domingo, 13 de dezembro de 2020

Migrações - Milos Tsernianski (Crnjanski)



«Ele estava cansado de migrar, cansado da inquietação que atormentava as pessoas que ele liderava tanto quanto o atormentava. Se ele deixasse o exército, teria de se juntar ao irmão e viajar como comerciante de cidade em cidade, com a filha atrás. Se permanecesse no exército, ainda seria forçado a viajar. O seu dever é pacificar as populações migratórias.»
Migrations, 1929, romance de Milos Crnjanski (1893-1977), escritor sérvio, do modernismo sérvio, nascido a norte da Sérvia, onde hoje faz fronteira com a Hungria. O romance passa-se na década de 1740. A leitura ou releitura deste romance é apropriada numa altura em que a mesma área é palco de uma dramática saga de migrantes depois de sobreviverem ao naufrágio no Mediterrâneo, ou no Mar Egeu, para chegarem à rota que os levará ao acolhimento putativo dos países mais ricos da Europa.  

Em meados do século XVIII, a Sérvia era alvo da ganância dos impérios otomano e austro-húngaro. E dois irmãos lutam por um sentido de identidade pessoal, num cenário devastado pela guerra. Vuk Isakovic, um oficial romântico a braços com as forças austro-húngaras, e o seu cínico e oportunista irmão, Arandjel, um comerciante que lucra com o caos da guerra. Obcecado pela relação amorosa entre Vuk e Dafina, Arandjel seduz a sua misteriosa cunhada enquanto Vuk está fora em campanha militar. Dafina morre após manobras de abortamento, ao tentar interromper a gravidez resultante desse envolvimento. Temos assim, o remorso de Arandjel, que amou Dafina; e um Vuk muito desiludido com o rumo que a guerra estava a levar: soldados eslavos prontamente executados por violarem o código de honra do seu exército. Embora o romance nunca integre totalmente o drama dos dois irmãos, a prosa apaixonada, muitas vezes mágica, compensa um enredo não tão bem resolvido. 

Um romance histórico, impulsionado pela guerra, um divisor de águas para a população da fronteira militar do império Austro-Húngaro (Habsburgo). A um outro nível, o romance é uma história do povo sérvio, uma história ainda hoje não resolvida. A vários níveis questiona o significado da guerra, do amor, do dinheiro.  

Mercenários sérvios que servem no exército austro-húngaro, numa altura em que a ameaça otomana recuava, saem de casa para lutar contra os franceses numa série de batalhas brutais. As tensões inerentes ao sistema das fronteiras militares foram expostas, espalhando-se em agitação periódica, cujos esforços de reforma nunca foram bem contidos. É o sofrimento do duro e opressivo regime nas zonas de fronteira. E é a sujeição à implantação estrangeira com as suas tentativas de conversão religiosa forçada. Tudo isso a testar a lealdade dos Grenzers à dinastia dos Habsburgo, em oposição à sua lealdade familiar e comunitária. Tais conflitos de lealdade levavam muitas vezes à deserção, e consequente emigração. 

Os habitantes das fronteiras militares sentem que as suas vidas são um ciclo interminável de migração e morte, onde o significado dos seus sacrifícios, o significado de família e amizades são postos em causa. Qualquer esperança de se construir um futuro seguro e pacífico para os filhos é desintegrada na lama que envolve as migrações forçadas. Assentar no Império Austro-Húngaro significava abandonar a identidade nacional. A assimilação significava tornarem-se servos ou trabalhadores. Apenas alguns afortunados podiam desfrutar a cidadania plena através das promoções no serviço militar imperial. 

A experiência das migrações leva as pessoas a sentirem-se sombras de si mesmas. E sombras umas das outras. Sem um sentido seguro do seu lugar e futuro no mundo, elas são incapazes de uma narrativa coerente do Eu e do Outro nas suas vidas. Daí o apego a símbolos e mitos, na tentativa de um rumo para as suas vidas inseguras. É o mito de um reino perdido que só pode ser recuperado através de uma série de andanças e julgamentos. 

Os anos passarão. Quem deve contar os pássaros que migram ou os raios que o Sol carrega de Leste a Oeste, de Norte a Sul? Quem deve prever que povos migrarão, e para onde, nos próximos cem anos?
 Que sementes brotarão no próximo século na Europa, Ásia, América e África?




Milos Crnjanski, a partir de 1913,  vai estudar História da Arte na Universidade de Viena. Em 1914, no início da Primeira Grande Guerra, é recrutado. Um dos poucos sobreviventes, ele já estava tuberculoso mesmo antes de o seu regimento ter sido dizimado. Ithaca, os seus primeiros poemas, narra as experiências de guerra, poemas autobiográficos.  

Após a guerra, vai para Belgrado, onde se matricula na Universidade em Literatura Comparada, História e História da Arte. Mas depois, acaba por vender a casa que era do pai, e muda-se para Paris. Depois viaja por Roma e Florença, onde permanece algum tempo, até que a partir de 1928 passa a ser adido cultural do Reino da Jugoslávia em várias cidades: Berlim, Roma e Lisboa. 
Em 1941 junta-se ao governo exilado em Londres. Depois da guerra, é o regime de Tito, fica por lá no exílio, em grande pobreza, até 1965, embora as suas obras tenham sido publicadas na Jugoslávia, a partir de meados da década de 1950. Mas quando regressa à Jugoslávia é celebrado e premiado com o maior prémio literário jugoslavo NIN. Milos Crnjanski morre na Sérvia a 30 de novembro de 1977, na cidade de Belgrado. 

Ž - Um fotógrafo de guerra desaparecido. De um conto de Alexandra Lucas Coelho




Este conto foi escrito e publicado em Belgrado, em janeiro de 2015, no âmbito da residência de escrita Krokodil em parceria com o Centro de Língua Portuguesa de Belgrado/Instituto Camões

Ð liga para Lisboa, a uma jornalista repórter, chamemos-lhe Alexandra, para lhe perguntar quando poderá ir a Belgrado. Precisava que ela lhe reconstituisse a história de Ž. Ora, foi na noite de 2014 para 2015, quando chegou ao encontro de Ð na fortaleza da capital sérvia, e alguém disse que estavam doze graus negativos oferecendo um golo de rakija. 

Ž tinha quinze anos a 4 de maio de 1980, quando Tito morreu em Liubliana, Eslovénia. “Ž partilhava o quarto com dois irmãos, e tinha de negociar com eles o tráfego de namoradas. Portanto, punks de Dedinje mas não menos punks por isso, fuck off.”

O que poderia Alexandra dizer sobre Ž a quem crescera nas mesmas trincheiras de Ž? Alexandra havia aterrado em Belgrado no começo do inverno, como ela dizia "para uma espécie de garimpo de fora para dentro". Quando Tito morreu, já Рse encontrava a milhas, bolseiro de estudos pós-coloniais, aluno de Edward Said. 

É 25 de dezembro, e Alexandra apanha um táxi em direção à antiga mansão de Tito em Dedinje. O táxi parou junto ao muro de um extenso parque, bem em frente à mansão de Tito, e onde Miloševic se havia instalado nos anos 90. O facto de Miloševic morar na mansão de Tito significava que era a Grande Sérvia a ocupar a Casa da Jugoslávia. A História ia recomeçar nele.
«Caminho ao longo do muro da mansão. O táxi espera do outro lado da estrada. Ninguém nos passeios, nenhum cartaz, nenhuma tabuleta, a jugo-nostalgia contemporânea não parece chegar aqui, talvez porque não se possa entrar, talvez porque Miloševic morou lá dentro, e se Tito deu vida à Jugoslávia, Miloševic enterrou-a, ou talvez por a casa ter sido bombardeada pela NATO em 1999. Os destroços continuam à vista, através do rendilhado de um portão. 
(Há uns curto-circuitos assim no meio de Belgrado, subitamente numa avenida dois edifícios bombardeados, lado-a-lado. Não sei se é uma decisão ou a ausência dela, e até hoje não perguntei.) 
Esta rua — Užicka — entrou para a história do século XX à bomba (já na Segunda Guerra, os Aliados bombardearam os alemães que a tinham ocupado), mas o que me interessa hoje é como ela coincide com o mapa de Ž. Eles, os proto-punks de Dedinje, vinham dos prédios com bicicletas, com trenós, com guitarras, com namoradas, consoante a estação e a idade. Em Dezembro caíam os primeiros nevões, ficava tudo fofo, depois duro, e depois pedregulhos podiam cair se a temperatura subisse de repente, desprendendo o gelo dos telhados, morre-se disso em Belgrado, como nos trópicos de um coco. Árvores em ponto de fuga, silêncio de bosque mais que de bairro: não é Tito nem Miloševic que suponho a atravessar a estrada (também não atravessariam a estrada, imagino), mas sim Ž, as longas pernas de Ž com aquelas calças de pinças, aqueles ténis, aqueles blasers, aqueles pins no blaser, aquelas franjas dos anos 1980 tapando olhos de ressaca, de quem não dá trela a ninguém. Vai fazer vinte anos amanhã, e mais um amigo acaba de morrer. »

Ž decidiu ir para o México, e disse aos pais estudar fotografia. Foram duas temporadas, a primeira, entre os vinte e os vinte e um (1985-86). No formidável campus da Universidade Nacional Autónoma, entre uns biscates, estudava fotografia. A segunda temporada, aos trinta e quatro (1999), a fotografar a violência das fábricas de Ciudad Juárez para a revista do New York Times. 

