográfico – mas, no atual clima cultural, qualquer comentário sobre imigração ou mudanças sociais pode ser interpretado como um juízo de valor, especialmente se for percebido como uma crítica implícita. O que acontece aqui é um fenómeno que podemos chamar de puritanismo progressista: mesmo uma observação aparentemente neutra pode ser vista como ofensiva se for lida sob a ótica de um discurso maior, que considera qualquer menção à presença crescente do Islão na Europa como potencialmente islamofóbica.

O cancelamento de Gascón parece desproporcional, mas segue a lógica da "nova ortodoxia moral": qualquer figura pública que tenha um histórico de declarações que possam ser reinterpretadas como preconceituosas pode ser atacada e, em alguns casos, excluída do debate público. O mais irónico é que Gascón, sendo uma mulher trans, pertence a um grupo que, segundo essa mesma lógica identitária, deveria estar "protegido" de críticas. No entanto, como ela se desviou da cartilha ideológica em algum momento, tornou-se alvo de quem antes poderia tê-la defendido. O que isso revela é que as regras desse jogo são instáveis e cada vez mais restritivas. Hoje, o critério não é apenas o que se diz, mas quem diz e qual o seu histórico. Isso leva a um ambiente de patrulhamento constante, em que ninguém está completamente seguro de ser "puro" o suficiente para escapar da condenação pública.

Em 2021 ousou dizer que o Islão não respeita os Direitos Humanos e depois disso estendeu a crítica a todos os que não respeitam os Direitos Humanos, fossem do Islão ou outra religião qualquer. Até há pouco tempo, no Ocidente pelo menos, este discurso era politicamente decente. No entanto, no atual contexto de política identitária e sensibilidade cultural, qualquer crítica ao Islão pode ser interpretada como islamofobia, independentemente da intenção original. Historicamente, o debate sobre os conflitos entre certos aspectos do Islão e os Direitos Humanos não é novo. Intelectuais, tanto liberais e conservadores, já apontaram incompatibilidades em temas como liberdade de expressão, direitos das mulheres, dos LGBTQ+ e punições baseadas na Sharia. Mesmo dentro do mundo islâmico, há intensos debates sobre essas questões. O problema é que, nos últimos anos, qualquer crítica ao Islão passou a ser vista como um ataque direto a muçulmanos, o que automaticamente coloca o autor da crítica no radar da "cultura do cancelamento". O caso de Gascón mostra bem essa armadilha: mesmo ampliando a sua crítica para todas as religiões que violam os Direitos Humanos, a ofensa já estava dada. No tribunal moral da era digital, retratações raramente são suficientes para evitar a condenação pública. Mais uma vez, vê-se um padrão: o que importa não é necessariamente o conteúdo da linguagem, mas a percepção de que alguém cometeu uma heresia contra o dogma vigente.

Isso reforça a tese de que estamos vivendo uma nova forma de Inquisição, onde os inquisidores são determinados por uma nova ortodoxia progressista. Mas, ironicamente, essa ortodoxia acaba se contradizendo: aqui temos uma mulher trans a ser "queimada na fogueira" por criticar uma religião que, em muitos contextos, não aceita pessoas trans. No fim de contas, a lógica identitária colide consigo mesma, mas isso não impede que continue funcionando como um mecanismo de punição social.

Há quem veja nisto uma mão dos apoiantes da outra grande candidata, a brasileira Fernanda Torres, protagonista do filme “Ainda Estou Aqui”, de Walter Salles. O problema é que Fernanda também tem os seus pecados: há cerca de 20 anos interpretou o papel de uma empregada doméstica, pintando-se de preto; ou seja, fazendo o que ficou conhecido por ‘blackface’. Apesar de Karla e Fernanda terem ambas pedido desculpa pelo seu ‘vergonhoso’ passado racista e mais o que for, há quem considere que as suas candidaturas têm de ser retiradas. Este caso mostra como a lógica do cancelamento não tem limites claros e pode atingir qualquer um, independentemente das desculpas apresentadas ou da intenção original. Tanto Karla Sofía Gascón como Fernanda Torres estão sendo julgadas não por suas atuações, mas por aspectos de suas vidas passadas que, segundo os padrões morais de hoje, seriam inaceitáveis.

