sexta-feira, 13 de novembro de 2020

Querer o Paraíso e mandar nele


Quando Ângela Merkel passou recentemente pelo que Rui Rio está a passar com a cedência de alguns dos seus valores democráticos e patrimoniais para aceitar um acordo com André Ventura, do Chega, um partido de extrema direita, xenófobo racista e outras aberrações, para viabilizar um governo de direta regional nos Açores, e apear do poder o PS que já governava os Açores há muitos anos, o seu comportamento foi muito diferente do de Rui Rio. Ângela Merkel insurgiu-se por a liderança da CDU no Estado da Turíngia querer aceitar entrar numa coligação em que também entrava a AfD, uma força política idêntica ao Chega, a fim de obterem a maioria para governar. E a verdade é que a intervenção de Ângela Merkel foi decisiva para que a coligação não prosseguisse. 


Em Of Paradise and Power, 2003, o historiador Robert Kagan afirma que os europeus ocidentais, particularmente os ingleses, viviam no Paraíso sem saberem que era um paraíso. Daí que não deveriam ter brincado com o poder sem saberem quais eram as regras do Paraíso. Segundo as regras do Paraíso, como a História está farta de nos contar, as coisas podem mudar muito depressa, em apenas algumas décadas, porque quem manda não somos nós. A ordem natural das coisas tem as suas próprias regras. E a verdade é que, apesar das lições da História, em 2016 a Velha Albion decidiu abandonar a União Europeia em referendo. Of Paradise and Power: America and Europe in the New World Order foi escrito alguns anos antes de o Brexit ter ganhado, mas não é a primeira vez que há pensadores que escrevem coisas premonitórias antes do tempo, e não há ninguém que consiga explicar esse fenómeno. É um ensaio em que Robert Kagan tenta explicar as diferentes abordagens que os Estados Unidos e a União Europeia adotam em relação à condução da política externa. Kagan argumenta que os dois lados do Atlântico têm visões filosóficas muito diferentes em relação ao uso do poder. Consequência natural do poder excessivo dos americanos, e da falta dele por parte dos europeus.

Depois que o Sacro Império Romano foi dissolvido, em 1806, a Confederação Germânica de 39 pequenos Estados reuniu-se em 1815 no Congresso de Viena. Isso, por sua vez, levou à Confederação da Alemanha do Norte, e em seguida à unificação da Alemanha em 1871, depois da Guerra Franco-Prussiana, em que tropas alemãs vitoriosas ocuparam Paris. A partir dessa altura a França tinha na sua fronteira um vizinho geograficamente maior que ela, com população de tamanho similar, mas com uma taxa de crescimento maior e mais industrializado. A Alemanha sempre tivera problemas geográficos maiores que os da França. A planície do norte da Europa dava-lhe duas razões para ter medo: a ocidente os alemães tinham a França, vizinha há muito unificada e poderosa. E a oriente tinham a Rússia, um gigante a perder de vista. Seu medo supremo era que ambas as potências atacassem simultaneamente através da planície. Nunca poderemos saber se isso teria acontecido, mas o medo que provocou produziu consequências. A França tinha medo da Alemanha, a Alemanha tinha medo da França, e quando a França se uniu à Rússia e à Grã-Bretanha, na Tríplice Entente de 1907, a Alemanha teve medo dos três. Havia agora também outra dimensão: a Marinha Britânica podia, quando bem entendesse, bloquear o acesso alemão ao mar do Norte e ao Atlântico. A solução, por duas vezes, foi atacar a França primeiro. 

Exauridos pela Segunda Guerra Mundial, e com a segurança “garantida” pelas Forças Armadas Americanas, os europeus lançaram-se numa assombrosa experiência que é hoje a União Europeia. Os europeus tinham que, de uma vez por todas, confiar uns nos outros. O que é agora a União Europeia foi estabelecido de modo que a França e a Alemanha se estreitassem num abraço tão amoroso que nenhuma das duas pudesse libertar um braço para dar um soco na outra. Funcionou brilhantemente e criou um enorme espaço geográfico abarcando a maior economia do mundo. Funcionou particularmente bem para a Alemanha, que ressurgiu das cinzas de 1945 e usou em seu benefício a antes temida geografia. A Alemanha passou a ser o grande fabricante da Europa. Em vez de enviar exércitos através das regiões planas, enviou mercadorias, especialmente VW, BMW e Mercedes.

Os países da Zona Euro concordaram em continuar economicamente casados, como os gregos ressaltam, “na saúde e na doença”, mas quando a crise económica de 2008 explodiu, as relações azedaram porque os países mais ricos tinham de auxiliar os mais pobres. Agora com a crise pandémica volta a esperança de se darem bem, mesmo sem abraços que o vírus não deixa. Oxalá, volto a lembrar o Brexit, um profundo golpe psicológico para o sonho europeu. Os alemães sabem instintivamente que, se a União se fragmentar, os velhos medos da Alemanha ressurgirão, sobretudo porque agora ela é de longe a nação europeia mais populosa e rica, com 82 milhões de habitantes, e a quarta maior economia do mundo. Uma União fracassada também prejudicaria a Alemanha economicamente: o terceiro maior exportador de bens do mundo não quer ver o seu mercado mais próximo fragmentar-se no protecionismo.

Um outro problema surge no início de 2016, quando, pela primeira vez em meio século, a Suécia começa a verificar os documentos de viajantes provenientes da Dinamarca. Dava-se início a uma das mais graves ameaças à estabilidade da União Europeia, em termos geopolíticos, resultante do maciço número de refugiados e migrantes a chegar à Europa vindo do Levante e Norte de África, enquanto o Estado Islâmico atacava Paris em novembro de 2015 através de jovens muçulmanos europeus de segunda e terceira geração, adeptos fanáticos da jihad islâmica. A ideia de “espaço Schengen” da União Europeia, uma área de livre circulação compreendendo 26 países, sofreu alguns golpes pesados, com diferentes países em diferentes momentos reintroduzindo controlo das fronteiras por razões de segurança. Temendo um congestionamento, a Dinamarca começou então a verificar os documentos das pessoas que cruzavam a fronteira a partir da Alemanha. Tudo isso tem um custo económico, torna as viagens mais difíceis e é um ataque físico e conceptual à ideia de "paz na Europa". Alguns analistas começaram a falar não de Paraíso, mas de Fortaleza. As tentativas de reduzir o volume de imigração não levava em conta a Demografia e a História.  

Na última década do século XX pensava-se que as melhores cabeças do pensamento de esquerda estava a dar bons frutos com a ideia de multiculturalismo. Multiculturalismo, todavia, não era de todo um cosmopolitismo, mas uma forma de permitir que cada comunidade se expressasse de acordo com os seus próprios princípios. Por isso, uma certa fação islâmica radical começou a matar com ataques terroristas por discordar dos valores culturais mais sagrados dos europeus. Sentem-se com liberdade de matar por discordarem da liberdade de expressão. Podem-se construir mesquitas nos países da Europa, mas nos seus países de origem proíbe-se a existência de uma igreja cristã; por isso, as mulheres ocidentais são obrigadas a cobrir o cabelo nesses países. Mas a reciprocidade nos países europeus já não pode ocorrer. Em suma, comunidades inteiras não acatam o pluralismo e o cosmopolitismo, e os teóricos do multiculturalismo não dizem nada. Não fazem nada. Comunidades inteiras comportam-se como se estivessem no seu país de origem, e o "politicamente correto" aconselha que perante isso tenhamos falinhas mansas, porque ainda corremos o risco de sermos acusados de racismo e islamofobia. 

Se não formos exigentes e duros com certos radicais, perdemos batalhas fundamentais: a de poder acolher migrantes pacíficos e que nada têm a ver com isto; a do convívio são com outras religiões, designadamente o islamismo pacífico; a das fronteiras abertas. E ainda pior, abrir o flanco a populistas e extremistas de direita e de esquerda. A população branca tradicional da Europa está velha. E os militares sabem muito bem o que isto quer dizer: se houver uma guerra a sério, os europeus não têm energia suficiente para a luta. Projeções populacionais preveem uma pirâmide invertida, com pessoas mais velhas no topo e, na base, menos jovens. Entretanto, essas previsões não levaram em conta a grande discrepância entre a natalidade da velha população indígena, e a população muçulmana nativa. Essa mudança demográfica, por sua vez, tem um efeito sobre a política externa dos Estados-nação, em particular em relação ao Médio Oriente. Em questões como a Guerra do Iraque ou o conflito Israel–Palestina, por exemplo, muitos governos europeus devem, no mínimo, levar em conta os sentimentos dos seus cidadãos muçulmanos ao formular as suas políticas.

Agora a União Europeia só pode rezar para que Alemanha e a França sejam parceiras naturais. Mas somente a Alemanha tem um plano B: a Rússia. O fim da Guerra Fria viu a maior parte das potências continentais reduzir os seus orçamentos militares e as suas Forças Armadas. Foi preciso o choque da guerra russo-georgiana de 2008 e a anexação da Crimeia pela Rússia em 2014 para que a atenção se concentrasse na possibilidade de que o problema imemorial da guerra na Europa retornasse. Agora os russos efetuam regularmente missões destinadas a testar os sistemas de defesa aérea europeus e estão ocupados com a Ossétia do Sul, Abecásia, Crimeia, Transnístria e Ucrânia oriental. Eles mantêm os vínculos com russos étnicos nos países bálticos, e ainda têm o seu enclave de Kaliningrado no mar Báltico. E por último o Nagorno-Karabakh que se reacendeu. Há dias, horas depois do cessar-fogo que punha fim a seis semanas de conflito, quase 2000 membros das forças russas chegaram à região disputada. Azerbaijanos recuperam importantes territórios perdidos na guerra dos anos 1990. E a Rússia, Arménia e Azerbaijão assinam um acordo para o fim da guerra.