Ž, em apenas treze anos, catapultou-se para a linha da frente do fotojornalismo, de trincheira em trincheira. A primeira vez que Alexandra o viu foi em Sarajevo. Cobriu conflitos no Irão, Iraque, Roménia, Líbano, Ruanda, Irlanda do Norte, Sudão, Afeganistão, Rússia, Serra Leoa, Argélia, Israel-Palestina e claro, nas repúblicas da ex-Jugoslávia.

Pois é para Sarajevo que Alexandra vai agora, em direção ao aeroporto num táxi arranjado por Ð. Ainda tem tempo para dizer a Ð que no fim de semana vai nevar: 
De Belgrado a Sarajevo são 45 minutos de viagem a tão baixa altitude que se pode observar a passagem da planície sérvia para as montanhas bósnias, como se de súbito o mundo se levantasse num movimento interminável. Uma imagem de contornos esfumados, com a cor e a consistência de um desenho a carvão. Depois, o avião desce, curva para a esquerda e começa a percorrer o vale de Sarajevo na última hora de sol. Sarajevo estende-se como uma grande reta ao longo do rio Miljacka, montanhas de um lado e do outro e ao fundo. Lá mais para o fundo começa o pedaço austro-húngaro, palacetes e pracetas, igrejas e pontes, incluindo a graciosa Ponte Latina junto à qual foi assassinado o arquiduque Franz Ferdinand, que assim, tão involuntariamente, teve para sempre o seu nome associado ao início da Primeira Guerra, em 1914. Neva toda a noite. Domingo de manhã, os carros são contornos brancos nos passeios, difícil distinguir o passeio da estrada. Um repórter veterano, antigo parceiro de Ž, leva-a pelas montanhas. Vê então Sarajevo de onde a viam os atiradores, com os seus restos de castelos otomanos, o seu casario, as suas florestas. E recorda então os últimos meses do cerco a Sarajevo. 29 de dezembro, continua a nevar. Passeia ao longo do rio com o filho de um soldado que Ž fotografou em 1993, e a que depois voltou várias vezes. O seu parceiro de caminhada tem 27 anos. Todas as suas primeiras memórias são de guerra. Aos cinco já se escondia de snippers e sabia distinguir granadas. Volta e meia tinham de ir para uma cave a noite inteira, todo o bairro ia. Muitos prédios tinham abrigos, vinha do tempo da Jugoslávia. Ele ia com a mãe e a irmã bebé, porque o pai estava a combater, operava um lança-chamas, ficava fora durante meses, voltava por um mês, às vezes trazia latas de comida. Às vezes também conseguiam comida da ajuda humanitária, e a mãe tinha uma horta. As pessoas escavavam para encontrar água e toda a gente ia com recipientes, por trás das casas, encostada aos prédios. As crianças sabiam que não podiam brincar no meio dos pátios. A escola também era numa cave, mas ele ia às aulas quase todos os dias. Como quase sempre não havia luz, acendiam velas, candeeiros a gás e pedalavam uma bicicleta até fazer o rádio funcionar, só cinco minutos para ouvir as notícias, ora ele, ora a mãe. Em suma, o que ele sabia era que os sérvios atacavam e eles se defendiam. O filho resume isto de forma implacável, diz que teve de assumir o controlo das coisas muito cedo, e desde então nunca deixou de o fazer. Um dia avisou o pai de que o mataria se voltasse outra vez a casa embriagado, o pai desapareceu uma semana, mas nunca mais bebeu. Agora está tudo ok, tanto quanto depende dele. Arranjou o seu próprio apartamento. Não vai à mesquita, é ateu. Continua a namorar a rapariga de Belgrado, ela vem para a passagem de ano, ele ficará a morar aqui, é certo. Adora a adrenalina do que faz, todos os dias aviões diferentes, a diferentes altitudes, a diferentes velocidades, que não podem chocar, ou entrar numa daquelas nuvens com trovoada. O trabalho dele é pensar depressa. Terça, 30 de dezembro, regressa a Belgrado, onde também nevou. 
«Gosto daquele velho amigo de Ž (o do cão encantador). Diz coisas tão inesperadas para um sérvio como ter sido a favor das bombas da NATO sobre os alvos de Miloševic (apesar dos erros, apesar dos erros, incluindo um hospital). A capacidade autocrítica destes sérvios só se compara ao humor negro dos bósnios, que fazem da morte a mais escandalosa anedota. Mas nada é mais escandaloso, mesmo. 
(E viciante? Toda uma bibliografia sobre como a guerra pode ser aditiva, toda uma medicina, endorfinas, dopamina. A urgência, a intensidade, a alucinação. A segunda oportunidade que é a compaixão? A certeza de, enfim, ter um coração? Ð sabia que o assunto me interessava, era esse o assunto que levava a Ž: a guerra como única forma de estar vivo.) 
Toda a gente fuma três maços por dia em Belgrado, em virtualmente todos os lugares fechados, incluindo o elevador do meu prédio. O tabaco é barato, as rendas são baratas, a cidade tem dois rios e os homens são grandes. Do que entendi até agora parece que o único impedimento de Belgrado é que se eu beijar uma mulher na rua dá insulto, e homem com homem dá hooligans. Ó gente viril, é mesmo isso, não basta Putin? Se os hooligans não têm objectivo, qual é o objectivo dos não-hooligans? Cura, limpeza, salvação? Hitler era um homossexual reprimido. Matou seis milhões mas manteve-se virgem. Isso dá-lhe créditos no inferno? 
Já agora, em que inferno penará Arkan, que chegou a comandar uma claque do Estrela Vermelha quando já tinha uma sólida carreira de bandido internacional, e depois fez dos seus hooligans a mais temida milícia dos Balcãs, raptos, torturas, execuções, extorsões? Fascinante imaginar as conversas dele com deus quando se refugiava num mosteiro ortodoxo com os seus tigres armados, todos bem acolhidos, quem sabe até o seu tigre bebé. 
Mais um rapaz de Dedinje, Arkan, mas uma geração antes de Ž. A única vez que se cruzaram foi quando Ž o fotografou no instante da morte, coincidência raríssima na história da fotografia. Porque, por acaso, às cinco da tarde de 15 de Janeiro de 2000, Ž estava no foyer do Hotel InterContinental de Belgrado à espera de alguém. Como não vinha para fotografar tinha só uma pequena câmara na mochila, com um filme já a meio, e pegou nela discretamente ao avistar o gangue de Arkan: os homens que o guardavam, a interacção com tudo em volta. Minutos depois os assassinos entraram no seu campo de visão. Em 38 tiros, três foram fatais, boca, têmpora, olho. A última imagem de Ž capta o momento em que a senhora Arkan — Ceca, inflada diva do turbo-folk — vem a correr da loja onde fazia compras. Depois, o filme acaba. 
Ž publicou as fotografias, com uma curta declaração sobre o acaso que o levara ao hotel, mas recusou-se uma vez mais a dar entrevistas. Anos de especulação mundial. Uns viram nisso uma ligação de Ž ao assassinado, outros uma ligação de Ž aos assassinos. Os acasos têm péssima fama. 
A segunda vez que vi Ž, em 2002, ele contou-me como o caso Arkan gerou nele uma repulsa que o afastou da ex-Jugoslávia para sempre. Estávamos bem longe daqui, numa Ramallah invadida por tanques israelitas, sob recolher obrigatório. Não lhe contei o que acontecera da primeira vez, não valia a pena. Eu decidira sozinha, e neste fim de 2014, em Belgrado, brindo a isso de nenhuma portuguesa ainda ter de abortar clandestinamente. 
Rakija de alperce: amanhã, antes de o ano acabar e subirmos ao Kalemegdan, vou dizer a Ð que não consigo reconstituir a história de Ž. Cada vez tenho menos certezas sobre ele, o que provavelmente significa que ele será cada vez mais ele próprio. Portanto a história continua, Ž só decidiu desaparecer no mundo, como o seu herói J. D. Salinger. Mas eu também não gostaria de escrever a história de Salinger contra o seu próprio silêncio. 
Uma banda de outro planeta ataca numa antiga igreja transformada em teatro, clube, bar. Eu achava que ia só ouvir jazz, mas em Belgrado nunca é tão simples. Eles têm um DJ, eles misturam Marvin Gaye com música iraniana, eles querem que a gente dance. E quando vou lá perguntar se já gravaram um disco dizem que não estão interessados, que é só pelo gozo de estarmos todos vivos, ao mesmo tempo, aqui. Coitado do Kusturica. Quem? »