A possibilidade de que os apoiantes de uma candidata estejam a instrumentalizar essas acusações para enfraquecer a outra não pode ser descartada. Em disputas de grande visibilidade, como os Óscares, qualquer mancha no passado de um concorrente pode ser explorada como arma política. Isso se tornou especialmente comum na era das redes sociais, onde campanhas de difamação ou indignação organizada podem ganhar força rapidamente. O problema maior é o precedente que isto estabelece. Se começarmos a retirar candidaturas com base em deslizes do passado, o critério artístico deixa de importar. Pior ainda, essa busca por um "passado limpo" é uma ilusão: qualquer pessoa, se investigada a fundo, terá algo que possa ser considerado inaceitável sob uma nova ótica moral. Este tipo de puritanismo cultural pode levar ao esvaziamento do próprio campo artístico. Em vez de premiar os melhores desempenhos, corre-se o risco de transformar o processo numa prova de "pureza ideológica", onde vence quem tiver o passado mais imaculado. Isso não apenas distorce o mérito como também reforça um clima de paranoia e censura, onde artistas e figuras públicas vivem sob constante ameaça de "descobertas" que podem arruinar as suas carreiras.

sábado, 1 de fevereiro de 2025

Abou Sangaré, o guineense em Paris que protagoniza o filme Souleymane




O filme Souleymane retrata a história de Abou Sangaré, um jovem guineense que migra para Paris em busca de melhores oportunidades e, sobretudo, de um futuro mais digno. A obra destaca temas como a precariedade da vida dos imigrantes, o racismo e a luta por sobrevivência em um ambiente hostil e indiferente. Abou chega à capital francesa cheio de esperança, mas rapidamente percebe que a sua condição de imigrante irregular limita suas possibilidades. Ele encontra trabalho em condições precárias, muitas vezes explorado, e enfrenta o desafio de se adaptar a uma cultura que frequentemente o marginaliza.

O filme explora como Abou tenta equilibrar a sua identidade cultural guineense com a necessidade de se integrar à sociedade francesa. Ele luta para manter contacto com suas raízes, mas também sente a pressão de se transformar para ser aceite. Abou enfrenta barreiras legais, incluindo o constante medo da deportação. Sua luta para conseguir documentos que legalizem a sua estadia é um dos temas centrais, mostrando o impacto psicológico dessa insegurança constante. Apesar dos obstáculos, Abou encontra momentos de solidariedade e apoio em pequenos gestos e em amizades improváveis. Esses momentos humanizam sua experiência e mostram a complexidade da condição de imigrante. A história de Abou reflete a realidade de muitos imigrantes que chegam à Europa em busca de melhores condições de vida, mas enfrentam exploração e racismo estrutural. O contraste entre as expectativas de Abou ao deixar a Guiné e a realidade dura em Paris é uma reflexão sobre a fragilidade dos sonhos frente às adversidades.

Souleymane busca romper com estereótipos ao mostrar Abou como um ser humano complexo, com medos, esperanças e uma enorme vontade de prosperar. O filme expõe as condições sub-humanas enfrentadas por muitos imigrantes irregulares, particularmente na Europa Ocidental. Em Paris, a cidade frequentemente vista como símbolo de progresso e oportunidades, a realidade de Abou Sangaré revela o outro lado: exclusão, invisibilidade e desigualdade.

A narrativa evidencia como sistemas burocráticos muitas vezes reforçam a marginalização. Em uma cena emblemática, Abou enfrenta um tratamento desumanizador ao tentar aceder aos serviços públicos, sendo tratado como um número, e não como uma pessoa.

Ao explorar a origem de Abou, o filme vai ao encontro das causas que levam pessoas a arriscar tudo para buscar uma nova vida. A Guiné, com a sua história de exploração colonial e desafios contemporâneos, aparece como um pano de fundo crucial para entender a migração. Abou chega a Paris num autocarro de longo curso. Mal põe o pé em terra firme olha para a Torre Eiffel de longe, um símbolo dos sonhos que o trouxeram ali. A cena evoca a dualidade entre a promessa de um novo começo e o prenúncio das dificuldades.