Os europeus começam agora a fazer algumas revisões dos cálculos para os seus gastos militares. Mas não há muito onde ir buscar o dinheiro. Enquanto debatem essas decisões, tiram o pó dos mapas e diplomatas e estrategistas militares observam que, embora as ameaças de Carlos Magno, Napoleão, Hitler e dos soviéticos tenham desaparecido, a planície do norte da Europa, o Cáucaso e os Cárpatos, o mar do Norte e mar Báltico ainda estão ali.


quinta-feira, 12 de novembro de 2020

Perturbação Dissociativa de Identidade


A Perturbação Dissociativa de Identidade (PDI), a entidade clínica mais complexa do espetro dissociativo, antigamente designada por Distúrbio de Personalidade Múltipla, caracteriza-se por a pessoa apresentar duas ou mais identidades. Foi Eberhardt Gmelin, que pela primeira vez, em 1791, apesentou esta entidade como perturbação mental, acreditando que era causada por abuso sexual durante a infância, e que podia ser curada integrando as subpersonalidades na principal. É uma fragmentação da identidade em duas ou mais personalidades, uma falha integrativa que compromete a unificação do Eu, da consciência de Si, e da memória. Assim, instala-se a desconexão do próprio em relação a Si, e também em relação aos outros e ao mundo. A mudança de personalidade, ou a troca entre partes da identidade, pode ocorrer em resposta a picos de stress emocional. O que interessa nesta análise são os casos patológicos, classificados como crónicos e severos.

O DSM-IV-TR - define Perturbação Dissociativa de Identidade segundo quatro critérios de diagnóstico: Presença de duas ou mais identidades, ou vários estados de personalidade cada qual com o seu próprio padrão; pelo menos duas destas identidades ou estados de personalidade tomam o controlo do comportamento do sujeito, de forma recorrente; incapacidade para recordar informação pessoal importante que não se enquadra no vulgar esquecimento; e não é devida primariamente a causas orgânicas ou aos efeitos fisiológicos de uma qualquer toxicodependência. 

Com o DSM-V (2013) um novo olhar sobre as Perturbações Dissociativas, inclusive a Perturbação Dissociativa da Identidade, impôs-se com a distinção dos sintomas derivados de intrusões espontâneas na consciência e no comportamento, acompanhadas por perdas de continuidade na experiência subjetiva; da incapacidade de acesso a informação ou controlo das funções mentais que normalmente são passíveis de acesso e controlo.  
A perturbação de identidade é caracterizada por dois ou mais estados de personalidade distintos. A variação nos estados de identidade com clivagem na sensação do Si, acompanhado por alterações no comportamento afetivo, consciência, memória, perceção e cognição. Estes sinais podem ser observados por outros ou reportados pelo próprio. A outra vertente tem a ver com falhas recorrentes na recordação de eventos diários, informações pessoais importantes e/ou eventos traumáticos. Os sintomas dissociativos causam um sofrimento clinicamente significativo, influenciando negativamente toda a atividade performativa do indivíduo, incluindo a profissional. A perturbação não é uma parte normal de alguma prática cultural ou religiosa que seja amplamente aceite. 

A Perturbação Dissociativa de Identidade resulta da exposição sucessiva a experiências traumáticas precoces, o que pode perturbar a unificação da identidade através da criação de estados mentais e comportamentais. É neste contexto de trauma severo e stress crónico durante o período da infância que são desenvolvidos os sintomas dissociativos, inclusive profundas perturbações de vinculação. O desaparecimento súbito e inesperado de casa, ou do local de trabalho, acompanhado pela incapacidade de recordação e de informação acerca da sua pessoa é um quadro típico. Por exemplo, o indivíduo anda desparecido uma série de dias, e um certo dia vê-se a acordar numa praia sem se recordar como foi ali parar. É um sintoma praticamente exclusivo da Perturbação Dissociativa de Identidade. A despersonalização remete para experiências irreais ou de desligamento da mente, do corpo e do self.

De um ponto de vista fenomenológico, os sintomas podem dividir-se em sintomas psíquicos e somáticos. Os sintomas psíquicos referem-se às alterações de memória, de conhecimentos, da identidade e da perceção alterada referente ao ambiente. Os sintomas corporais são, por exemplo, a anestesia, a paralisia e tiques nervosos. Recentemente, as perturbações dissociativas começaram a despertar mais interesse na área das neurociências, o que proporcionou mais conhecimento novo sobre os mecanismos neurobiológicos. Os estudos imagiológicos ocupam um lugar importante. Através da Ressonância Mgnética funcional, e da Tomografia de Emissão de Positrões encontraram-se alterações significativas entre os diferentes estados de identidade das pessoas com o diagnóstico prévio de Perturbação Dissociativa de Identidade. Existe a formação de novas redes neuronais promovidas por neuromediadores específicos. Williams, Haines e Sale (2003) demonstraram, através de medidas fisiológicas, que os fenómenos dissociativos protegem o indivíduo das memórias traumáticas, e da angústia associada. Num estudo de caso, com autorrelatos e recriação dos eventos traumáticos, acompanhados por medições da frequência cardíaca, observou-se uma redução do batimento cardíaco com a revivência das memórias traumáticas mais intensas. 

O Mar da China Meridional




O Mar da China Meridional ou Mar do Sul da China é um mar marginal, parte do Oceano Pacífico, que compreende a área que vai desde Singapura até ao estreito de Taiwan, num total de cerca de 3 500 000 km². As minúsculas ilhas do Mar da China Meridional formam um arquipélago de centenas de ilhotas.

Várias nações, em especial as Filipinas, levantam objeções ao nome Mar da China Meridional com o argumento de que ele implica a soberania chinesa sobre o mar, que é disputada por esses países. Algumas nomenclaturas usam a expressão "Mar do Sul da China" para se referir a esta parte asiática do Oceano Pacífico.

No verão de 2017 os chineses conduziram o porta-aviões Liaoning para o porto de Hong Kong acompanhado por dois contratorpedeiros de mísseis guiados, uma fragata de mísseis guiados e duas corvetas. A sua chegada foi calculada para honrar a visita do presidente Xi Jinping – mas pretendia ser também um lembrete para Hong Kong, e para o resto do mundo, sobre quem controla Hong Kong e quem pretende um dia controlar o Mar da China Meridional. Alguns meses antes, a China havia lançado o seu segundo porta-aviões. Ele estava pronto para a navegação, mas não para combate. Um terceiro porta-aviões deve ser lançado em 2021. É improvável que seja movido a energia nuclear e não terá a capacidade dos porta-aviões americanos; apesar disso, dará à China maior alcance e mais opções. Os jovens marinheiros que hoje se preparam no Liaoning - porta-aviões de segunda mão que a China recuperou de um ferro-velho ucraniano - serão aqueles que, se chegarem ao posto de almirante, talvez tenham aprendido o suficiente para saber como conduzir um grupo de porta-aviões de doze navios para o outro lado do mundo e voltar. Como algumas das mais ricas nações árabes compreenderam, não se encontram Forças Armadas eficientes disponíveis para venda.

Tendo passado 4 mil turbulentos anos a consolidar a sua massa territorial, a China agora está a desenvolver uma Marinha de Águas Azuis. A Marinha de Águas Verdes patrulha as costas marítimas, a Marinha de Águas Azuis patrulha os oceanos. A China levará mais trinta anos (mantendo-se constante a evolução econômica) para construir uma potência naval capaz de desafiar seriamente a força marítima mais poderosa que o mundo já viu: a Marinha Americana. Mas a médio e curto prazos, à medida que constrói, treina e aprende, a Marinha Chinesa entrará em choque com os seus rivais nos mares; e a forma como esses choques forem administrados – especialmente os sino-americanos – definirá a política das grandes potências no século XXI.

Pouco a pouco os chineses colocarão cada vez mais navios nos mares ao largo da sua costa e avançarão pelo Pacífico. A cada um que for lançado, menos espaço haverá para os americanos nos mares chineses. Os Estados Unidos sabem disso, e também sabem que os chineses estão a trabalhar arduamente para construir um sistema de mísseis baseado em terra para duplicar as razões pelas quais a Marinha Americana, ou a de qualquer dos seus aliados, um dia possa querer pensar seriamente em navegar pelo Mar da China Meridional. Ou, de facto, por qualquer outro "mar da China". O crescente poder de fogo da artilharia chinesa na costa, capaz de atingir navios a uma distância cada vez maior, permitirá à sua próspera Marinha aventurar-se cada vez mais longe do litoral, porque a frota se tornará menos vital para a defesa. Houve um indício disso em setembro de 2015, quando os chineses manobraram (legalmente) cinco navios pelas águas territoriais americanas ao largo da costa do Alasca. Não foi por coincidência que isso ocorreu pouco antes da visita do presidente Xi Jinping aos Estados Unidos. O estreito de Bering é a maneira mais rápida para os navios chineses chegarem ao Ártico, e os veremos em maior número ao largo da costa do Alasca nos próximos anos. Ao mesmo tempo, o projeto espacial chinês estará a observar cada movimento que os americanos e aliados fizerem.

Entre a China e o Pacífico encontra-se o arquipélago que Pequim chama de “Primeira Cadeia de Ilhas”. Há também a “Linha das Nove Raias”, mais recentemente transformada em dez raias, em 2013, para incluir Taiwan, que, segundo diz a China, marca o seu território. Essa disputa a propósito da propriedade de mais de duzentas pequeninas ilhas e recifes está minando a relação da China com seus vizinhos. O orgulho nacional diz que os chineses querem controlar as passagens através dessa cadeia; a geopolítica determina que deve fazê-lo. A cadeia fornece acesso às mais importantes vias de navegação do mundo no Mar da China Meridional. Em tempo de paz a rota está aberta em vários lugares, mas em tempo de guerra essas vias seriam facilmente bloqueadas, e com elas a China. Todas as grandes nações passam o tempo de paz a prepararem-se para o dia em que a guerra for deflagrada.