Contos Jugoslavos




Os contos e lendas sérvias constituem um manancial do imenso legado, de longa tradição, de contos de origem eslava. Um deles é o conto do Sem Barba e o Rapaz:
«O pai manda o filho ao moinho com cereal para moer. Mas recomenda-lhe que se ao chegar ao primeiro moinho encontrar por lá o Sem Barba, nome porque é conhecido um burlão ardiloso, não deverá  entrar nesse moinho, e ir moer a outro moinho. Assim, quando chega ao primeiro moinho, vê o Sem Barba a moer o seu grão. Então o Rapaz vai procurar outro moinho. Mas quando o encontra, já já estava o Sem Barba a moer o seu grão. E a cena repete-se em mais uns tantos moinhos. Por fim o Sem Barba desafia o Rapaz para um jogo. Quem mentir melhor fica com o pão todo. As rábulas desfiam-se umas atrás das outras até que ao fim de um longo tempo por um bom troço de tempo até que o Rapaz conta a seguinte estória: "No sítio da cabeça ela não estava, apercebi-me de que me tinha esquecido dela. Voltei para trás a correr à procura da cabeça. Até que encontrei uma raposa; e reparei que ela estava a comer o meu cérebro. Esgueirei-me de mansinho por trás de uma moita, e dei-lhe um pontapé no traseiro. A raposa assustou-se e deu um grito. Ao fugir deixou cair um papel que dizia: "para o Rapaz pão, para o Sem Barba nada." O Rapaz recolheu o pão todo e voltou ao lar, onde o pai o esperava confiante na competência do Rapaz.»

 

sábado, 12 de dezembro de 2020

Les Contes de ma Mère, l'Oye - Charles Perrault




O Barba Azul é um conto popular, sendo a versão mais famosa a de Charles Perrault, publicada em 1695 nos Les Contes de ma mère l'Oye. É também o nome do personagem central da história. É nesta altura que aparecem os contos de fadas, muito em voga no século XVII. Paradoxalmente, mais para adultos de círculos burgueses e aristocráticos,  do que para crianças.

O autor escreve os contos inspirado nos contos folclóricos, e talvez também numa coleção italiana. Perrault terá sido, portanto, um dos primeiros colecionadores, embora não cite as suas fontes. O que Perrault faz é adoçar os contos folclóricos, enriquecendo as versões originais.

O personagem da história do Barba Azul é de um homem rico, cuja barba azul lhe dá uma aparência feia e medonha. Ele teve várias esposas no passado, mas nada se sabe o que lhes aconteceu. Ao pedir às mulheres vizinhas em casamento, elas tinham-lhe medo, pelo que rejeitavam. Mas há um dia em que uma dessas vizinhas aceita casar com ele, seduzida pela sua riqueza. Um mês depois das núpcias, ele diz à esposa que tem de viajar. Confia-lhe um conjunto de chaves que abriam todas as portas do castelo. Uma dessas chaves, é a chave de um armário, que ele lhe transmite com veemência estar proibida de lá entrar. Mas a curiosidade da mulher é irresistível. Entra na sala onde está o armário, abre o armário, e descobre os corpos das outras mulheres. Assustada, deixa cair a chave. Ao baixar-se para apanhar a chave vê-a manchada de sangue. Tenta limpar o sangue, mas o sangue não desaparece. A chave é mágica.

O Barba Azul volta de surpresa e descobre que foi desobedecido. Furioso, prepara-se para a degolar, o mesmo que tinha feito às anteriores. Mas ela, ao vê-lo de volta, e determinado a executá-la com uma faca da cozinha, implora-lhe que lhe dê algum tempo para fazer as suas orações antes de morrer. Sucede que os seus dois irmãos haviam marcado para esse dia fazer-lhe uma visita. Barba Azul concede-lhe então um quarto de hora. Enquanto isso, Anne, uma irmã que estava com ela, sobe a uma torre para ver se os irmãos estão a caminho. A irmã pergunta-lhe desesperadamente se os vê chegar. Anne responde repetidamente que vê apenas o sol e a erva verde. O Barba Azul determina que o tempo acabou e grita segurando-a pelos cabelos, no momento em que os irmãos chegam, a tempo de o poderem matar. Herdeira de toda a fortuna do marido, recompensa generosamente os irmãos. A Anne, trata de lhe proporcionar um bom casamento. E aos irmãos ajuda-os a subir nas carreiras de militar. E ela casa com um homem, que com grande honestidade a faz finalmente feliz.  

O Barba Azul acaba por ser uma variante do Ogre, uma criatura mitológica do folclore europeu. E é uma 'estorinha' que se cruza com a vida real. Por exemplo, Henrique VIII foi conotado com o Barba Azul. Teve seis mulheres, duas delas condenou-as à morte – Ana Bolena e Catherine Howard. E Gilles de Rais, companheiro de armas de Joana D’Arc, foi descrito como o "Barba Azul" em Nantes. Ele foi executado após condenação por ter assassinado várias mulheres após as ter violado, algumas delas ainda muito jovens. Independentemente das origens e das várias versões populares, o personagem “Barba Azul” inspirou muitos escritores, músicos e cineastas, inclusivamente com ligações a mitos muito antigos que remontam à Antiguidade, como por exemplo o mito da Caixa de Pandora, e teorias cabalísticas sortidas. Catherine Velay Vallantin dedica um capítulo do seu livro “A História dos Contos” ao conto do Barba Azul, que ela contrasta com duas canções tradicionais: Renaud, o assassino de mulheres; e La Maumariée ,vingada pelos seus irmãos. 
Catherine Velay Vallantin observa que em algumas variações italianas do conto, o Barba Azul come cadáveres. 


Desenhos de Gustave Doré [1832-1883], da edição de 1862 de Os Contos de Perrault



Ilustrações de Walter Crane [1845-1915], da edição de 1875 de Os Contos de Perrault



sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

No Castelo do Barba Azul - de George Steiner



«“Algumas notas para a redefinição da cultura”. O meu subtítulo alude evidentemente às Notas de 1948 de Eliot. 

O que fora um erro de cálculo, e acidente incontrolável, durante a Primeira Guerra Mundial, transformou-se em método durante a Segunda. 

A incapacidade das “Notes towards a definition of culture” de Eliot, para enfrentar o problema, ou sequer o referir, a não ser numa nota de rodapé insolitamente condescendente, é deveras inquietante. Como foi possível escrever-se um livro sobre a cultura, não dizendo uma palavra acerca de tudo isso. Como foi possível definir e defender uma ordem cristã, quando o Holocausto pusera em questão a própria natureza do cristianismo, e do seu papel na história da Europa? As ambiguidades de longa data presentes a propósito do tema do Judeu, na poesia e no pensamento de Elliot, talvez sejam a chave, mas nem por isso o nosso mal-estar diminui. 