Em uma cena brutalmente honesta, Abou é contratado para trabalhar como lavador de pratos num restaurante parisiense. Qualquer trabalho serve para começar a sobreviver. Uma das cenas mais emocionantes ocorre quando Abou conhece um grupo de imigrantes que compartilham comida e histórias num parque. Esse momento contrasta com a solidão da sua jornada inicial, mostrando que, mesmo em condições difíceis, existem redes de apoio. Num controlo de documentos Abou é parado pela polícia. Em um momento onírico, Abou imagina voltar à Guiné, com a família a recebê-lo como um herói. A sequência é interrompida pela realidade: ele está dormindo em um canto de um prédio em ruínas.

O filme Souleymane não oferece soluções fáceis ou finais felizes previsíveis, mas apresenta uma narrativa que obriga o espectador a olhar para as consequências da globalização, do colonialismo histórico e das disparidades económicas. Basta uma poderosa história individual, como a de Abou Sangaré, para entender os desafios sociais mais amplos.

Comprando o Mundo a dólar, assim vai Trump

 


Não é uma brincadeira. O Presidente Trump deixou claro o que pretende fazer: comprar a Gronelândia. Não se trata de adquirir terras por adquirir terras, mas de salvaguardar o interesse dos Estados Unidos. O aviso do secretário de Estado da nova administração norte-americana, Marco Rubio, não deixa dúvidas sobre o que pensa fazer Trump em relação à maior ilha do Mundo (tem dois milhões de quilómetros quadrados, 80% dos quais cobertos de gelo), onde os EUA já têm uma importante base militar.
A ameaça de Trump sobre a Gronelândia, região autónoma da Dinamarca, surgiu ainda antes de tomar posse, numa conferência de imprensa onde não excluiu até a possibilidade de uma intervenção militar. Marco Rubio acena com o perigo chinês para justificar as pretensões norte-americanas. “Os chineses acabarão, talvez até a curto prazo, por tentar fazer com a Gronelândia o que fizeram com o Canal do Panamá e outros locais”. Um inquérito da empresa britânica YouGov concluiu que 78% dos dinamarqueses estão contra a venda da ilha, mas 72% entendem que a decisão cabe aos seus habitantes. Uma outra sondagem conclui que a esmagadora maioria dos gronelandeses (85%) não quer que a ilha passe a fazer parte dos EUA. A Gronelândia é rica em vários recursos, como petróleo e gás natural, e ainda fornece matérias-primas para a tecnologia verde, motivo suficiente para atrair um diversificado interesse global.

Há precedentes. Os EUA compraram o Alasca à Rússia em 1867 por 7,2 milhões de dólares, numa transação semelhante ao que Trump sugeriu para a Gronelândia. Arrendamento de Hong Kong: O Reino Unido arrendou os Novos Territórios de Hong Kong à China por 99 anos (1898-1997), estabelecendo um precedente para arranjos de longo prazo. Bases militares: Os EUA têm acordos de arrendamento e concessões em diversas partes do mundo, como Guantánamo, em Cuba, e as Lajes, nos Açores.

A Gronelândia depende de subsídios anuais significativos da Dinamarca para sua administração. Os EUA poderiam, teoricamente, propor assumir essa responsabilidade financeira em troca de acesso estratégico e económico ao território. Os dinamarqueses poderiam ver um acordo de longo prazo como uma forma de aliviar o peso econômico, desde que suas prerrogativas de soberania sejam preservadas. Embora politicamente sensível, um arrendamento da Groenlândia pelos EUA não é impossível, especialmente se for apresentado como uma solução mutuamente benéfica e que respeite a soberania dinamarquesa e gronelandesa. No entanto, seria necessário um ambiente diplomático favorável e uma abordagem muito mais cuidadosa do que a sugestão inicial de Trump, que foi percebida como arrogante.