O Japão está também em disputa com a China por causa da cadeia de ilhas desabitadas chamadas de Senkaku e os chineses denominam-nas por Diaoyu, a nordeste de Taiwan. Essa é a mais contenciosa de todas as reivindicações territoriais entre os dois países. Se, em vez disso, os navios chineses passarem através – ou de facto partirem – do Mar da China Oriental, ao largo de Xangai, e seguirem em linha reta em direção ao Pacífico, terão de transpor as ilhas Ryukyu, que incluem Okinawa – onde há não somente uma enorme base militar americana, como também o maior número de mísseis anti navios que os japoneses conseguem reunir na extremidade da ilha. A mensagem de Tóquio é: “Sabemos que vocês estão indo para lá, mas não nos provoquem na saída.”

Abaixo de Okinawa está Taiwan, que se situa ao largo da costa chinesa e separa o Mar da China Oriental do Mar da China Meridional. A China afirma tratar-se da sua 23ª província, mas atualmente Taiwan é um Estado aliado dos Estados Unidos, com uma Marinha e uma Força Aérea armadas até aos dentes por Washington. A ilha foi submetida ao controlo chinês no século XVII, mas só foi governada pela China durante cinco anos no século passado entre 1945 e 1949. O nome oficial de Taiwan é República da China (RC), para diferenciá-la da República Popular da China, embora os dois lados acreditem que deveriam ter jurisdição sobre ambos os territórios. Isso é com que Pequim convive melhor, pois não declara que Taiwan é um Estado separado. Os americanos estão comprometidos a defender Taiwan no caso de invasão chinesa. No entanto, se Taiwan declarar completa independência da China, o que a China consideraria um ato de guerra, os Estados Unidos não estão obrigados a ir em sua ajuda, pois a declaração seria considerada uma provocação.

A partir do Mar da China Meridional os navios chineses rumam em direção ao Pacífico ou ao Índico, o canal do mundo para o gás e o petróleo sem os quais a China não funcionaria. Para seguir rumo a oeste, na direção dos Estados produtores de energia do Golfo, os chineses, antes do estreito de Malaca ainda têm de passar pelo Vietname, e perto das Filipinas, um aliado dos Estados Unidos. Aqui estão todos diplomática e militarmente vinculados aos Estados Unidos. O estreito de Malaca tem aproximadamente oitocentos quilómetros de comprimento, e no ponto mais estreito mede cerca de três quilómetros de largura, um ponto de estrangulamento a que os chineses são vulneráveis. Todos os Estados ao longo deste estreito estão sempre com muitas apreensões em relação ao domínio chinês, porque a maioria reivindica disputar territórios com Pequim.

A China reivindica quase todo o Mar da China Meridional, para além das reservas de energia que se acredita jazerem sob ele. Malásia, Taiwan, Vietname, Filipinas e Brunei também têm reivindicações territoriais não apenas entre a China, mas também entre si. Por exemplo, as Filipinas e a China discutem forte e feio por causa das ilhas Mischief, um grande recife nas ilhas Spratly, no Mar da China Meridional. A China precisa de proteger as rotas através do Mar da China Meridional, por onde, como já se disse, recebe matérias primas do Ocidente e as devolve manufaturadas. Daí estar fora de questão qualquer ideia de bloqueio, independentemente de outras vias que Pequim possa gizar. 

Diplomaticamente, a China tentará afastar as nações do Sudeste Asiático, e os Estados Unidos, valendo-se seja de recompensas, seja de penalizações. Muita recompensa, e os países se prenderão ainda mais estreitamente a tratados de defesa com Washington; penalizações em excesso, e eles podem não se curvar à vontade de Pequim. No momento, eles ainda olham para o outro lado do Pacífico em busca de proteção. Os mapas da região que os chineses imprimem agora mostram quase todo o Mar da China Meridional pertencente à China. Uma declaração de intenção oficial, sustentada por patrulhas navais agressivas. Pequim pretende mudar o modo de pensar dos seus vizinhos, e é cada vez mais notório em relação aos Estados Unidos. Por outro lado, está em jogo aqui o conceito de águas internacionais e passagem livre em tempo de paz, algo de que as outras potências não irão abrir mão facilmente. Com isso em mente, os britânicos anunciaram no verão de 2017 que uma das primeiras missões a serem realizadas pelos seus dois novos porta-aviões seria uma operação de “liberdade de navegação” através do Mar da China Meridional. Pequim viu com maus olhos o que considerava um ato de provocação, e deve-se observar que os britânicos não especificaram quando poderiam dar início à operação.

Pelo exposto se vê como o Mar da China Meridional é para a China no século XXI, como foi o Mar das Caraíbas para os Estados Unidos no início do século XX. Os americanos, tendo consolidado a sua massa territorial, haviam-se tornado uma potência com dois oceanos (Atlântico e Pacífico), e em seguida trataram de controlar os mares à sua volta, expulsando os espanhóis de Cuba. Os chineses também pretendem se tornar uma potência com dois oceanos (Pacífico e Índico). Para conseguir isso, a China está investindo em portos de águas profundas em Mianmar, Bangladesh, Paquistão e Sri Lanka – um investimento que lhe vale boas relações, o potencial de que a sua futura Marinha venha a ter bases amigas para visitar ou em que residir e vínculos comerciais em casa. Os portos do oceano Índico e da baía de Bengala são parte de um plano ainda maior para assegurar o futuro da China. O seu arrendamento no novo porto de águas profundas em Gwadar, no Paquistão, será fundamental (se a região paquistanesa do Baluchistão for estável o suficiente) para criar uma rota terrestre alternativa até a China. A partir da costa oeste de Mianmar, os chineses construíram ductos de gás natural e petróleo que vão da baía de Bengala até ao sudoeste da China.

Quando a Junta de Mianmar começou a se abrir lentamente para o mundo exterior, em 2010, não foram apenas os chineses que correram a se relacionar com eles. Os americanos e os japoneses apressaram-se a estabelecer relações ainda melhores. Tanto o ex-presidente Obama, como o primeiro-ministro Shinzo Abe, do Japão, foram pessoalmente fazer visitas de cortesia ao país. O governo Trump disse depois que não queria envolver-se em aventuras no exterior, mas o jogo em Mianmar não é uma aventura, mas uma estratégia de longo alcance e a longo prazo. Se os Estados Unidos conseguirem influenciar Mianmar, isso poderá ajudar a refrear a China. Até agora os chineses estão vencendo esse jogo específico no tabuleiro global, mas os americanos talvez sejam capazes de derrotá-los, contanto que o governo de Mianmar esteja confiante de que Washington o apoiará.

Empresas e trabalhadores chineses estão espalhados por todo o mundo; pouco a pouco as Forças Armadas da China os seguirão. Com um grande poder vem uma grande responsabilidade. A China não deixará que as vias marítimas em sua vizinhança sejam policiadas pelos americanos. Se puder evitar um conflito sério com o Japão ou os Estados Unidos, o único perigo real para a China é ela mesma. Uma grande depressão como a dos anos 1930 poderia atrasar o país por décadas. A China apostou tudo na economia global. Se nós não comprarmos, eles não fabricarão. E se eles não fabricarem, haverá desemprego em massa. Se houver desemprego em massa e prolongado, numa era em que os chineses são um povo apinhado em áreas urbanas, a inevitável inquietação social poderia assumir – como todas as outras coisas na China moderna – uma escalada nunca vista até hoje.

quarta-feira, 11 de novembro de 2020

Prometeu roubou o fogo do Olimpo



O debate ético em relação à manipulação genética da vida praticamente não existe. Deve ser a sociedade a emanar providências éticas cautelares sobre a ciência genética e não as forças que administram o dinheiro e o tempo. A dinâmica da ciência deve ser regulada de certo modo pela dinâmica da própria sociedade. No caso das modernas sociedades ocidentais tem imperado a lógica mercadológica em todos os aspetos da vida, não apenas ao nível social, mas também individual. E isso é mau, porque captura a ciência não para o interesse geral, mas para interesses particulares. É importante sublinhar tal aspeto para que não percamos de vista o entendimento de que a neutralidade da ciência em relação à política e à economia é uma quimera, pois por mais que benefícios possam mais tarde ou mais cedo chegar a todos, a melhoria da vida humana não é o único motor da pesquisa científica. 

E assim vamos temendo pela morte e pela desumanização, ou mesmo a inexistência de uma humanidade futura devido à radicalidade exponencial da imprevisibilidade da fantástica tecnologia, cujas transformações da natureza aumenta a probabilidade de riscos e danos irreversíveis. Portanto, a questão que se coloca é quais os limites que podem ser impostos às inovações técnicas que incidem sobre o corpo humano, e como se pode decidir acerca do futuro da humanidade. 

Prometeu roubou o fogo do Olimpo para o entregar aos homens e ensinar-lhes como usá-lo. Por isso, Prometeu foi condenado e acorrentado a uma rocha por toda a vida eterna, onde todos os dias uma águia, enviada por Zeus lhe vem comer o fígado. Mas no dia seguinte lá está outra vez o fígado reposto para ser de novo comido pela águia. Zeus, ao privar os homens do fogo, tinha como fito privar-lhes a existência. Em bom rigor o que Prometeu quis dar aos homens foi o raciocínio, e com ele ter acesso à técnica. Assim, deixariam de precisar dos deuses. Esta é a metáfora – o domínio da natureza por parte do homem visando o bem e a emancipação da espécie humana, apostando no poder libertador do conhecimento científico – serviu às mil maravilhas o ideal iluminista, que se prolongou pelo positivismo e pelo socialismo utópico. 

