sábado, 29 de março de 2025

Os hiperativos - de Trump a Marcelo


Do rótulo de populista Trump não se livra. É capaz de dizer uma coisa e o seu contrário caso seja conveniente. Trump é um populista clássico, no sentido de que molda o seu discurso conforme as reações do seu eleitorado e privilegia a conexão emocional com as massas em vez da coerência ideológica. Ele não é guiado por uma doutrina coerente, mas pelos seus interesses imediatos e pelo que gera mais impacto no seu eleitorado. O discurso é simplista e polarizador: Divide a sociedade entre "o povo bom" e "a elite corrupta", colocando-se como o único capaz de salvar os EUA. Despreza as instituições: Ataca os média, tribunais e até aliados políticos quando não seguem as suas determinações. Comunica-se diretamente com os eleitores, evitando a imprensa. O que o torna um populista peculiar é não defender um Estado forte e intervencionista. Seu populismo é de direita, com foco em nacionalismo, protecionismo económico e rejeição às elites políticas tradicionais. No fundo, ele é um político movido pelo pragmatismo eleitoral e pelo desejo constante de manter a sua base de apoio. A coerência ideológica nunca foi sua prioridade.

Mas também não se pode considerar Trump um fascista, epíteto que se banalizou nas redes sociais. O termo fascista banalizou-se a tal ponto que hoje é usado como insulto genérico contra qualquer figura política de direita ou conservadora, esvaziando o seu significado histórico real. Trump pode ser autoritário, populista, nacionalista e até desrespeitoso para os princípios democráticos, mas não encaixa na definição clássica de fascismo, que envolve elementos como o culto ao Estado totalitário – Trump, ao contrário dos regimes fascistas históricos, não propõe um Estado forte que controle todas as esferas da sociedade. Pelo contrário, muitas vezes adota uma retórica anti-Estado. Fascistas clássicos, como Mussolini e Hitler, apostavam na guerra e na conquista territorial. Trump, apesar de beligerante na retórica, não simpatiza com conflitos armados. O fascismo tradicional defendia um modelo económico em que o Estado regulava fortemente a economia. Trump, por outro lado, promove políticas neoliberais e de desregulação. O que Trump representa é algo mais próximo do populismo autoritário que se vê em outras figuras da política moderna, como Orbán na Hungria ou Erdogan na Turquia. Ele desafia normas democráticas e mobiliza as massas contra instituições, mas não tem um projeto totalitário como os verdadeiros regimes fascistas tiveram.

Marcelo Rebelo de Sousa, presidente de Portugal, é considerado um hiperativo. Não dorme mais de quatro horas por noite. O Presidente pode ser hiperativo, excessivamente mediático e, por vezes, dar sinais de querer agradar a toda a gente, mas daí a classificá-lo como um autoritário ou repressor vai uma grande distância. A crítica extrema vem de setores que ou não gostam da sua forma de estar na política ou estão desiludidos com ele por razões ideológicas. Muitos dos que o apoiaram no início agora o atacam, o que é típico da política. Mas acusá-lo de algo tão grave e fora da realidade só demonstra como o discurso político em Portugal (e no mundo) anda cada vez mais inflamado e menos rigoroso.

Clinicamente, a hiperatividade é um dos principais sintomas do Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), mas pode também estar presente em outros quadros, como ansiedade ou transtornos do humor. Uma pessoa hiperativa tende a apresentar agitação motora constante – dificuldade em permanecer parada, mexendo-se excessivamente, mesmo quando isso não é apropriado.
Fala excessivamente, tendência a falar sem parar, interromper conversas ou responder antes do tempo. Dificuldade em esperar – impaciência com filas, processos demorados ou tarefas prolongadas. Impulsividade – tomada de decisões precipitadas, sem considerar as consequências.

Mas no caso de Marcelo Rebelo de Sousa, a hiperatividade parece mais um traço de personalidade do que um diagnóstico clínico. Ele é incansável na atividade política, está sempre em movimento e participa de inúmeros eventos, o que pode dar essa impressão. Mas, sem uma avaliação médica, não dá para afirmar que ele tem um transtorno neurológico. Ele pode simplesmente ter um alto nível de energia e necessidade de estímulo constante, algo comum em personalidades altamente engajadas na vida pública.

Há algumas semelhanças superficiais entre Marcelo Rebelo de Sousa e Donald Trump no que toca à hiperatividade mediática, e ao gosto pela exposição pública, mas as diferenças de fundo são muito mais marcantes. Ambos parecem precisar do palco público e estão sempre presentes nos meios de comunicação. Mas sim, tanto Marcelo quanto Trump são conhecidos por dormirem pouco e manterem uma atividade intensa. Tendem a falar de improviso e a surpreender com declarações inesperadas. Mas fora isso, há todo um rio de diferenças. Marcelo é conciliador e busca consensos, enquanto Trump aposta no conflito e na polarização. Marcelo é um liberal moderado, enquanto Trump representa uma direita populista e nacionalista. Marcelo é um intelectual, com enorme cultura geral e análise minuciosa dos temas; Trump é mais intuitivo e pragmático, muitas vezes desprezando leituras aprofundadas. E no que diz respeito pelas instituições, Marcelo joga dentro das regras democráticas e respeita a Constituição; Trump já tentou desafiar o sistema institucional, como se viu na invasão do Capitólio. Ou seja, Marcelo é hiperativo, mas dentro de um modelo democrático tradicional, enquanto Trump usa a sua hiperatividade para desafiar normas políticas e sociais.

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