Deveremos continuar? Será razoável aceitarmos que toda a civilização elevada se desenvolve em tensões implosivas e movimentos de autodestruição? Tenderá necessariamente um agregado de equilíbrio tão dedicado, ao mesmo tempo tão dinâmico e tão frágil, como o de uma cultura tão complexa, passe a um estado de instabilidade, e por fim, de explosão? O seu modelo seria então o de uma estrela depois de ter atingido uma massa crítica, uma equação crítica das trocas de energia entre a organização interna e a superfície irradiante, que desaba para dentro, projetando no preciso instante da destruição, esse grande fulgor visível que costumamos associar às grandes culturas na fase terminal? Será a fenomenologia do tédio, e do anseio pela dissolução violenta, uma constante na história das formas sociais e intelectuais, a partir do momento em que ultrapassam um certo limiar de complexidade? 

Mas houve também o mecanismo muito mais profundo da convicção entretecida intimamente nas fibras do Ocidente, pelo menos desde Atenas. Aqui a investigação intelectual deve prosseguir, quando se trata de um movimento natural e meritório em si mesmo, em que a relação do homem com a verdade é uma relação de persistência. Na busca do brado com que Sócrates assola os cães ao encurralar a presa, toda a nossa história abre as portas sucessivas do Castelo do Barba Azul. Cada uma delas leva à seguinte, mediante uma lógica de intensificação, em que o espírito toma consciência do seu próprio ser. 

De maneira ingénua, mais difícil de parafrasear, o andamento destas conferências tenta repetir por outros meios uma figura musical, um esboço de ar puro com ascendente, e de mergulho na orquestra, e acordarmos a respirar como se nos encontrássemos no Castelo do Barba Azul de Béla Bartók. À medida que o final se faz mais próximo, dir-se-ia que estamos no que se refere a uma teoria da cultura. Como a Judite de Bela Bartóck, quando pede para abrir a última porta para a noite, na ópera: “O Castelo do Barba Azul”, 1911. »
Um livro conciso e brilhante. Quatro ensaios que analisam a decadência da cultura clássica dominante. Um tour de force intelectual, que suscita uma grande inquietação. A sétima porta no Castelo do Barba Azul oferece-nos, na falência da esperança, a dignidade do que é audacioso. Em 1948, três anos após o final da guerra, Eliot publicava o seu "Notas para a definição da cultura", um apelo à ordem numa Europa ferida e despedaçada. Pouco mais de vinte anos depois, George Steiner escrevia as quatro conferências reunidas neste livro, cujo subtítulo indicava que, nesse meio tempo, algo havia mudado. Algo se perdera - a cultura clássica dominante, os seus ideais de transcendência, as suas utopias messiânicas - e, todavia, transformada em barbárie inumana. Vivemos uma "pós-cultura", afirma Steiner, uma era de realismo estoico e pessimismo cultural: "precisando do Inferno, aprendemos a construí-lo e administrá-lo na Terra". 

Francis George Steiner, [1929-2020] - Honoris Causa na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, em 2009, é considerado uma das grandes mentes do mundo literário do século XX. Steiner foi Professor de Literatura Inglesa e  Comparada na Universidade de Genebra (1974-1994); Professor de Literatura Comparada e Fellow na Universidade de Oxford (1994-1995); Professor de Poesia na Universidade de Harvard (2001-02). A carreira literária de Steiner durou meio século. Publicou ensaios e livros originais que abordam as anomalias da cultura ocidental contemporânea, questões da linguagem e sua "degradação" na era pós-Holocausto. O seu trabalho como crítico tendia a explorar questões culturais e filosóficas, particularmente lidando com a tradução e a natureza da linguagem e da literatura.
É considerado um herdeiro de Sócrates no século XX. Tendo nascido em Paris, em 1929, partindo com a família para Nova Iorque no início dos anos 40 para escapar ao nazismo. Estudou ciências em Chicago, tendo regressado à Europa para se doutorar em literatura aplicada, na Universidade de Oxford. Defensor de uma posição clássica face à pós-modernidade, Steiner tornou-se, com "As Antígonas" e, sobretudo, com "No Castelo de Barba Azul", uma referência na cultura ocidental, principalmente na Europa..

domingo, 6 de dezembro de 2020

Do progresso científico


A vacina contra a covid-19, produzida pela Pfizer em parceria com a BioNTech, é uma vacina que usa uma nova tecnologia: a do RNA mensageiro. É uma parte do código genético do vírus que apenas codifica a produção da proteína que faz parte da espícula do vírus que funciona como uma chave para entrar nas células de órgãos do nosso corpo, como é o caso dos pulmões. O progresso está no facto de esta sequência de três bases azotadas de RNA mensageiro que codificam a proteína da espícula do vírus ser sintética, ou seja, ser sintetizada em laboratório e não extraída do vírus natural.




Qualquer conceito/noção que tenhamos da natureza, compatível com o crescimento da ciência, é compatível com a noção evolutiva de ciência. Para isso precisamos de aprender a reconhecer como causas o que em geral temos considerado como efeito. Se pudermos fazer isso, então expressões de progresso científico, e mesmo de objetividade científica, poderão parecer redundantes.

Parte das nossas dificuldades, para perceber as diferenças profundas que separaram a ciência da tecnologia, devem estar relacionadas com o facto de “progresso” ser um atributo óbvio dos dois campos. Contudo, reconhecer que tendemos a considerar como científica, qualquer área de estudo que apresente um progresso marcante, ajuda-nos apenas a esclarecer, mas não a resolver a nossa dificuldade. Permanece ainda o problema de compreender porque terá de ser o “progresso” a característica mais notável de um empreendimento conduzido através do último grito da tecnologia.

Assim, ao ser injetado no nosso organismo esse RNA mensageiro viral, sintetizado artificialmente, e não extraído do próprio vírus, como era até aqui o padrão, ele vai dar instruções às nossas células para serem elas a produzir a tal proteína da espícula do vírus que funciona como uma chave. Ora, ao entrar na circulação sanguínea essa proteína vai desencadear imediatamente a produção de anticorpos por parte do sistema imunitário do organismo, que supostamente ainda não devia ter sido um hospedeiro do vírus natural. Anticorpos esses que vão estar prontos para atacar o vírus caso ele infete esse organismo. O nosso corpo está assim preparado, por antecipação, para não permitir que o vírus chegue sequer a entrar dentro das células do nosso corpo. Caso não tivéssemos esses anticorpos, o vírus teria o caminho livre para entrar dentro das células e aí multiplicar-se aos milhares. Depois, e sucessivamente, vai passando de célula para célula multiplicando-se aos milhões em pouco tempo. Milhares de novos vírus partem para entrar noutras células deixando para trás um rol de destruição celular. 

É verdade que o nosso organismo possui mecanismos genéricos, que quer dizer que não são específicos em relação ao agente invasor, e que fazem parte da linha da frente do nosso sistema imunitário, constituído por macrófagos e outras células linfoides. Os macrófagos atacam os invasores e disparam sinais de alarme para outras células de defesa. Mas a partir de uma determinada carga viral, esta barreira não é suficiente para conter a invasão do vírus. O organismo para continuar a ser capaz de se defender precisa da segunda linha constituída por anticorpos específicos, que sem contacto prévio numa ocasião anterior com o vírus, ou sem a vacina, não os vai ter. E é assim que o vírus ataca as células, e provoca a doença. Doença essa que pode ser fatal. 

O organismo precisa de algum tempo após a infeção para se defender naturalmente, e também de algum tempo após ser vacinado, para produzir os anticorpos em quantidade suficiente para ser eficaz. No caso de infeção natural pelo vírus, primeiro são as células dendríticas que começam o trabalho de fragmentação do vírus, para que os seus pedaços cheguem ao contacto com os linfócitos T, que por sua vez vão ativar os linfócitos B, a fim de produzirem os anticorpos. E só nesta altura, muitas vezes, infelizmente tarde demais, para o organismo ser capaz de derrotar o invasor. No caso da vacina a resposta é não apenas mais rápida, mas também mais eficaz do que o processo da imunidade por via da infeção natural pelo vírus.
Tomados como um grupo, os praticantes das ciências desenvolvidas são fundamentalmente indivíduos capazes de resolver quebra-cabeças. O desenvolvimento científico, também ao nível biológico, é um processo unidirecional irreversível. As teorias científicas mais recentes são melhores que as mais antigas, no que toca à resolução de quebra-cabeças em contextos que geralmente são sempre novos e diferentes de contextos anteriores. E assim surgem também novas teorias científicas consideradas superiores às suas predecessoras. Não são apenas os novos instrumentos que obviamente se demonstram mais adequados às novas tarefas. São também os novos artifícios conceptuais que conseguem desfazer os tais quebra-cabeças. E assim também de algum modo se vai tendo uma visão mais exata do que é realmente a Natureza. 

sábado, 5 de dezembro de 2020

Da evidência científica




A falta de evidencia científica de que a vacina da covid-19 seja eficaz em pessoas com mais de 75 anos de idade não é a mesma coisa que dizer que a vacina não é eficaz em pessoas com mais de 75 anos de idade. Cair nesse erro é cair numa ‘rampa deslizante’, que é um tipo de falácia argumentativa utilizada por aqueles a quem convém o argumento de que a vacina não é eficaz.