Se eu digo que já estou velho, vem logo alguém acudir para me tirar essa ideia da cabeça. Nas ricas sociedades modernas as pessoas tendem a afastar-se das conversas acerca da morte. Hoje não faltam entusiastas da ciência e da tecnologia que promete num futuro breve ser capaz de deter ou mesmo reverter o envelhecimento. Basta ao indivíduo manter-se saudável com os recursos disponíveis hoje para poder usufruir desse futuro. Ora, os fenómenos do envelhecimento e da longevidade não podem ser compreendidos simplesmente por uma abordagem biológica e cientificista, ou pelos seus aspetos sociais e económicos. O envelhecimento é uma coisa programada pela natureza. Mas hoje há quem a encare o fenómeno como se de uma doença se tratasse. Para ludibriar a ética, para ser possível manipular o relógio do tempo de vida de cada ser humano, o envelhecimento é uma doença. Então há que ir em busca de uma cura para ela. E isso impulsiona a aplicação de recursos cada vez maiores para pesquisas que se proponham encontrar uma cura para a velhice. Em maio de 2013 dois pesquisadores da Universidade de Harvard - Amy Wagers e Richard T. Lee - anunciaram a descoberta de uma proteína, a GDF11, capaz de reverter o processo de envelhecimento no coração. De acordo com os especialistas, essa é uma descoberta gigantesca, pois mudará o modo como pensamos os processos de envelhecimento. Os esforços dos médicos de laboratório concentram-se agora em viabilizar testes clínicos da GDF11, para que o tratamento possa chegar a quem o pedir. 

A busca por uma longa vida e eterna juventude está cheia de casos ao longo da história da humanidade. Diz-se que Cleópatra tomava banho de leite de cabra para manter a pele sempre jovem, o mito da eterna juventude. Os alquimistas buscavam a pedra filosofal e o elixir da longa vida. Nos dias atuais a busca por uma vida mais longa permite-se devido não apenas ao desenvolvimento tecnocientífico cada vez com mais capacidade para manipular o corpo humano a nível molecular e genético, mas também devido à chamada cibernética e o avatar ciborgue. Ciborgue é um conceito saído da ciência cibernética que junta um organismo biológico a uma aparelhagem tecnológica. Em poucas palavras, um ciborgue seria um ser humano melhorado: mais forte, mais inteligente, mas cheio de próteses. Produto do pensamento utilitarista, aplicado sem limites ao osso e ao aço, o ciborgue anuncia a imagem de um super-homem através de recursos tecnológicos. Capaz de superar cada vez mais as limitações de desempenho ditadas pela sua condição biológica natural. 

Na Grécia Antiga, buscava-se a perfeição simétrica das formas físicas. E isso refletia-se no cuidado que os gregos tinham com o corpo. É com Hipócrates que surge a primeira tentativa de abordar a doença sob uma perspetiva mais holista, não apenas do corpo, mas também da mente. Assim, a doença passa a ser concebida como um fenómeno natural resultante do desequilíbrio entre os quatro humores que regem o corpo: o sangue, a fleuma, a bílis amarela e a bílis negra. Essa doutrina aperfeiçoada mais tarde por Galeno de Pérgamo, e em parceria com os filósofos aristotélicos, constituiu dogma por toda a Idade Média, quando o corpo era tido como um instrumento de expiação. 

A conceção cristã de que o homem é dotado de uma alma imortal e que a sua vida na Terra é apenas uma passagem para a eternidade, foi uma maneira ardilosa para aceitarmos com tranquilidade a ideia de mortalidade. Só que naquele tempo ninguém estava à espera dos desvarios da ciência. A incapacidade da ciência nos salvar, de nos lavar a alma, de nos dar um sentido para a nossa vida, num mundo injusto e cruel, é uma das grandes limitações da ciência. Seja como for, a experiência da morte é variável de sociedade para sociedade, a maneira como os indivíduos lidam com a morte é aprendida de acordo com o ambiente social. 

O cristão deveria reprimir os seus impulsos físicos pela busca da vida eterna. Com o advento da modernidade e o surgimento dos ideais humanistas e da noção de indivíduo, diversas abordagens foram-se sucedendo, de modo que no início do século XIX o corpo era visto como uma simples manifestação da natureza sobre o qual a cultura atuava. Deste modo, o estudo do corpo foi relegado às ciências naturais, e o estudo do espírito foi deixado aos humanistas que no início do século XX com Freud era o Eu, a identidade individual, o meio pelo qual o indivíduo se afirmava como ser único. No final do século XX e início do século XXI a biotecnologia tornou-se a ciência de maior impacto económico no mundo. Finalmente, o genoma e a consequente descoberta do funcionamento do organismo a nível molecular, veio permitir atuar no corpo humano de uma forma nunca vista.

Um dos mais respeitados e conceituados nomes no campo da tecnologia é o inventor americano Ray Kurzweil. Para Kurzweil a inteligência humana é a força mais poderosa do universo e, graças a ela, em poucos anos a inteligência artificial chegará ao mesmo patamar da inteligência humana. Com isso, prevê que com o avanço exponencial da tecnologia “vamos transcender as nossas limitações biológicas” e em última instância a ciência será capaz de num futuro muito próximo proporcionar ao homem a imortalidade. Acredita ainda, que a ciência será capaz de restituir a vida àqueles que já partiram, seja por meio da hibridização do corpo humano com a máquina, seja pela transferência do cérebro do indivíduo para uma realidade virtual. Atribui ainda à nanotecnologia a capacidade de levar o homem a transcender os limites biológicos para manter a juventude e a saúde.

terça-feira, 10 de novembro de 2020

O sátiro. E a relação do humor com a política




Segundo a terminologia atualmente em uso nos países de língua inglesa, um infotainer é um entertainer televisivo, geralmente um humorista, que cruza a sátira política com a informação jornalística. Em Portugal é o caso de Ricardo Araújo Pereira no seu programa de entretenimento mais recente, no canal da SIC, intitulado: Isto é Gozar com quem trabalha. É um programa que tem duas partes, em que na segunda parte é entrevistada uma figura política, geralmente a exercer um cargo governamental, ou um líder partidário. É, portanto, um programa de infoentretenimento (em português), com um ambiente menos sério que um genuíno programa informativo, mas não deixando de transmitir informação, só que é com humor. E a sátira é o género humorístico mais utilizado.

A sátira política já tem uma história muito antiga, os meios e a forma é que são diferentes. O infotainment é que é um termo relativamente novo, mas vasto no panorama dos media da atualidade associados à televisão. A sátira, através de ironia e humor é uma representação divertida do mundo em que se está a viver. Essencialmente a sátira divide-se em duas grandes vertentes, a social e a política.

No que diz respeito à vertente social, o alvo da crítica são as situações do quotidiano da sociedade, que tendo na Idade Média sido representada pelo bobo da corte, atingiu o seu apogeu e importância no Renascimento. E foi nesse ambiente que surgiu em Portugal, no ano de 1516, por mãos de Gil Vicente, poeta e dramaturgo, a obra Auto da Barca do Inferno, uma crítica à sociedade usando personagens extraídos do quotidiano social português da altura.

O humor, algo que é difícil de definir, e quem se meter nisso, como outros já tentaram fazer, meter-se-á em controvérsias. Mas há uma coisa que se pode dizer: o humorista existe para fazer rir. E, por analogia, direi que o riso é o ingrediente principal, ou a essência da sátira. Se as pessoas que assistem ao programa não rirem nos-momentos-chave, e é rir mesmo e não apenas sorrir, o sátiro fica a saber que a sua mensagem não passou. Já a ironia é a representação do contrário. Esta funciona como que uma lupa que amplia ao pormenor o sentido do que é enunciado, usando a contradição, onde através da afirmação é capaz de negar, e onde através da negação consegue afirmar. Ao fazer isto, a ironia acaba por nos afastar um pouco do discurso lógico, visto o seu discurso só ter sentido interpretativo numa aplicação contextual. Esta funciona através do que está subentendido, e não do que é lógico. Poderá até chegar ao paradoxo, embora quase impercetível, mas mudando toda a coesão argumentativa. E ao provocar perplexidade nos espectadores, é ela que funciona como gatilho para a gargalhada.

A sátira teve a sua origem na literatura grega, com as clássicas peças de teatro, e, na romana, com o festival saturnália - festival em honra do deus Neptuno. No entanto, estes dois epicentros de sátira detêm características divergentes no que diz respeito ao âmbito político e, também, quanto ao seu formato. O teatro de comédia grega era um evento público que interagia com a audiência através do riso, ao mesmo tempo permitia a criação de uma sensação de pertença à comunidade. Em contraste, a sátira romana era escrita para as elites e, consequentemente, usufruída como uma experiência individual e privada. A comédia grega, tal como a tragédia, foi marcada por uma noção didática em detrimento da estética, que só foi desenvolvida posteriormente, com o surgimento da crítica sofista, como é exemplificado nas peças de Aristófanes. A grande diferença da época medieval para a época renascentista foi a descoberta da função social da sátira. Essa função social assentava na exposição e revelação de temáticas que costumavam ficar à margem de qualquer contemplação crítica. 

Contadores de histórias medievais na Europa Ocidental frequentemente confundiam sátiros com homens selvagens. Sátiros e homens selvagens foram concebidos com uma parte humanos e uma parte animal. Ambos considerados possuidores de apetites sexuais desenfreados. Histórias de homens selvagens durante a Idade Média frequentemente tinham um tom erótico, e eram contadas principalmente oralmente por camponeses, já que o clero as desaprovava oficialmente. Nesta forma, os sátiros às vezes são descritos e representados em bestiários medievais. Um sátiro mostrado vestido com uma pele de animal, carregando uma clava e uma serpente. Em outros casos, os sátiros são mostrados nus, com falos aumentados para enfatizar a sua natureza sexual.