Donald Trump pode ser visto como um político controverso e muitas vezes pouco ortodoxo, mas no que diz respeito à geopolítica do Ártico, a sua abordagem revela um entendimento estratégico sólido. O Ártico tornou-se uma das regiões mais disputadas do século XXI, devido à sua localização estratégica, recursos abundantes e importância crescente no contexto das mudanças climáticas. A Rússia já controla a maior parte da costa do Ártico e está investindo massivamente em bases militares, rotas marítimas e exploração de petróleo e gás. A Rússia vê o Ártico como uma prioridade estratégica e não esconde suas ambições.

Embora a abordagem de Trump seja muitas vezes vista como "bruta" ou "incomum", ela obriga outros atores a prestar atenção. A proposta de compra da Gronelândia foi descartada como absurda, mas serviu para Trump mostrar que entende o potencial e os riscos do Ártico como poucos líderes americanos antes dele. Sua "piada" sobre comprar a Gronelândia foi uma forma de chamar a atenção para uma disputa geopolítica real e crescente, onde os EUA, China e Rússia estão jogando um jogo de longo prazo. Ele não é "parvo" — na verdade, reconhece que o controlo sobre o Ártico pode definir a balança de poder global nas próximas décadas.

A Esquerda em Portugal


Em Portugal, um partido que mantém fielmente a linha da velha esquerda é o Partido Comunista. Ao passo que a Nova Esquerda é liderada pelo Bloco de Esquerda (BE) seguido do Partido dos Animais e Natureza (PAN). O Partido Comunista Português (PCP) é, de fato, um dos últimos bastiões da velha esquerda tradicional, permanecendo fiel à defesa de uma agenda centrada na luta de classes, na proteção dos direitos da classe trabalhadora e na rejeição de agendas que considera secundárias ou "desviantes" da questão central do salário. O PCP é caracterizado por um discurso ainda enraizado no marxismo-leninismo clássico, o que, em muitos sentidos, o coloca em contradição com a Esquerda actual.


Para o PCP, questões como as causas do feminismo interseccional, a teoria queer ou o ambientalismo extremo são frequentemente vistas como distrações que fragmentam a luta contra o capitalismo. O PCP tem uma base histórica sólida em setores como a indústria e os sindicatos, especialmente entre operários e trabalhadores rurais. No entanto, essa fidelidade à linha tradicional tem levado o partido a perder relevância junto das gerações mais jovens e urbanas, que tendem a se identificar mais com as preocupações identitárias da Nova Esquerda. O BE tem uma forte preocupação ambiental, frequentemente ligada à crítica do modelo capitalista de consumo e exploração. No entanto, essa ampla agenda identitária, por vezes, enfraquece a sua capacidade de se comprometer com a classe trabalhadora, que se sente desamparada em questões materiais, como salários, habitação ou segurança no trabalho. O PAN é um caso peculiar dentro da política portuguesa. Embora não seja explicitamente um partido de esquerda em termos clássicos, muitas de suas posições se alinham com a Nova Esquerda. Diferentemente do PCP e, até certo ponto, do BE, o PAN tem pouca ou nenhuma preocupação com questões económicas estruturais ou com a luta de classes, preferindo focar-se em mudanças de estilo de vida, consumo sustentável e bem-estar animal.

Em Portugal, como em muitos outros países, a tensão entre a velha e a Nova Esquerda reflete uma mudança geracional e cultural. Se a velha esquerda, representada pelo PCP, enfrenta um declínio devido à incapacidade de se renovar e de dialogar com as novas gerações, a Nova Esquerda, liderada pelo BE e pelo PAN, enfrenta o desafio de entender as verdadeiras preocupações materiais da maioria da população. O futuro da esquerda em Portugal dependerá, em grande parte, da capacidade de conciliar as questões identitárias e ambientais com as necessidades materiais e económicas. Construir uma narrativa que não apenas critique o neoliberalismo, mas que apresente soluções concretas para as desigualdades estruturais. Essa conciliação, no entanto, não será fácil, pois o fosso cultural entre a velha e a nova esquerda parece, a cada dia, mais profundo.

