quarta-feira, 12 de março de 2025

De Javé a Jesus, e a parceria entre evangélicos e judeus na América


 Javé, tal como é descrito no Livro, é o protótipo mais acabado de um Deus feito personagem à imagem do homem. Javé, como descrito nos textos bíblicos, especialmente no Antigo Testamento, carrega traços profundamente antropomórficos, o que o aproxima da humanidade em seus dilemas, paixões e decisões. Ele é frequentemente representado com emoções humanas, como ira, ciúme, arrependimento e compaixão, além de agir de forma intervencionista na história do povo de Israel. Essa humanização não difere muito da dos gregos antigos com os seus deuses e as suas hierarquias. A diferença está no monoteísmo. Tal é o reflexo do contexto histórico e cultural. Nos tempos antigos, os deuses frequentemente eram moldados segundo as características humanas para torná-los compreensíveis e relacionáveis às comunidades que os adoravam. Em Javé, vemos um reflexo não apenas das virtudes idealizadas, mas também dos medos e conflitos da sociedade que o cultuava.

No entanto, Javé transcende a dimensão de um simples "personagem humano". Sua personalidade é complexa, e a sua representação ao longo do Antigo Testamento evolui, indo de um Deus guerreiro e ciumento a um Deus de justiça e misericórdia, à medida que os conceitos teológicos e éticos da tradição judaica também amadurecem. Javé é um espelho do homem projetado num nível divino. Isso é religião. A religião projeta as aspirações e limitações humanas numa entidade divina. Mais tarde Jesus encarna essa humanidade no papel de filho, mas num golpe de teatro à moda de Freud invertido, em que o filho morre porque quis matar o pai ao querer romper com o que vinha de trás. E tanto rompeu que prenunciou o que ainda hoje ecoa, em que os cristãos acusam os judeus de deicidas.

Esta é a visão de uma dinâmica profunda entre tradição e ruptura, carregada de simbolismo psicanalítico e teológico. De facto, Jesus encarna a humanidade de maneira radical, mas não como uma mera projeção, e sim como o humano pleno que desafia a própria tradição religiosa de que é herdeiro, tal como o mito freudiano do "pai primitivo" no "Totem e Tabu". Jesus, com o seu impulso de matar simbolicamente o Pai (Javé), morrendo, é potente. No cristianismo, a morte de Jesus pode ser lida como um rompimento decisivo com a Lei mosaica e o Javé vingativo e exclusivo, uma tentativa de instituir um novo paradigma baseado no amor, na misericórdia e na inclusão. Mas, ao mesmo tempo, há uma ironia trágica: essa tentativa de transcendência foi rapidamente reabsorvida pelas mesmas estruturas de poder e dogma que ele pretendia superar.

A acusação histórica de "deicídio" feita aos judeus revela essa tensão entre ruptura e continuidade. Se Jesus era o Filho que buscava transcender o Pai, seu sacrifício foi interpretado como um ato que, em vez de libertar, acabou alimentando o ressentimento e a divisão. É como se a mensagem revolucionária de Jesus tivesse sido distorcida, e a ruptura que ele desejava produzir. O Filho morre porque tenta matar simbolicamente o Pai, mas o Pai sobrevive na forma de um Deus cristão remodelado e, paradoxalmente, ainda mais universalista. Isso ecoa o processo psicanalítico de sublimação: o desejo de superar o Pai é transformado em algo maior, mas carregado de ambivalência e culpa, projetada sobre os judeus como "assassinos de Deus".