Durante a Renascença, nenhuma distinção foi feita entre sátiros e faunos e ambos geralmente recebiam características humanas e de cabra em qualquer proporção que o artista considerasse apropriada. Um sátiro com pernas de cabra aparece na base da estátua de Baco de Miguel Ângelo (1497). Sátiros da Renascença aparecem por vezes embriagados como os da antiguidade. Mas também aparecem em cenas familiares. Essa tendência de sátiros domésticos e mais familiares pode ter resultado de um conflito com homens selvagens, que, especialmente nas representações da Renascença na Alemanha, eram frequentemente retratados como vivendo uma vida relativamente pacífica com as suas famílias. 


A representação mais famosa de um sátiro doméstico é a gravura de 1505 de Albrecht Dürer -The Satyr's Family, que foi amplamente reproduzida e imitada. Este retrato popular de sátiros e homens selvagens também pode ter ajudado a dar origem ao conceito europeu posterior de nobre selvagem. Os sátiros ocupavam um espaço paradoxal e liminar na arte renascentista, não apenas porque eram em parte humanos e em parte bestas, mas também porque eram antigos e naturais. Eles eram de origem clássica, mas tinham um cânone iconográfico muito diferente das representações padrão de deuses e heróis. Sátiros passaram a ser vistos como "pré-humanos", incorporando todos os traços de selvageria e barbárie associados aos animais, mas em corpos semelhantes aos humanos. 

Durante o século XIX, os sátiros e ninfas passaram a funcionar frequentemente como um meio de representar a sexualidade sem ofender as sensibilidades morais vitorianas. No romance "The Marble Faun" (1860) do autor americano Nathaniel Hawthorne, o conde italiano Donatello é descrito como tendo uma notável semelhança com uma das estátuas de sátiro de mármore de Praxiteles. Como os sátiros da lenda grega, Donatello tem uma natureza despreocupada. A sua associação com sátiros é ainda mais cimentada por sua intensa atração sexual pela mulher americana Miriam. 


Sátiros e ninfas forneciam um pretexto clássico que permitia que representações sexuais deles fossem vistos como objetos de arte erudita, em vez de mera pornografia. O imperador
Napoleão III concedeu ao pintor Alexandre Cabanel a Legião de Honra, em parte por causa de sua pintura Ninfa Raptada por um Fauno. 



E em 1873, outro académico francês - William-Adolphe Bouguereau pintou "Ninfas e Sátiro", que retrata quatro ninfas nuas dançando em torno de "um sátiro incomumente submisso", levando-o gentilmente para a água de um riacho próximo. Esta pintura foi comprada no mesmo ano por um americano chamado John Wolfe, que a exibiu publicamente num local proeminente no bar da Hoffman House, um hotel de sua propriedade na Madison Square e na Brodway. Apesar do seu picante, muitas mulheres foram ao bar para ver a pintura. A pintura logo foi reproduzida em massa em azulejos de cerâmica, placas de porcelana e outros itens de luxo nos Estados Unidos.

Em 1876, Stéphane Mallarmé escreve "A Tarde de um Fauno", um poema narrativo em primeira pessoa sobre um fauno que tenta beijar duas belas ninfas enquanto dormem juntos. Ele acidentalmente os acorda. Assustados, eles se transformam em pássaros de água branca e voam para longe, deixando o fauno tocar a sua flauta sozinho. Claude Debussy compôs Prélude à l'après-midi d'un faune, que foi executado pela primeira vez em 1894.



No século XX as obras de George Orwell, nomeadamente, Animal Farm, empregam a linguagem satírica direcionada para uma dimensão muito mais política, bem como concentrada na preocupação vincada em alertar para eventuais perigos políticos e sociais futuros, em detrimento de uma tentativa de diligenciar um efeito moralista. Esse objetivo futurista, utilizando certas valências do presente, é uma das principais características do género distópico. 



segunda-feira, 9 de novembro de 2020

Não se pode explicar o inexplicável




Quando pergunto a mim mesmo, por exemplo, como se chegou a um flamingo ou a um peixe espada, o tipo de explicação que preciso não é a explicação que um físico dá, por exemplo, como se chegou a um Ferrari de Fórmula 1, e coisas assim. Ele limita-se a explicar como funciona um automóvel, e nada mais. Nem nos satisfaz a explicação que um biólogo dá, dizendo que um animal é uma coisa muito complexa, fruto de uma evolução por tentativa e erro da natureza na Terra, por mais de treze mil milhões de anos.

Coisas complexas como carros ou animais explicam-se assim, não havendo mais nada para explicar. O padrão de compreensão do físico é o padrão das coisas simples e das leis naturais. E o padrão de compreensão do biólogo é a complexidade, mas desdobra-a em coisas simples, de que é feita a complexidade, da mesma maneira que faz o físico. E considera a sua tarefa concluída chegado às entidades simples. A partir daqui passa o caso para as mãos do físico em segurança, e este explica o resto.

Mas não é deste paradigma da ciência que estou a falar, quando pergunto como o Universo, a partir do big bang, chegou ao animal. O que quero saber é, quando o físico se debruça sobre o big bang, se ele  consegue vislumbrar o nosso surgimento passado treze mil milhões de anos. De certeza que não encontra nenhuma razão para que se formem tantas variedades de seres vivos (animais e plantas), quando apenas vê hidrogénio e depois uma certa poeira cósmica a formar estrelas e galáxias. Por conseguinte, o problema que eu coloco nas mãos do físico é diferente do problema que o biólogo lhe coloca. O meu problema é, digamos, de ordem metafísica, nada menos do que o problema das últimas causas e últimas consequências.

A ideia é que, em física, um agregado pode ser apenas a soma das suas partes. Mas um grupo social é sempre mais do que a soma dos seus membros, porque é nas relações entre as pessoas que reside a parte essencial de uma comunidade de pessoas, e, portanto, da sociedade em geral. É a dinâmica dos comportamentos que está em causa. Daí a questão do estatuto das ciências sociais. E a questão é mal colocada se se usa a física como termo de comparação. É claro que, dada a natureza dos fenómenos que estudam, cada uma tem especificidades quanto à sua metodologia. 

Em metafísica o jargão é do género: que amanhã choverá é uma afirmação a posteriori, isto é, a sua verdade ou falsidade não pode ser determinada sem nos basearmos em algum indício testemunhado pelos sentidos; já 2+2=4 é uma afirmação a priori, uma vez que a sua verdade ou falsidade depende exclusivamente da parte do nosso cérebro que trabalha a matemática. Nenhuns indícios podem vir de fora do nosso cérebro, na natureza obviamente, e não nos artefactos que entretanto construímos, porque isso seria fazer batota. É claro que tanto na física como noutras áreas científicas haveria experiências potencialmente reveladoras se fosse possível realizá-las. Mas sabemos que existem sempre limitações metodológicas e tecnológicas para as nossas criações matemáticas. Nestes casos os cientistas limitam-se a fazer as experiências dentro das suas cabeças. A ciência é uma atividade humana cujas características possuem uma dimensão metodológica e sistemática. É uma atividade em que não pode valer tudo, porque implica uma investigação focada dentro de parâmetros específicos, por forma a contribuir para um corpo de conhecimento sólido e coerente.

O que o químico nos diz, quando estuda o 2º princípio da termodinâmica, é que qualquer ser vivo trabalha para adiar a morte. O 2º princípio da termodinâmica expressa, de uma forma concisa, que a quantidade de entropia de qualquer sistema, termodinamicamente falando, tende a incrementar-se com o tempo, até alcançar um valor máximo. A energia tende a distribuir-se por igual, até que o sistema alcance um equilíbrio termodinâmico. Enquanto 1º princípio da termodinâmica responde pela conservação de energia em qualquer transformação; o 2º princípio da termodinâmica responde pelas condições necessárias para que as transformações termodinâmicas ocorram espontaneamente. É um axioma relacionado com a transformação de calor em trabalho em processos cíclicos. O trabalho resulta do facto de haver transferência térmica se duas fontes de calor estiverem a temperaturas diferentes. 

Entregue a si próprio, o corpo quando morre deixa de ter as propriedades que são diferentes da sua envolvência, revertendo o seu estado para um estado de equilíbrio com o seu ambiente. Os nossos corpos estão habitualmente mais quentes do que o meio ambiente que nos rodeia. E os nossos corpos em climas muito frios, como é o caso do corpo dos esquimós, têm de trabalhar muito para manter o diferencial – digamos entre zero graus celsius ambientais e 37 graus celsius corporais. Quando morremos, o corpo deixa de trabalhar, e a diferença de temperatura entre o corpo e o meio ambiente vai desaparecendo até se igualar. Podíamos dar outros exemplos, como no deserto, os animais e as plantas enquanto vivos trabalham para contrariar a saída da água do seu corpo, porque essa seria a tendência natural ditada pelas meras leis físicas, o que só acontece com o corpo morto. Portanto, genericamente, se animais e plantas não trabalhassem de forma ativa, deixariam de ser corpos autónomos e fundir-se-iam com a natureza envolvente.