A realidade das coisas tal como elas são é problemática quando temos de a descrever por palavras enquadradas por conceitos. É ao nível da descrição que residem os problemas no que respeita à evidência da verdade. Fazemos as nossas representações do mundo, mas toda a estrutura daquilo que podemos conceber reside nas nossas representações.

Uma evidência científica é uma prova empírica de acordo com o método científico em vigor num dado momento histórico, a que Thomas Kuhn chamou paradigma. Os padrões de evidência científica variam de acordo com o campo da investigação. Por exemplo, a aparente falta de movimento da Terra pode ser tomada como evidência para uma cosmologia geocêntrica. No entanto, após a apresentação de evidências suficientes, e explicada a aparente falta de movimento, vingou a cosmologia heliocêntrica. Assim, o paradigma inicial foi descartado, e por essa via caiu por terra a evidência que anteriormente era apresentada.

Um método mais formal para caracterizar o efeito das crenças de fundo é a inferência bayesiana. Na inferência bayesiana, as crenças são expressas estatisticamente. Começa a partir de uma probabilidade inicial, e então atualiza essa probabilidade usando o teorema de Bayes, após a observação. Como resultado, dois observadores independentes do mesmo evento poderão chegar racionalmente a conclusões diferentes, se as observações anteriores forem ambas relevantes para a conclusão, ainda que diferentes. No entanto, é através de trocas de pontos de vista interpares, que por fim se pode chegar a uma conclusão consensual: Teorema do Acordo de Aumann.

A importância das crenças de fundo na determinação de quais observações são evidências pode ser ilustrada usando o raciocínio dedutivo. Este raciocínio é um pilar da Lógica: uma conclusão tem de ser verdadeira se derivar de premissas verdadeiras; se qualquer das proposições não for aceite como verdadeira, a conclusão também não será aceite como verdadeira. 




Karl Popper foi um filósofo que muito contribuiu com teorias para a evidência do método científico. Um cientista desenvolve criativamente uma teoria que pode ser falsificada se a testar com as evidências, ou os factos conhecidos. Uma teoria pode ser contestada se as evidências a contrariarem. Mas nenhuma evidência é definitiva para provar que uma teoria está certa, porque podem sempre aparecer novas evidências que a contrariem. Popper deu o exemplo dos cisnes. Durante muito tempo estava certa a teoria que dizia que todos os cisnes eram brancos, porque até aí nunca ninguém tinha visto um cisne de cor diferente. Mas um dia essa contestação chegou, porque afinal existiam cisnes pretos numa região do mundo que ninguém do resto do mundo tinha conhecimento.

A comunidade filosófica investigou os requisitos lógicos para a evidência científica por meio do exame da relação entre evidências e hipóteses, em contraste com abordagens científicas que se concentram nos factos candidatos e em seu contexto. E, efetivamente, há uma variedade de abordagens filosóficas para decidir se uma observação pode ser considerada evidência.

Um critério matemático para avaliação de evidências foi desenhado segundo a velha ideia da Navalha de Ockham: a descrição mais abrangente das evidências, e mais simples, é provavelmente a mais correta. O princípio ideal estabelece que a probabilidade anterior associada à hipótese deve ser dada pela probabilidade universal algorítmica. 
Testar hipóteses e teorias está no centro do processo da ciência. Essa crença filosófica no "teste de hipóteses" como essência da ciência é predominante entre cientistas e filósofos. É importante ressaltar que tal princípio não leva em conta todas as atividades ou objetivos científicos de todos os cientistas. Quando Geiger e Marsden espalharam partículas alfa através de uma folha de ouro muito fina, por exemplo, os dados resultantes permitiram que o seu conselheiro experimental, Ernest Rutherford, calculasse com muita precisão a massa e o tamanho de um núcleo atómico pela primeira vez. Nenhuma hipótese foi necessária. 

Embora a frase "prova científica" seja frequentemente usada, todavia, muitos cientistas têm argumentado que realmente não existe tal coisa. E Karl Popper foi dos primeiros a afirmar isso: "Nas ciências empíricas, que sozinhas podem nos fornecer informações sobre o mundo em que vivemos, as provas não ocorrem, se quisermos dizer por 'prova' um argumento que estabelece de uma vez por todas a verdade de uma teoria”. E Einstein chegou a afirmar: "A Natureza nunca diz 'sim' a uma teoria; nos casos mais favoráveis diz 'talvez'; e na grande maioria dos casos simplesmente diz 'não'."

Ferrugem – Um arranhão no determinismo




O ferro exposto ao oxigénio e à água forma ferrugem. A ferrugem é um exemplo de processo espontâneo e irreversível, pois para que o óxido de ferro, formado na ferrugem, volte a ser ferro metálico, é necessário realizar processos químicos de transformação do óxido de ferro em ferro metálico. Entropia (S) é uma medida da aleatoriedade ou desordem de um sistema.

Num sistema isolado, a energia total permanece constante. Esta é a primeira lei da Termodinâmica. No entanto, um comportamento peculiar da natureza vai exigir mais do que esta lei pode dar. Embora a conservação da energia ocorra em qualquer transformação, as transformações sempre acontecem num único e radical sentido: do passado para o presente e dirigindo-se ao futuro. Todos os fenómenos espontâneos e naturais são, portanto, irreversíveis.

Ao colocarmos em contacto dois corpos com temperaturas diferentes, a Primeira lei da Termodinâmica só nos permite concluir que o calor perdido por um dos corpos é recebido pelo outro, que flui sempre do corpo mais quente para o mais frio. Ao abrirmos a válvula do gás, o gás expande-se até preencher o ambiente. O processo inverso, em que o gás retornaria espontaneamente para o interior do recipiente, não violaria esta lei. Mas nunca se verifica um gás voltar para trás; ou uma chávena de café com leite voltar a separar o café do leite; ou uma gemada num copo voltar para trás e reconstituir o ovo. A resposta para tudo isto é dada pela Segunda Lei da Termodinâmica. A consequência mais importante dos trabalhos de Clausius foi a existência de uma nova função de estado associada a um estado de equilíbrio termodinâmico: a entropia. Uma transformação físico-química, por exemplo, pode conservar a energia sem permitir a reversibilidade. Assim, mantendo-se a ideia da conservação da energia enunciada no primeiro princípio, torna-se possível fazer variar um estado através da entropia.

A energia do universo é constante. A entropia do universo cresce na direção de um máximo. O crescimento da entropia designa, pois, a direção do futuro, quer no nível de um sistema local, quer no nível do universo como um todo. Nesse caso, a Segunda Lei da Termodinâmica permite uma distinção muito clara entre passado e futuro, sendo este, o sentido em que a entropia aumenta.