O declínio do cristianismo em suas terras de origem, a Europa - em contraste com o seu florescimento em outras partes do mundo sob formas reformadas e muitas vezes adaptadas, parece ilustrar a capacidade do cristianismo de se reinventar enquanto enfrenta a sua própria "morte" cultural e geográfica. O Cristianismo na Europa, especialmente o cristianismo romano, parece cada vez mais incapaz de responder aos desafios do secularismo, do relativismo e da perda de sentido espiritual. É como se ele estivesse preso num ciclo de decadência, semelhante ao próprio Império Romano no qual nasceu. Em contraste, nas Américas, na África e na Ásia, o cristianismo renasce como um movimento dinâmico, mas reformado, muitas vezes sob formas pentecostais, evangélicas ou mesmo como variantes híbridas com elementos das culturas locais. Esse "morrer e renascer" espelha o próprio drama cristão da paixão e ressurreição. O cristianismo romano, enraizado na tradição, parece estar a viver o seu Gólgota histórico na Europa – onde o racionalismo iluminista e a modernidade científica corroeram a sua autoridade. Já fora do eixo europeu, ele surge como algo novo, adaptado às sensibilidades e necessidades das populações locais, onde as formas reformadas se apresentam menos institucionalizadas e mais emotivas, oferecendo respostas mais diretas às aspirações individuais e coletivas.

Aqui há uma ironia histórica: o cristianismo, que rompeu com o judaísmo para se tornar universal, agora vê a sua forma "romana" morrer em favor de versões reformadas e descentralizadas. É como se o movimento de ruptura iniciado por Jesus nunca tivesse realmente cessado, continuando a se desdobrar em novas formas, muitas vezes contra as estruturas estabelecidas. Verifica-se uma reconfiguração religiosa global, onde diferentes tradições competem num campo de forças que mistura religião, política e geopolítica, que é o caso da religião islâmica. O islamismo, especialmente em sua forma sunita, está em ascensão na Europa, impulsionado pela imigração, altas taxas de natalidade entre comunidades muçulmanas e um vazio espiritual deixado pelo declínio do cristianismo tradicional. Ao contrário do cristianismo romano, que perdeu parte de sua vitalidade e capacidade de atrair novos adeptos, o islamismo na Europa oferece uma identidade forte e um sentido comunitário que muitas vezes falta nas sociedades europeias pós-cristãs. Há, claro, tensões culturais e políticas nesse processo, com o islamismo sendo visto, por alguns, como uma força desestabilizadora da identidade europeia secular e cristã.

Os evangélicos, especialmente nos Estados Unidos, veem o retorno dos judeus à Terra de Israel como um cumprimento profético, essencial para o desenrolar do apocalipse cristão e a segunda vinda de Cristo. Os judeus, por sua vez, reconhecem essa aliança como uma oportunidade para garantir apoio político, financeiro e militar dos EUA, especialmente em um contexto global onde Israel enfrenta desafios crescentes no Médio Oriente. Essa parceria é, no entanto, ambivalente. Muitos judeus ortodoxos e seculares olham com desconfiança para a agenda teológica evangélica, que implica uma eventual conversão dos judeus ao cristianismo no "fim dos tempos". Ainda assim, essa aliança é mantida porque atende a interesses mútuos no curto e médio prazo, tanto em termos de sobrevivência política quanto de influência religiosa. A ascensão do islamismo, o declínio europeu do cristianismo, a aliança entre judeus e evangélicos – parecem parte de um realinhamento global onde a religião ainda desempenha um papel central, mesmo num mundo supostamente secularizado.

Existe um entrelaçamento intrincado entre religião, poder político e identidade civilizacional. Parece que as bases religiosas ainda exercem uma influência poderosa sobre as disputas contemporâneas, mesmo em contextos que se autodenominam seculares. A figura de Vladimir Putin, nesse sentido, é emblemática de como líderes modernos instrumentalizam a religião para fortalecer o seu poder e consolidar alianças internas. A aliança de Putin com a Igreja Ortodoxa Russa é estratégica e simbólica. Ela serve para reforçar a narrativa de uma Rússia como bastião da "tradição cristã" e da "moralidade", em oposição ao que ele denuncia como decadência cultural do Ocidente liberal. Esse alinhamento religioso é um pilar do seu projeto político, mas também limita a sua margem de manobra em relação a outras religiões – especialmente o islamismo, que possui uma presença significativa em várias regiões da Rússia, e o judaísmo, que historicamente enfrentou hostilidade no país.

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