Estando a ler 
o último Diário de Vergílio Ferreira [1916-1996], com o título genérico de Conta-Corrente - 1992, retiro o seguinte desabafo deste escritor existencialista:
«É isto. O tal princípio da termodinâmica deve estar a confirmar-se em mim. Porque estou a chegar a um ponto de indeterminação, confusão, mistura, caos. O único sentimento que vai prevalecendo em mim é o do medo. De quê? De nada, ou seja, de tudo. Chegado a velho, as pessoas imaginam que ou um macaquinho para mostrar. E se calhar já devo estar taralhouco. Porque é que o estupor do romance não avança em força? Para onde vamos? Daqui a cinquenta anos o mundo humano será inteligível se ainda o houver? Superpopulação, supertecnologia, mutação biológica, morte das ideologias, desvalorização do homem e o assassinato gratuito.»
Quando em 1968 foi publicada em Portugal a tradução de Les Mots et les Choses de Michel Foucault, vinha com dois prefácios antes do prefácio do próprio autor: o de Eduardo Lourenço sob o título – Michel Foucault ou o Fim do Humanismo; e o de Vergílio Ferreira sob o título – Questionação a Foucault e a algum Estruturalismo. Ora este texto deu origem a uma polémica entre Eduardo Prado Coelho [1944-2007] e Vergílio Ferreira. Os textos de Eduardo Prado Coelho foram publicados na Página Literária do Diário de Lisboa de 11, 18 e 25 de abril de 1968; e os de Vergílio Ferreira na mesma Página Literária em cinco dias de maio do mesmo ano. E a polémica foi de tal modo animada que mais tarde nenhum deles se orgulhou muito, porque terá assentado num equívoco que em vez de manter dentro das balizas da epistemologia filosófica descambou para a filosofia política. Ora, as perguntas que se fazem em filosofia política não é como as coisas são, mas como devem ser. E este tipo de abordagem é do domínio normativo e não do domínio epistemológico. É pouco sensato, para sabermos se certas medidas, que fazem parte do normativo político, são boas ou más, procurar uma resposta absoluta no tribunal da experiência científica. 
Enquanto Vergílio Ferreira reagia às considerações de esquerda de Eduardo Prado Coelho, à luz de uma conceção de esquerda nos termos da esquerda cultural tradicional; Eduardo Prado Coelho, estando mais à frente, avant la lettre, a sua conceção de esquerda já era uma esquerda pós-moderna, na linha dos continuadores de Foucault -  Jacques Derrida, Gilles Deleuze, Jacques Lacan e Félix Guattari.

Um aspeto a merecer investigação é o porquê de a estratégia epistemológica da esquerda política ter derivado em ceticismo e relativismo. A linguagem é o centro da epistemologia pós-moderna. Em suas argumentações sobre temas específicos da filosofia, da literatura e do direito, os modernos e os pós-modernos (mantenhamos este jargão da gíria habitual para simplificar as coisas) diferem não apenas quanto ao conteúdo, mas também nos métodos de empregar a linguagem. A epistemologia é a causa dessas diferenças. Nas palavras de Jacques Derrida, a linguagem é um sistema interno, autorreferencial, e não há como sair dela. Não existe nenhum padrão não linguístico ao qual relacionar a linguagem, portanto, não pode haver nenhum padrão que permita distinguir o literal do metafórico, o verdadeiro do falso. Então, em princípio, a desconstrução é um processo interminável.

Para os modernos, a funcionalidade da linguagem é complementar ao facto de ser cognitiva. O indivíduo observa a realidade perceptualmente, forma crenças conceptuais sobre a realidade com base em suas perceções e, então, age na realidade a partir desses estados cognitivos da perceção. Algumas dessas ações no mundo são interações sociais, e em algumas dessas interações a linguagem assume uma função comunicativa. Ao se comunicarem entre si, os indivíduos narram, argumentam ou tentam passar adiante as suas crenças cognitivas sobre o mundo. A retórica, portanto, é um aspeto da função comunicativa da linguagem; refere-se aos métodos do uso da linguagem que auxilie a cognição com eficácia durante a comunicação linguística. Para o pós-modernos, a linguagem não pode ser cognitiva porque ela não se relaciona com a realidade, seja essa realidade material ou espiritual. A linguagem não tem a ver com estar ciente do mundo, ou distinguir entre verdadeiro e falso. A epistemologia coloca duas perguntas sobre a linguagem: qual é a relação da linguagem com a realidade; e qual é a sua relação com a ação? As questões epistemológicas sobre a linguagem constituem um subconjunto de questões epistemológicas sobre a consciência em geral. Os modernos e os pós-modernos têm respostas radicalmente diferentes a essas perguntas. Para os realistas modernos, o propósito primário da consciência é estar ciente da realidade. O seu propósito complementar é usar essa cognição da realidade como guia para atuar nela. Para os antirrealistas pós-modernos, ao contrário, a consciência é funcional, mas não cognitiva. Por isso, a sua funcionalidade nada tem a ver com a cognição. Para os pós-modernos a realidade não pode ser resolvida na interpretação. A interpretação está fechada dentro da linguagem E a linguagem comunica apenas com mais linguagem, nunca com uma realidade não linguística.

Para os positivistas lógicos da linhagem de Karl Popper, Alfred Ayer ou Hans Reichenbach, o que distingue as afirmações científicas das da lógica, filosofia, religião, literatura, etc., é a sua veracidade poder ser definida por meio de testes empíricos. Pode-se fazer a experiência de a água ferver a 100º C, e congelar a 0º C, mas não existe nenhuma experiência que nos possa elucidar se matar é errado. As afirmações éticas não podem ser verificadas apelando à experiência. As questões éticas estão condenadas a discussões infindáveis. O que está em causa nas discussões sobre ética é a expressão de preferências que são em parte determinadas por fatores psicológicos e culturais sobre os indivíduos ou os grupos que as expressam. A larga maioria das pessoas defende que matar é errado porque em relação a isso desencadeiam dentro de si emoções negativas que as fazem sofrer. Isso não significa que esses estados psicológicos não possam ser estudados cientificamente pelas ciências psicológicas e sociais. Portanto, estas disposições éticas não descrevem como as coisas são, mas emitem diretivas ou manifestam desejos, o que quer dizer que não cabem no critério de as definirmos como verdadeiras ou falsas.

domingo, 8 de novembro de 2020

A América e o Mundo. E a Solidariedade Europa-América


Na crónica de hoje, António Barreto diz que: “A maior parte da esquerda europeia detesta a América e os americanos. Estes seriam imperialistas, arrogantes, sem sofisticação cultural, barulhentos, racistas e violentos. A maior parte da esquerda europeia detesta o liberalismo em geral, o americano em particular. A esquerda europeia considera-se sofisticada e culta, despreza o que acredita ser a rudeza americana, condena a brutalidade dos americanos e critica asperamente a alegada inclinação para a violência e a pornografia de metade da América e o fanatismo religioso e ignorante de outra metade.”

Ora, os EUA foram solidários com a Europa quando esta se meteu em sarilhos nas Duas Grandes Guerras, que alguns historiadores consideram que em bom rigor foi apenas uma com vinte anos de interregno. Até 1917, o conflito era um evento bastante lucrativo e benéfico para a economia norte-americana. No âmbito político, os Estados Unidos esperavam que a nação pudesse se fortalecer ainda mais ao possivelmente assumir a condição de intermediadora dos tratados de paz. Tais projeções mudariam de rumo no ano de 1917. 
Naquele ano, com o desenvolvimento da Revolução Russa, os Russos abandonaram a Tríplice Entente (designação francesa para designar a aliança militar entre o Reino Unido, a França e a Rússia. Na prática, havia consolidado os acordos bilaterais anteriores: a Aliança Franco-Russa,1891; a Entente Cordiale entre a França e o Reino Unido, 1904; e a Entente Anglo-Russa, 1907). Não confundir com a Tríplice Aliança, um acordo militar de 1882 entre o Império Alemão, o Império Austro-Húngaro, e o Reino da Itália, formando assim um grande bloco de países aliados no centro da Europa, em que cada uma das nações garantia apoio às demais no caso de algum ataque de duas ou mais potências sobre uma das partes. O objetivo principal era construir uma barreira político-militar que isolasse a França na Europa Ocidental. 

Para as potências centrais, a saída da Rússia da Tríplice Entente seria a oportunidade ideal para vencer o conflito. Não por acaso, os alemães puseram em ação um ousado plano de atacar as embarcações que fornecessem mantimentos e armas para o Reino Unido. Nesse contexto, navios norte-americanos foram alvejados pelos submarinos da Alemanha. Nesse momento a neutralidade norte-americana tornava-se insustentável por duas razões fundamentais. Primeiramente, porque a perda das embarcações representava uma clara provocação que exigia uma resposta mais incisiva do governo americano. Além disso, a saída dos Russos aumentava o risco de a Tríplice Entente ser derrotada e, consequentemente, de os banqueiros americanos não receberem as enormes quantias emprestadas aos países em guerra.

No dia 6 de abril de 1917, os Estados Unidos declararam guerra aos alemães e seus aliados. Um grande volume de soldados, tanques, navios e aviões de guerra foram utilizados para que a vitória fosse assegurada. Em pouco tempo, as tropas alemãs e austríacas foram derrotadas. Em 11 de novembro de 1918, o armistício de Compiègne acertou a retirada dos alemães e a rápida vitória da Tríplice Entente. 
Os principais signatários foram o Marechal Ferdinand Foch, comandante-em-chefe das forças da Tríplice Entente, e Matthias Erzberger, o representante alemão. Apesar do armistício ter acabado com as hostilidades na frente ocidental, foi necessário prolongar o armistício três vezes até que as negociações do Tratado de Versalhes fossem concluídas e formalizadas no dia 10 de Janeiro de 1920.

Durante trinta anos, foi moda prever o declínio iminente ou já em curso dos Estados Unidos. Isso é tão errado agora quanto foi no passado. O país mais bem-sucedido do planeta está prestes a se tornar autossuficiente em energia, continua a ser a potência económica, científica e militar capaz de engolir ainda todos os países da NATO juntos. A sua população não está velha como a da Europa e do Japão, e continua a ser o país mais apetecível, a primeira escolha de destino, para aquelas pessoas que esperam emigrar. Das vinte melhores universidades do mundo dezassete estão nos Estados Unidos.