Por outro lado, em relação ao tema da imigração, a esquerda portuguesa não tem sabido fazer a leitura correta dos 50 deputados do CHEGA, um partido xenófobo de extrema direita. Ou seja, a leitura do pulsar das preocupações da maioria do cidadão comum tem passado ao lado da atenção da Nova Esquerda. Ora, o fenómeno migratório destes últimos anos, que não é exclusivo de Portugal, ou até que Portugal não é dos países mais atingidos, como países europeus onde partidos de extrema-direita mais a sério conseguem canalizar os medos e as ansiedades da população, muitas vezes em torno da imigração e da identidade nacional.

A falha de leitura da esquerda sobre o CHEGA e a imigração tem a ver com o tradicional irrealismo dos setores da sociedade mais intelectualizados. A Nova Esquerda, particularmente representada pelo BE, tende a adotar um discurso pró-imigração incondicional, enraizado em princípios de solidariedade internacional e direitos humanos. Embora esses valores sejam louváveis, muitas vezes há uma desconexão entre esse discurso e as preocupações do cidadão comum, que sente os impactos diretos da imigração em termos de competição por empregos, pressão sobre os serviços públicos e integração cultural. É uma negligência crónica em relação às preocupações mais profundas das pessoas . Em vez de abordar pragmaticamente os impactos sociais, envereda pela retórica das fobias, como a xenofobia.

Foi a alienação do "pulsar popular" por parte da esquerda que empurrou essa grande fatia da população, que nas últimas eleições legislativas contabilizou 1.2 milhões para o CHEGA. A esquerda, por outro lado, parece relutante em lidar com essas questões de maneira direta, preferindo discursos moralistas que alienam o eleitorado mais conservador ou inseguro. Seja como for, não pode ser a esquerda a culpada de tudo, mas tem dado o seu contributo para que tanta gente tenha depositado o seu voto num partido tão medíocre. O CHEGA tem explorado a narrativa de que as elites políticas e intelectuais estão desconectadas das necessidades do "português comum". A defesa incondicional da imigração pela esquerda é frequentemente retratada como uma imposição dessas elites.

Para muitos, a imigração em grande escala é entendida como uma ameaça à cultura e aos valores nacionais. Essa preocupação é frequentemente explorada pela extrema-direita para reforçar o medo de uma "substituição cultural". Mas a Esquerda devia começar por reconhecer que esses medos são legítimos, e não rotulá-los imediatamente como xenófobos. Em vez de desqualificar as preocupações dos cidadãos como xenofobia, a Esquerda precisa reconhecer que há receios legítimos associados à imigração, como a pressão sobre a habitação, saúde e segurança. Um discurso que acolha essas preocupações demonstra empatia e disposição para encontrar soluções equilibradas. O que se deve fazer é defender uma imigração regulada e sustentável. A Esquerda pode propor políticas de imigração baseadas em critérios claros e justos, que garantam que os migrantes possam ser integrados de forma digna e que não sobrecarreguem os recursos locais. Por exemplo, criar programas de formação e integração no mercado de trabalho para os migrantes. Ao invés de insistir numa retórica demagógica, quais treinadores de bancada que ignoram as dificuldades práticas do terreno da governação, a esquerda deveria adotar um tom mais pragmático e próximo da realidade vivida pelos eleitores, demonstrando como a imigração pode ser benéfica, mas também como será gerida para minimizar os impactos negativos.

Em conclusão. A esquerda está metida numa encruzilhada. Se a Esquerda portuguesa, especialmente os partidos da Nova Esquerda, não ajustarem o seu discurso para refletir as preocupações reais do eleitorado, correm o risco de continuar a perder terreno para o CHEGA. O desafio não é apenas combater a extrema-direita, mas oferecer uma alternativa credível e empática que equilibre solidariedade internacional com responsabilidade nacional. Essa mudança exigiria coragem para romper com alguns dogmas e adotar uma abordagem mais matizada e realista sobre a imigração, que tem relutado em abordar.