Ludwig Edvard Boltzmann, físico austríaco e atomista convicto, propôs uma interpretação da entropia em termos de movimento atómico, remetendo a questão para o campo da estatística e das probabilidades. Estabeleceu para um mesmo estado físico dois níveis possíveis de descrição: o primeiro, macroscópico, - é relativo a um estado em grande escala; o segundo - relativo ao estado em pequena escala - corresponde às propriedades dos átomos que compõem o sistema. Com efeito, estudando as relações entre os estados macro e microscópicos de um sistema termodinâmico, Boltzmann chegou à conclusão de que existe uma relação matemática e estatística entre a entropia de um estado macroscópico, e o número de estados microscópicos a ele associados. Portanto, a Segunda Lei da Termodinâmica não teria um caráter absoluto como o princípio de conservação da energia, ou das leis de Newton, mas um caráter meramente estatístico e de possibilidade. Nascia, assim, um terceiro enunciado para a Segunda Lei: “Em qualquer sistema físico a tendência natural é o crescimento da desordem; o restabelecimento da ordem só é possível mediante o dispêndio de energia”. A tendência natural é a entropia de um sistema ter de aumentar, e não de diminuir. Por conseguinte, o estado ordenado de um sistema, seja ele qual for, é sempre um estado muito particular, precário e transitório, estatisticamente pouco provável. O estabelecimento de aproximações, e tendências probabilísticas, constitui em um claro obstáculo no caminho dos anseios determinísticos.


sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

Indeterminismo com Contrato Social


A cada passo certos académicos conotados com o pós-modernismo nos anunciam que a ciência determinista da Idade Moderna - iniciada por Galileu e continuada por Newton, foi um paradigma robusto que para além de ter conseguido explicar muita coisa no domínio das ciências naturais, e que chegou a estender também os seus braços ao domínio das ciências sociais - findou. Filósofos respeitados, como Spinoza e Leibniz, chegaram a tentar convencer-nos que até as questões da ética e da moral poderiam ser aferidas com o mesmo rigor da geometria. Era uma tentação para as ciências exatas, que anteviam os eclipses ao minuto, antever os acontecimentos sociais com a mesma metodologia das ciências naturais.

O Indeterminismo, como conceção filosófica, é um postulado em que alguns acontecimentos não têm causas. Ou que as causas são não-lineares, acontecendo sem que se encontre uma explicação no estado do mundo que antecedeu um tal acontecimento. É de certa maneira o que defende a interpretação de Copenhaga da mecânica quântica, que na física veio substituir a paradigmática interpretação newtoniana. Na mecânica quântica de Werner Heisenberg - a impossibilidade de medir de forma precisa a trajetória de uma partícula subatômica por não se poder determinar com a mesma precisão a sua velocidade e a sua posição - deriva-se o Princípio da Incerteza. Este princípio levou ao questionamento das noções de espaço e movimento na física newtoniana. A mecânica quântica introduziu 
o conceito de aleatoriedade intrínseca ao comportamento das partículas elementares, e estabeleceu que o comportamento estatístico é intrínseco ao universo. A mecânica quântica se abstém, contudo, de definir se o universo é intrinsecamente indeterminístico ou determinístico. Essa noção básica define que certo efeito não possuir causa deriva do desconhecimento das verdadeiras causas.

Ilya Prigogine, com a sua visão da dinâmica alargada, parte de uma relação entre o passado que corre mais provavelmente para o equilíbrio, e o futuro mais propriamente histórico que está aberto, por estruturas dissipativas, a possibilidades de singularidades aleatórias. O ponto de bifurcação – conceito utilizado por Prigogine nas suas investigações científicas, dá início a um processo de ramificação de escolhas num sistema que é instável, longe do equilíbrio. Reforçando que a bifurcação é o ponto crítico por meio do qual um novo estado se torna possível na natureza. 

Rousseau, apesar de ser um filósofo do Iluminismo, era um iluminista que pensava, como se diz hoje, fora da caixa. Diferente da maioria dos iluministas, Rousseau alertou para os desastres que o progresso ia trazer para a humanidade. Foi o primeiro a reconhecer que as ciências naturais podiam ser perigosas justamente pelos efeitos secundários que produzem. Daí decorre o seu argumento do Contrato Social, 1762. Quais são ao certo os benefícios do Contrato Social?

A ideia de Contrato Social é a de que a sociedade assenta num acordo implícito que os seus membros estabelecem entre si. A vida em sociedade é um empreendimento cooperativo no qual cada um de nós obtém enormes benefícios, e em troca concordamos apoiar as instituições e as práticas que tornam possível esses benefícios. Podemos viver em paz, ter serviços de saúde, educação, economia, ter amigos, fazer desporto e assistir a espetáculos culturais. Os benefícios são infindáveis. Mas essas coisas boas só poderão existir se as pessoas cooperarem na preservação do sistema que lhes permite produzi-las. Pelo Contrato Social um Estado vincula os cidadãos às suas leis e ao usufruto da cidadania criadora e bens materiais e culturais. No caso de uma pessoa não concordar com as leis e a organização política do país de onde é natural, é sempre livre de sair e pedir asilo noutro país. Mas a bem dizer, na prática, esta questão coloca-se essencialmente a esse imigrante para ser cidadão no país de acolhimento. O nascimento num país é em regra a condição automática da cidadania. Mas noutro país estrangeiro a exigência pelo cumprimento das obrigações de cidadania são maiores. Para retirarmos do sistema social de um país os benefícios que ele nos dispõe, implica também da nossa parte obrigações de cidadania. É claro que existem sempre situações em que podermos não obedecer sem sermos ostracizados.

No início, Jean-Jacques Rousseau questiona por que o homem vive em sociedade e porque se priva da sua liberdade. Vê num rei o senhor e no seu povo o seu escravo. O interesse de um só homem será sempre um interesse privado. Os homens, para se conservarem, agregam-se para formar um conjunto de forças com objetivo único. No contrato social, os bens são protegidos através da união das pessoas em obediência a um único propósito. O pacto social é selado quando cada um de nós coloca a sua pessoa e a sua potência sob a direção suprema da vontade geral. Rousseau diz que a liberdade é inerente à lei livremente aceite: "Seguir o impulso de alguém é a escravidão; obedecer à lei autoimposta é a liberdade". Considera a liberdade um direito e um dever ao mesmo tempo. A liberdade pertence ao homem por inerência, e renunciar a ela é renunciar à própria qualidade de homem.

O Contrato Social, ao considerar que todos os homens nascem livres e iguais, encara o Estado como objeto de um contrato no qual os indivíduos não renunciam aos seus direitos naturais, pelo contrário, entram em acordo com um Estado de Direito que é criado para o preservar. O Estado é a unidade e, como tal, representa a vontade geral. Mas atenção, vontade geral não é o mesmo que a vontade de todos. Em Rousseau existem vários níveis de vontade: a vontade geral, que se trata da vontade do corpo formado por toda a comunidade política (por todos os cidadãos); a vontade particular de um indivíduo ou de um grupo formado apenas por uma pequena parcela dos indivíduos da sociedade; e a vontade de todos, que é a soma de todas as vontades particulares e que não deve ser confundida com a vontade geral. A vontade geral apenas pode ser estabelecida por uma comunidade política legítima, dentro de uma República. Quando o povo institui uma lei de alcance geral, forma-se uma relação. A matéria e a vontade que fazem o estatuto são gerais, e a isso Rousseau chama lei. A República é todo o Estado regido por leis. Mesmo a Monarquia pode ser uma República. O povo submetido às leis deve ser o autor delas. Mas o povo não sabe criar leis, é preciso um legislador. Rousseau admite que é uma tarefa difícil encontrar um bom legislador. Um legislador deve fazer as leis de acordo com a vontade do povo.

Mas é em Karl Marx que vamos identificar uma verdadeira ciência da sociedade. Se a tecnologia havia encontrado a solução de seus problemas através das ciências físicas e da sua capacidade de conhecer os mecanismos da natureza para poder controlá-la, o que faltava no século XIX era o aparecimento de uma ciência da sociedade que pudesse assegurar o controlo da sociedade pelas pessoas que a compunham. A partir da teoria marxista, as análises sociológicas divergem em dois grupos distintos e rivais: os comunistas e os liberais. Três representantes importantes da sociologia liberal do século XIX: August Comte (1798-1857), Herbert Spencer (1820-1903) e Émile Durkheim (1858-1917). 
Comte acreditava que a partir de um novo método baseado na ciência positiva, que substituísse as antigas interpretações religiosas e filosóficas, seria fácil alcançar um ordenamento perfeito da sociedade. Além de dogmática e reacionária a sociologia de Comte era uma aplicação grosseira das ciências físicas ao campo social. Spencer, como fiel defensor do capitalismo liberal, pega na sociologia de Comte e reformula-a, fornecendo-lhe novas bases, a partir de conhecimentos biológicos, com a suposta lei do aumento contínuo e necessário da complexidade e diferenciação no mundo. Durkheim preconizava o estudo dos fenómenos sociais como se fossem fenómenos naturais, reduzindo os factos sociais às suas dimensões externas, observáveis e mensuráveis. Uma verdadeira obsessão pela medida e pelas estatísticas, marcará as ciências sociais do século XIX. 