A defesa dos países da União Europeia continua fundamentalmente a depender dos Estados Unidos, porque apesar do colapso da União Soviética em 1991, em decorrência da assombrosa incompetência económica da União Soviética, a ameaça Russa pode voltar. E na verdade os europeus continuam a meter pouco dinheiro na defesa, o que deixa os americanos aborrecidos por serem os seus impostos a subsidiar a defesa europeia. Apesar de a recente contrarreação da Rússia de Putin ser uma pedra no sapato dos Estados Unidos, não é uma séria ameaça ao domínio americano. Já o mesmo não se pode dizer da União Europeia. Em 2014, quando Obama descreveu a Rússia como “não mais que uma potência regional”, pode ter sido desnecessariamente provocador, mas não estava errado. E em 2016, Donald Trump, depois de se sentar na Casa Branca, não tardou a desferir o seu golpe de misericórdia sobre a União Europeia, cortando com toda essa aliança solidária ao ameaçar com o fim da Nato, ou então, os europeus tinham de se chegar à frente para a financiar. 

Os Estados Unidos estavam parcialmente por trás da mudança de governo ucraniano em 2014. Eles queriam ampliar a democracia no mundo e afastar a Ucrânia da influência russa, assim enfraquecendo o presidente Putin. Mas as coisas aqui não correram bem aos americanos, porque Washington sabe que durante a última década, enquanto os Estados Unidos estavam distraídos no Iraque e no Afeganistão, os Russos voltaram a tirar proveito dos países dantes chamados da "cortina de ferro". Com Putin, os Russos conseguiram manter sólidos pontos de apoio estratégicos em lugares como o Cazaquistão e a Geórgia, apoderando-se neste pais de algum território. Com atraso, e com certa relutância, os Americanos tentam reduzir as conquistas russas. Mas deu-se um golpe de teatro com o assédio do presidente Trump a Moscovo, a ponto de estabelecer uma relação pessoal com Putin, como se desconhecêssemos as grandes diferenças que separam os dois países.  

A famosa “viragem para a Ásia” dos Estados Unidos sob a administração Obama foi interpretada por alguns como o abandono da Europa; mas uma viragem para um lugar não significa obrigatoriamente o abandono de outro. A história do século XXI será escrita na Ásia e no Pacífico. Metade da população do mundo vive ali, e, caso se inclua a Índia, espera-se que a região responda por metade da produção económica global em 2050. Se a China bombardear um contratorpedeiro japonês e isso sugerir que ela poderia tomar outras medidas militares, a Marinha dos Estados Unidos talvez dispare tiros de advertência em direção à Marinha chinesa, ou até atire diretamente, para indicar que estão dispostos a entrar em guerra por causa do incidente. Do mesmo modo com a Coreia do Norte. Agora, do ponto de vista económico, os chineses estão a caminho de se colocarem a par dos americanos. E isso lhes vale muita influência no plano comercial e político, mas militarmente estão décadas atrás dos Estados Unidos, que passarão essas décadas tentando assegurar que a China continue assim. Seja como for, parece inevitável que o fosso entre estas duas superpotências se vá estreitando. 

No início de 2016, pela primeira vez a China pousou um avião numa das pistas que construiu nas ilhas artificiais do arquipélago das Spratly, no mar da China meridional. O Vietname e as Filipinas emitiram protestos formais, pois ambos reivindicam a área, e os Estados Unidos descreveram o movimento como ameaça à “estabilidade regional”. De alguma maneira eles devem assegurar aos seus aliados que estarão do lado deles e garantirão a liberdade de navegação em áreas internacionais, mas ao mesmo tempo sem chegar ao ponto de arrastar a China para um confronto militar. Mas a tensão em relação a Taiwan é grande, porque pelo tratado que os americanos têm com Taiwan, se os chineses invadirem o que consideram a sua 23ª província, os Estados Unidos entrarão em guerra. A China poderia então invadir Taiwan. Entretanto, não há nenhum sinal disso, e não parece que vá haver uma invasão chinesa. À medida que a China aumenta a sua demanda por petróleo e gás, os Estados Unidos diminuem. Isso terá um enorme impacto sobre suas relações exteriores, especialmente no Médio Oriente, com efeitos colaterais para outros países. Os Estados Unidos parecem destinados a se tornar não apenas autossuficientes em energia, mas exportadores de energia líquida. Isso significa que o seu foco em assegurar um fluxo de petróleo e gás a partir da região do Golfo diminuirá. Eles ainda terão interesses estratégicos ali, mas o foco não será tão intenso. Se a atenção americana decrescer, as nações do Golfo buscarão novas alianças. Um candidato será o Irão, outro será a China, mas isso só acontecerá quando os chineses tiverem construído a sua Marinha de Águas Azuis e, de maneira igualmente importante, estiverem preparados para utilizá-la. 
A política dos Estados Unidos em relação aos japoneses é convencê-los de que ambos compartilham interesses estratégicos quanto à China e garantir que sua base em Okinawa permaneça aberta. Os americanos ajudarão a Força de Autodefesa japonesa a ser um corpo robusto, mas ao mesmo tempo restringirão a capacidade militar de o Japão desafiar os Estados Unidos no Pacífico. 

Economicamente, os Estados Unidos também irão competir com a China pela influência sobre toda a América Latina – mas só em Cuba Washington usaria todos os recursos à sua disposição para assegurar o seu domínio na era pós-Castro/comunista. A proximidade de Cuba com a Flórida e a relação histórica (embora ambivalente) entre Cuba e Estados Unidos, combinadas com o pragmatismo chinês, deveriam ser suficientes para abrir caminho para que os Estados Unidos dominassem na nova Cuba. A visita histórica de Obama à ilha na primavera de 2016 ajudou muito a assegurar isso. Ele foi o primeiro presidente dos Estados Unidos em exercício a visitar Havana desde Calvin Coolidge, em 1928. O ex-líder Fidel Castro esbracejou sobre o acontecimento, e a imprensa controlada pelo Estado relatou com diligência comentários negativos, mas houve uma sensação de que isso foi só para manter o velho feliz; a decisão coletiva fora tomada, a nova era começara. O reinado Trump acabou por ter sido uma interrupção devido a uma avaria num programa que seguirá dentro de momentos. A política na América Latina será a de assegurar que o canal do Panamá permaneça aberto, sondar as taxas para passar através do proposto canal nicaraguense para o Pacífico e ficar de olho na ascensão do Brasil, caso ele comece a alimentar alguma ideia sobre sua influência no mar do Caribe. 

Em relação aos Árabes, a 5ª Frota americana não está prestes a se afastar de seu porto no Bahrein. Entretanto, se o fornecimento de energia da Arábia Saudita, Kuwait, Emirados Árabes Unidos e Catar não forem mais necessários para manter as luzes americanas acesas e os carros nas estradas, o público e o Congresso perguntarão porque se mantém lá os Estados Unidos da América? Se a resposta for “Para deter o Irão”, talvez não seja suficiente para calar o debate. Com as nações árabes engajadas no que pode ser uma luta de décadas com os islamitas armados, Washington dá a impressão de que abandonou a ideia otimista de estimular a emergência de democracias jeffersonianas. A relação estreita com Israel poderá arrefecer, embora devagar, à medida que os dados demográficos dos Estados Unidos se alteram. No Iraque, no Afeganistão e em outros lugares, os Estados Unidos subestimaram a mentalidade e a força de pequenas potências e tribos. A história da segurança física e da unidade dos próprios americanos pode tê-los levado a superestimar o poder de seu argumento racionalista democrático, que acredita que conciliação, trabalho árduo e mesmo eleições triunfariam sobre medos históricos profundamente arraigados e atávicos do “outro”, seja este “outro” sunita, xiita, curdo, árabe, muçulmano ou cristão. Eles supunham que as pessoas iam querer união, quando de facto muitas não ousam nem tentar, e preferem viver separadas por causa de experiências anteriores. Essa é uma constatação triste sobre a humanidade, mas ao longo de muitos períodos da história, e em muitos lugares, ela parece ser uma verdade lamentável. O resultado das ações americanas foi abrir novamente a velha caixa de Pandora, que para os observadores da diplomacia mais esclarecidos não se trata de ingenuidade, mas de ciência pragmática em relação aos interesses da nação americana. 

Em África, os Estados Unidos são apenas uma nação à procura da riqueza natural do continente. Aqui, no entanto, tem sido a China, pelo menos nas últimas três décadas, a encontrar a maior parte dessa riqueza. Como no Médio e Próximo Oriente, os Estados Unidos agora limitam-se a observar a luta islamita, tentando não se envolver. A ambição cabotina de os Estados Unidos para construir democracias no resto dos países que ainda não são democráticos, parece estar encerrada.

sexta-feira, 6 de novembro de 2020

Porquês e Paradoxos


Todos nós passamos pela idade dos porquês. E qualquer pessoa que tenha brincado com crianças, deve-se lembrar do que estou a falar quando elas chegam aos 4 anos de idade. É o despertar de um deslumbramento ontológico que, felizmente para bem dos educadores, e da realidade na ordem natural das coisas, desaparece em pouco tempo. Penso que já todos ouvimos expressões usando palavras que exprimem conceitos contraditórios na mesma frase, como “silêncio ensurdecedor”, ou “ilustre desconhecido”, só para dar dois exemplos. Estas frases encerram um paradoxo vicioso que os técnicos da linguagem costumam chamar a esta figura de estilo de “oxímoro". Dado que o sentido literal de um oxímoro é absurdo, quem o usa, seja um retórico, um místico ou um poeta, força-nos a desprezar o literalismo e a abraçar a metáfora.