Apesar de a vertente mecanicista ter predominado, bem como a ideia de que as ciências sociais nasceram para ser empíricas, pensamento que prevaleceu ao longo de todo século XIX e parte do século XX, uma
 nova realidade exigia uma revisão dos excessos deterministas. Nas décadas de 1920 e sobretudo de 1930, mudanças fundamentais ocorreram tanto na maneira de considerar as formas constitutivas da criação intelectual. Mudanças que vão resultar em novas conceções que rejeitam a antiga historiografia. É recolocada noutros patamares a questão da subjetividade e da objetividade do conhecimento científico. Esta nova conceção de ciência social caracteriza-se numa postura antipositivista assente na tradição filosófica da fenomenologia. São necessárias metodologias e epistemologias diferentes daquelas utilizadas nas ciências naturais, métodos qualitativos que possam conduzir a um conhecimento intersubjetivo, descritivo e compreensivo, em lugar de um conhecimento objetivo, quantitativo e explicativo. 

Na década de 1980, constata-se uma mudança no panorama das tendências e ensaios no campo da teoria e da pesquisa social em seu conjunto, incluída a historiografia em todas as suas variações. À época das grandes propostas paradigmáticas, como as do marxismo e dos Annales, que se estendeu até à década de 1980, sucedeu a fase da crise dos paradigmas e da busca de novas formas de investigação e de expressão. Assim, ao se encerrar o séc. XX, a grande linha de desenvolvimento que fez da história um inegável êxito cognitivo ao longo de mais de cinquenta anos, parece ter sofrido uma forte inflexão, da qual resultou a história-ensaio. Era preciso fortalecer o multiculturalismo e o respeito pela diversidade de outros saberes,. E eram precisas teorias críticas à ciência mecanicista em seu formato universal e mercantilista. O desafio consistia na humanização da ciência e da tecnologia.  

Tanto no mito grego de Prometeu como no mito hebraico da Queda, a civilização inicia-se a partir de um ato de desobediência. Desobediência que nos remete para o caminho da liberdade e, como consequência, para os atributos da responsabilidade e do risco. E o primeiro deles é aquele que o próprio mito coloca: a possibilidade para o bem e o mal. A possibilidade para dispor da natureza como objeto, como serva e escrava obediente. E assim nasceram a ciência e tecnologia da era moderna. Mas não esqueçamos que são construções humanas que, como quaisquer outras, carregam consigo os mesmos vícios e virtudes daqueles que as criaram. O imaginário mítico ultrapassa o tempo e as fronteiras culturais para criar outras metáforas: a tecnologia a agredir o ambiente; o ambiente a aquecer globalmente por via dela; o aquecimento global a gerar miséria, fome e doença. O prenúncio de uma esperada destruição da vida na Terra. 

Não podíamos creditar à ciência moderna o status de via única de acesso ao conhecimento. Não era correto transferir para os cientistas o privilégio de únicos detentores da capacidade de conhecer a verdade do mundo. Não era seguro entregar à racionalidade o pelouro do pensamento rigoroso, em detrimento da intuição e do sentimento, as ancestrais fontes da sabedoria. Foi a este autoritarismo da ciência/razão que o movimento pós-moderno das disciplinas humanísticas e sociais se relevaram, contrapondo uma desobediência com uma nova ciência. 
Uma ciência que entende a importância e a abrangência da linguagem matemática, mas que, justamente por isso, compreende que ela não consegue dar conta de fenómenos que ultrapassam os seus limites. Uma ciência que desconfia sistematicamente dos seus dogmas de neutralidade e objetividade. Uma ciência que, reconhecendo a forte presença de interesses políticos e de mercado envolvidos na aparência de neutralidade da produção do conhecimento, coloca a ética e a prudência como centro das suas pesquisas, recorrendo sempre ao princípio da precaução e ao respeito aos apelos de outros olhares. Uma ciência que não quer ser reconhecida e admirada, apenas pelos feitos das suas inovações tecnológicas, e pela infinidade de recursos que disponibiliza ao mercado, mas pelo crescimento da qualidade de vida do planeta e das espécies, e pelo engrandecimento das potencialidades naturais dos homens quando afastados dos socorros tecnológicos. 

Apesar desses e muitos outros motivos para desacreditarmos do futuro, Prigogine fez questão de chamar a atenção para as ciências da complexidade. O futuro não é dado, não está determinado como algo inexorável. O futuro está em construção e todos nós podemos participar no processo e criação de uma nova ciência. Uma ciência que não se pretende pautar pelo uso fácil da tecnologia, mas que se faz presente no mundo da vida, tornando-se parte do conhecimento comum dos povos; que quer fazer parte da comunidade de sentidos, compartilhando o diálogo com outras formas de linguagem e expressões humanas (ética, estética, sentimento, espiritualidade). Uma ciência que, reconhecendo as desigualdades sociais, também reconhece que os seus esforços de pesquisa devem ser orientados no sentido de contribuir com a emancipação social dos povos. Enfim, uma ciência que, reconhecendo os limites da sua racionalidade, consegue, finalmente, reencontrar e dialogar com o bom senso, sem desqualificá-lo nem abandoná-lo à sua própria sorte. 

Os sinais que esta pandemia nos estão a dar vão para além da crise ambiental, que antes da covid-19 era o maior atractor dos média. É o anúncio do fim do determinismo e de uma nova forma de fazer ciência. É a ciência com paredes de vidro a escancarar aos olhos do mundo as suas próprias idiossincrasias. O exemplo das vacinas está a ser paradigmático. Segundo o dogma, uma nova vacina levaria 15 anos a ser inoculada no corpo das pessoas em geral. Pois tudo leva a crer que vão começar a ser vacinadas daqui a dias milhares ou milões de pessoas em todo o mundo ao mesmo tempo, antes de ter passado um ano após o conhecimento dos primeiros casos da covid-19 em Wuhan, na China.

terça-feira, 1 de dezembro de 2020

A genialidade dos vintes anos




Quatro filósofos: Benedito de Espinosa [1632 – 1677 = 44 anos]; David Hume [1711 – 1776 = 65 anos]; Charles Sanders Peirce [1839 – 1914 = 74 anos]; Saul Aaron Kripke [1940 – = 80 anos]

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Espinosa:

Tinha apenas 23 anos quando a Sinagoga Portuguesa de Amesterdão o puniu com o cherém, o equivalente hebraico da excomunhão católica, pelos seus postulados a respeito de Deus em sua obra, defendendo que Deus é o mecanismo imanente da natureza, e que a Bíblia era uma obra metafórica-alegórica, logo, a sua leitura não podia ser literal, nem podia exprimir a verdade de Deus.
Os Senhores do Mahamad [Conselho da Sinagoga] fazem saber a VV. Exas: como há dias que tendo notícia das más opiniões e obras de Baruch de Spinoza procuraram, por diferentes caminhos e promessas, retirá-lo de seus maus caminhos, e não podendo remediá-lo, antes pelo contrário, tendo cada dia maiores notícias das horrendas heresias que cometia e ensinava, e das monstruosas ações que praticava, tendo disto muitas testemunhas fidedignas que deporão e testemunharão tudo em presença do dito Spinoza, coisas de que ele ficou convencido, o qual tudo examinado em presença dos senhores Hahamim [conselheiros], deliberaram com o seu parecer que o dito Spinoza seja heremizado [excluído] e afastado da nação de Israel como de facto o heremizaram com o Herem [anátema] seguinte:

Com a sentença dos Anjos e dos Santos, com o consentimento do Deus Bendito e com o consentimento de toda esta Congregação, diante destes santos Livros, nós heremizamos, expulsamos, amaldiçoamos e esconjuramos Baruch de Spinoza [...] Maldito seja de dia e maldito seja de noite, maldito seja em seu deitar, maldito seja em seu levantar, maldito seja em seu sair, e maldito seja em seu entrar [...] E que Adonai [Soberano Senhor] apague o seu nome de sob os céus, e que Adonai o afaste, para sua desgraça, de todas as tribos de Israel, com todas as maldições do firmamento escritas no Livro desta Lei. E vós, os dedicados a Adonai, que Deus vos conserve todos vivos. Advertindo que ninguém lhe pode falar pela boca nem por escrito, nem conceder nenhum favor, nem debaixo do mesmo teto estar com ele, nem a uma distância de menos de quatro Côvados, nem ler Papel algum feito ou escrito por ele.
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David Hume:

Órfão de pai quando contava apenas 2 anos, o pequeno David Hume e seus dois irmãos ficaram sob os cuidados exclusivos de sua mãe. Como revelava certa precocidade intelectual, Hume foi enviado para a Universidade de Edimburgo antes dos doze anos de idade. A família de Hume tinha expectativas de que o jovem seguisse a carreira jurídica, mas, em suas próprias palavras, ele mesmo sentia "aversão intransponível a tudo, exceto ao caminho da filosofia e do conhecimento em geral; e enquanto a minha família achava que eu estava a perscrutar Voet e Vinnius, Cícero e Virgílio eram os autores que secretamente devorava".

Seguindo os seus próprios interesses, Hume dedicou-se à leitura de obras literárias, filosóficas e históricas, bem como ao estudo de matemática e ciências naturais. Aos dezoito anos, após um intenso programa de estudo autoimposto, pareceu-lhe que se descortinava um “Novo Cenário de Pensamento”. Bem, o excessivo esforço intelectual levou-o às raias de um colapso mental. Após esse episódio de fadiga cerebral, Hume decidiu procurar um estilo de vida mais ativo no mundo do comércio, e empregou-se numa companhia importadora de açúcar em Bristol. É por essa época que altera a grafia de seu nome, de "Home" para "Hume", devido à dificuldade dos ingleses de pronunciá-lo à maneira escocesa. A experiência no ramo do comércio não durou muito, e, com 23 anos, buscando a tranquilidade e o isolamento que julgava necessários para prosseguir nas suas investigações, parte para a França e se estabelece em la Flèche, uma pequena cidade francesa mais conhecida por abrigar um famoso colégio jesuíta. "Resolvi compensar a carência de recursos com uma frugalidade bastante rígida, a fim de manter incólume a minha independência, e considerar todos os objetos desprezíveis, exceto os avanços dos meus talentos na literatura.” Durante esse período na França, Hume aprofunda os seus conhecimentos sobre a filosofia francesa, e aos 26 anos, grande parte de sua obra-prima - Tratado da Natureza Humana -, fica escrita.

Em 1737, com 26 anos, Hume regressa à Inglaterra e trabalha diligentemente para publicar o seu livro. Em 1739, consegue publicar os dois primeiros volumes do seu Tratado, e em 1740 é publicado o terceiro e último volume. Apesar de ser hoje considerado a sua principal obra e um dos livros mais importantes da História da Filosofia, o Tratado não causou impressão à época da sua publicação. Hume tinha esperado um ataque às ideias apresentadas no livro e preparava uma defesa apaixonada. Para sua surpresa, a publicação do livro passou quase despercebida; e, recordando a indiferença do público, Hume escreveu que "nenhuma tentativa literária foi mais desafortunada do que o meu Tratado da Natureza Humana". Diante da reclamação de que o livro era "abstrato e ininteligível", Hume recorreu ao artifício, ainda em 1740, de publicar uma sinopse anónima na qual apresentava de forma mais clara e direta algumas das ideias fundamentais do Tratado. No entanto, embora já permitisse antever os elegantes argumentos da Investigação sobre o Entendimento Humano, a sinopse de pouco serviu para mudar a consideração geral em relação ao Tratado. Em 1742 é publicada em Edimburgo a primeira parte dos seus Ensaios Morais, Políticos e Literários, que mereceram considerável atenção do público e, segundo o próprio Hume, fizeram-no esquecer a deceção provocada pelo Tratado.

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Charles Sanders Peirce:

Era filho de Sarah Hunt Mills e Benjamin Peirce, ele mesmo um professor de astronomia e matemática na Universidade de Harvard. Aos 12 anos, Charles leu os "Elementos da Lógica", de Richard Wately, de uma cópia que o seu irmão mais velho tinha, então o principal texto em inglês sobre o assunto. Assim começou o seu fascínio ao longo da vida pela lógica e raciocínio. Com 24 anos de idade, em Harvard, a Lawrence Scientific School concedeu-lhe um bacharelato em Ciências, o primeiro diploma de Química summa cum laude de Harvard.

Nas suas pesquisas Peirce trabalhou principalmente em geodésia e gravimetria, refinando o uso de pêndulos para determinar pequenas variações locais na gravidade da Terra. Em 1867, com 27 anos, é eleito membro residente da Academia Americana de Artes e Ciências. De 1869 a 1872, trabalhou como assistente no observatório astronómico de Harvard, fazendo um importante trabalho na determinação do brilho das estrelas e da forma da Via Láctea. Em 20 de abril de 1877 é eleito membro da Academia Nacional de Ciências. 
Em 1879, Peirce foi nomeado professor de lógica na Universidade John Hopkins, que tinha departamentos fortes nas áreas da filosofia. Durante a década de 1880, a indiferença de Peirce com os detalhes burocráticos levou a que a qualidade das suas pesquisas diminuísse.
 
Brent documenta algo que Peirce nunca suspeitou, ou seja, que os seus esforços para obter emprego académico, subsídios e respeitabilidade científica foram repetidamente frustrados pela oposição secreta de um grande cientista canadense-americano da época, Simon Newcomb. Os esforços de Peirce também podem ter sido dificultados pelo que Brent caracteriza como "a sua personalidade difícil". Em contraste, Keith Devlin acredita que o trabalho de Peirce estava muito à frente do seu tempo para ser apreciado pela ortodoxia académica da época. Isso terá desempenhado um grande papel na sua incapacidade para a obtenção de uma posição de titularidade.

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Saul Aaron Kripke:

O seu brilhantismo intelectual tornou-se patente desde muito cedo, tendo conseguido publicar, com apenas 18 anos, um artigo original de lógica no exigente e respeitadíssimo Journal of Symbolic Logic. Dos três livros publicados ate hoje, O Nomear e a Necessidade é o mais importante, com lugar reservado entre as principais obras da filosofia do século XX. Um clássico da filosofia contemporânea, traduzido em meia centena de línguas, não é mais do que as três palestras proferidas sem qualquer suporte escrito, em 1970 com 29 anos, na Universidade de Princeton. A publicação em livro, anos mais tarde, resultou das gravações então realizadas. 


Publicado numa altura em que praticamente já ninguém ligava à metafisica, provocou em alguns estupefação, e deixou muitos filósofos furiosos pelo seu regresso à metafisica. Mas os seus contributos não se limitam apenas à lógica e à metafísica, mas também à filosofia da mente e da linguagem. E até à epistemologia. 

E a verdade é que é hoje considerado o grande reabilitador dessas áreas da filosofia, que exceção feita à filosofia da mente, se encontravam em declínio nos meios académicos de filosofia nos países de língua inglesa. Um dos outos livros é sobre o argumento da Linguagem Privada de Wittgenstein. Toda a sua obra é considerada a última palavra argumentativa contra as teorias descritivistas do significado e da referência dos nomes próprios com origem em Frege e Russel. E na epistemologia, foram decisivos os seus desafios às ideias feitas de Kant: que todas as verdades a posteriori são contingentes.

Kripke foi tido desde muito novo como um menino prodígio. Aos 6 anos de idade já era um autodidata do hebraico antigo. Aos 9 anos leu as obras completas de Shakespeare. E antes de finalizar o secundário já dominava as ideias de Descartes e problemas matemáticos complexos. Aos 17 anos escreveu o seu primeiro teorema de completude em lógica modal. Aos 18 anos entra na Universidade de Harvard onde termina um bacharelato em matemática summa cum laude em 1962, com 22 anos.

Kripke mais tarde disse: "Eu gostaria de ter faltado às aulas na Universidade. Conheci pessoas interessantes, e não digo que não tenha aprendido nada, mas provavelmente teria aprendido tudo de qualquer maneira por mim próprio. Depois de lecionar brevemente em Harvard, em 1968 Kripke mudou-se para a Universidade de Rockefeller, em Nova York, onde lecionou até 1976. Em 1978, foi lecionar para a Universidade de Princeton. Em 1988 recebeu o Prémio Behrman dessa universidade por importantes contributos na área das humanidades. E continua vivo, por aí ... com 80 anos feitos no dia 13 de novembro passado.