Relacionado com a antítese, o paradoxo é uma figura de pensamento que consiste em nos atrapalhar, tomando proposições falsas, à luz do senso comum, para nos estimular o sentido de verdades psicológicas. Quem são bons a fazer isto são os poetas. Foi o caso de Luís de Camões que utilizou esta figura de linguagem no seu famoso soneto, do qual extraí estes versos:

Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente
É dor que desatina sem doer;

É um não querer mais que bem querer;
É solitário andar por entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em se perder;

Na Epístola a Tito, do Apóstolo São Paulo, lê-se nos passos 12 e 13 do Capítulo 1, o seguinte: 
12 Um deles, seu próprio profeta, disse: Os cretenses são sempre mentirosos, bestas maldosas, ventres preguiçosos # 13 Esse testemunho é verdadeiro. Portanto, repreende-os severamente, para que sejam sãos na fé
Ora por aqui se vê a erudição de Paulo, pois esta história dos cretenses já fazia parte de exemplos do paradoxo do mentiroso que os filósofos gregos muito apreciavam fazer. Era o caso do Paradoxo de Epiménides, um poeta, filósofo ou místico que nasceu em Cnossos, na ilha de Creta, e que esteve em Atenas no tempo de Sólon. Sabemos do gosto dos gregos pela matemática por Platão. E isso para Platão era mais do que um gosto, era um compromisso com a verdade. E a matemática era verdadeira porque descrevia a realidade das coisas. Era por isso que Platão não gostava de Protágoras, que dizia que o homem era a medida de todas as coisas. Assim como não gostava de nenhum sofista, porque diziam, como dizem hoje os pós-modernistas, que não há verdades, tudo é relativo à mente dos indivíduos. 

Jesus ressuscitado aparece e diz: “Ó homens loucos, lentos em acreditar no que os profetas disseram! Então não era necessário que Cristo sofresse tudo isto antes de ser glorificado?” E começando pelos livros de Moisés e por todos os Profetas, interpretou-lhes tudo o que acerca dele se dizia nas Escrituras. [Isto é Lucas em 24, 25-27]. Repare-se que Cristo apelou para as faculdades dos discípulos: “Então não era necessário?” Depois desvendou o significado dos textos colocando-os no contexto das profecias do Antigo Testamento. O significado tem a ver com o contexto. Um acontecimento só se torna significativo dentro de um contexto específico. E o processo explicativo fornece o palco da compreensão. Como podemos esperar compreender acontecimentos que se passaram há dois mil anos? A resposta a tal situação poderá ser: “O Novo Testamento não está dependente da sua cosmologia”. 

Os gregos atribuíram a Hermes a descoberta da linguagem e da escrita, as ferramentas que a compreensão humana utiliza para chegar ao significado das coisas e para o transmitir aos outros. A enunciação (interpretação) não pode, segundo Aristóteles confundir-se com a lógica, porque a lógica provém da comparação de juízos formulados. A enunciação é a formulação dos próprios juízos. Não é um processo de raciocínio que parte do conhecido para o desconhecido. A enunciação, ao procurar exprimir a verdade de algo tal como um juízo proposicional, inclui-se nas operações da mente mais altas e puras, na teoria mais do que na prática. Preocupa-se mais com a verdade e a falsidade do que com a utilidade. 

Os paradoxos, no sentido técnico, são catástrofes do pensamento. Para outros nem tanto, ficando-se pela linguagem lógica, através da qual somos compelidos a retirar conclusões contraditórias. Os mais fáceis de explicar são os da variedade autorreferencial, seja uma palavra, uma frase, ou uma descrição que se refere a si própria. Se esta frase: "esta frase é falsa" for verdadeira, então a frase é falsa. Mas então se a frase: "esta frase é falsa" for falsa, será verdadeira.

A afirmação: “esta frase é falsa”, como qualquer afirmação ou é verdadeira ou é falsa. Então, se aquela afirmação for verdadeira: é falsa – dado ser isto o que diz; já se for falsa: é verdadeira – dado que vistas bem as coisas é isso o que diz. Logo, a frase: “esta frase é falsa” tem de ser ao mesmo tempo verdadeira e falsa. E é assim que a nossa mente entra em curto-circuito, porque Aristóteles tinha-nos dito - Primeiros Analíticos, parte do conjunto organizado postumamente e conhecido por Organon - que não havia uma terceira hipótese: num silogismo a conclusão só podia ser verdadeira ou falsa. No entanto, Aristóteles generalizou demasiado quando afirmou que todo o raciocínio dedutivo é silogístico. Gottlob Fege (1848-1925), o maior lógico do século XIX, revelou uma variedade maior de argumentos dedutivos. 

Bertrand Russell (1872-1970), com a descoberta do paradoxo que diz respeito ao "conjunto de todos os conjuntos que não são membros de si próprios", provocou um grande abalo nas fundações da matemática. E isso aplicou-se a Gottlob Fege. Os axiomas de Fege da teoria dos conjuntos que permitiam a formação do conjunto de todos os conjuntos que não eram membros de si próprios. Como este conjunto envolve uma contradição, havia algo de fundamentalmente errado no sistema de Frege. Não se pode ser e não ser membro de si próprio em simultâneo; ou, não se pode querer comer o bolo e ao mesmo tempo tê-lo na mão. Bertrand Russell em parceria com Alfred North Whitehead conceberam um novo sistema formal para expressar verdades aritméticas cujo trabalho foi publicado nos seus Principia Mathematica.

O empirismo tradicional, exemplificado pelas perspetivas do filósofo escocês David Hume (1711-1776), procurara delinear os limites do conhecimento. E para Hume, as questões que podiam ser respondidas por raciocínios a priori, como eram os raciocínios da matemática, não tinham importância ontológica. Eram meramente verdades conceptuais que não nos dizem nada acerca do que o mundo realmente é. Refletiam apenas relações abstratas entre conceitos. Hume chamou às proposições que pretendem descrever a natureza do mundo: “questões de facto e de existência”. De acordo com o empirismo tradicional, a verdade ou falsidade de quaisquer proposições que abranjam a natureza do mundo, só podem ser demonstradas por meios empíricos. A faculdade do raciocínio a priori, o meramente conceptual, pode dizer-nos como os nossos conceitos estão relacionados, mas não pode dizer-nos como é o mundo para além deles. Para o conhecimento do mundo precisamos de alguma maneira estabelecer contacto com os nossos sentidos: visão, audição, tato, olfato, gosto, e ainda o sentido da propriocepção, também denominado cinestesia, a capacidade para reconhecer a localização espacial do corpo, a sua posição e orientação, a força exercida pelos músculos e a posição de cada parte do corpo em relação às demais, sem utilizar a visão.

É claro que entre os platónicos e os pós-modernistas muito se filosofou, e para abreviar chegou a vez dos positivistas lógicos que se tronaram empiristas radicais ao fazer a purga na ciência de tudo o que cheirasse vagamente a metafísico ou místico. Se bem que não tenham conseguido de todo, pois um dos seus gurus – Wittgenstein – tresandava a místico que se fartava. Até Rudolf Carnap, o mais sóbrio dos positivistas, lhe dedica um estatuto próximo da devoção religiosa. Os positivistas lógicos transformaram a teoria empírica do conhecimento numa teoria do significado, em que os meios empíricos para descobrir a verdade de uma proposição também fornecem o próprio significado da proposição. A teoria do significado positivista é por isso muitas vezes designada por critério verificacionista do significado. O termo positivismo, estava há muito em circulação sempre associado a uma atitude pró-científica. O filósofo inglês, Alfred Jules Ayer, depois de vários meses em Viena,  regressou ao seu país e escreveu o que tinha absorvido dos positivistas lógicos no seu extremamente influente e polémico “Linguagem, Verdade e Lógica”. 

Russell e Whitehead chamaram às suas regras "teoria dos tipos". Mas o problema é que por trás das regras não existia nenhuma teoria verdadeira. Os seus apelos aos lógicos para que dessem a solução que impedisse a formação de conjuntos paradoxais, foi o que levou Wittgenstein a abandonar a engenharia aeronáutica e ir para Cambridge, para se juntar a Russell. Desse primeiro estágio resultou o célebre Tractatus, que Wittgenstein nessa altura ousou dizer que depois do Tractatus não havia mais nada a dizer, terminando assim:

6.54 - As minhas proposições são elucidativas pelo facto de que aquele que as compreende as reconhece afinal como falhas de sentido, quando por elas se elevou para lá delas. (Tem que por assim dizer, deitar fora a escada, depois de ter subido por ela). Tem que transcender estas proposições; depois vê o mundo a direito. Acerca daquilo de que se não pode falar, tem que se ficar em silêncio.

Mais tarde, Wittgenstein rejeitaria muitas das asserções do seu Tractatus. De facto, a descontinuidade no seu pensamento foi considerada tão radical que os filósofos quando se referiam a ele sublinhavam se se tratava do "primeiro ou do "último" Wittgenstein. O primeiro era o da lógica monolítica da linguagem. O último era o dos jogos de linguagem, cada qual com as suas próprias regras. Isto resultou num pluralismo de jogos de linguagem que muito veio a agradar aos pós-modernistas, porque até a lei da não contradição deixaria de ser considerada um absoluto. Ao contrário dos filósofos de mentalidade científica que viam nele a sua inspiração, Wittgenstein nada tinha contra os paradoxos. O seu à-vontade quando confrontado com um paradoxo, parecido com aquelas atitudes Zen, era um aspeto do seu pensamento praticamente impossível de compreender para os membros do Círculo de Viena. 

Para terminar, apenas um pequeno apontamento a propósito de um dos patronos do pós-moderno: Martin Heidegger. Sartre, que mastigou Heidegger e bebeu de Husserl, escreveu que para que houvesse Negatividade, para que se pudesse negar o mundo, para se utilizar o conceito de Nada, tinha-se de interrogar o Ser. O Ser era a garantia para que o Nada fosse dado de algum modo. Para apreender esse tipo particular de realidade a que chamava Negatividade, tinha-se de entrar no cerne do Ser. E assim, Sartre teve de escrever mil páginas para o explicar. E depois passou isso a limpo com o título: O Ser e o Nada.