domingo, 30 de março de 2025

O problema da percepção segundo os vários pontos de vista


Há uma ideia de que a realidade não é uma coisa pronta a captar, porque a natureza da nossa captação da realidade, que se costuma designar por percepção, não é aquilo que parece. A realidade tal como nós pensamos que é, segundo esse ponto de vista, não é algo diretamente acessível, mas algo interpretado. Por exemplo, mesmo que os números mostrem que a criminalidade geral está estável ou em declínio, se houver episódios isolados de grande impacto emocional envolvendo imigrantes, amplificados pela rede mediática, a percepção será moldada dessa maneira e não pela abstração dos números. Em termos gerais, é aquilo a que Husserl referia por intencionalidade - entendida como "consciência virada para alguma coisa". Essa ideia é central na fenomenologia de Husserl e refere-se ao facto de que toda a consciência é sempre consciência de alguma coisa.

Por outras palavras - podemos dizer que intencionalidade é a expressão que caracteriza a consciência de estar sempre direcionada para um objeto, seja ele físico, imaginário, conceptual ou emocional. Não se trata de intenção no sentido comum de "desejar" ou "querer algo", mas sim de um vínculo estrutural entre a consciência e o objeto ao qual ela se refere. Quando olhamos para uma árvore, a nossa consciência está direcionada para a árvore. A árvore é o objeto intencional. Quando sentimos medo, esse medo está dirigido a algo que percebemos como uma ameaça, mesmo que não seja tangível.

Husserl explorou como aquilo a que chamamos objetos da consciência não terão necessariamente uma existência concreta no mundo tal e qual como a percepcionamos. O que percepcionamos Husserl chamou-lhe fenómeno. Ou seja, como as coisas nos aparecem na consciência são essas coisas na forma de fenómeno. E não as próprias coisas. Assim, a intencionalidade também está ligada à forma como experienciamos o mundo, dentro da clássica relação entre sujeito e objeto. Para Husserl, tanto o objetivismo dos físicos como o subjetivismo transcendental, para o qual ele também contribuiu, não passavam de uma racionalidade europeia defeituosa, e que ele queria, se não corrigir em definitivo, pelo menos mitigar. 
Husserl via tanto o objetivismo dos físicos como o subjetivismo transcendental sintomas de uma doença da racionalidade europeia. Essas duas correntes representavam, para ele, os extremos de uma razão que havia perdido a verdadeira essência da experiência humana. O subjetivismo transcendental, que faz parte da filosofia idealista alemã, especialmente em Kant e seus seguidores, ao se concentrar exclusivamente na estrutura da consciência e em como ela constrói o mundo, isola a experiência do mundo real. A tentativa de Husserl superar esse limite foi, em parte, a "fenomenologia eidética" capaz de captar não apenas os objetos externos, mas a maneira como estes se apresentam à consciência, sem cair num subjetivismo extremo.

Já em 1927, Julien Benda, com a "Traição dos Intelectuais", se dirigia ao "engagement" dos intelectuais nos radicalismos e fundamentalismos das revoluções. "A Traição dos Intelectuais" (La Trahison des Clercs) de Julien Benda, publicado em 1927, é uma obra crítica que denuncia o envolvimento dos intelectuais com movimentos políticos radicais, particularmente com o "engagement" que se tornou prevalente nas décadas que antecederam e seguiram a Primeira Guerra Mundial. Benda acusava os intelectuais de se desviarem de sua verdadeira missão, que, segundo ele, deveria ser a busca pela verdade e pelo bem universal, não a adesão a ideologias parciais extremistas.  A obra surge no contexto de intensas transformações políticas, especialmente com o crescimento do nacionalismo, do socialismo e do fascismo, bem como a ascensão do comunismo soviético. Benda via esses movimentos como antitéticos ao que ele considerava o papel ético dos intelectuais na sociedade. Para ele, a "traição" dos intelectuais estava no facto de eles abandonarem a sua vocação moral e universalista em favor de causas que visavam interesses particulares, muitas vezes desconsiderando a objetividade e a busca pela verdade impessoal. Benda criticava a ideia de "engagement", um conceito que, naquele momento, estava sendo cada vez mais defendido por intelectuais de várias tendências políticas, como o marxismo e o nacionalismo, que acreditavam que a função do intelectual era se engajar diretamente nas lutas políticas e sociais. Ele via isso como um desvio perigoso, pois os intelectuais estavam, em sua visão, sacrificando sua função crítica e reflexiva em nome de um ativismo ideológico que poderia levar à radicalização e à manipulação das massas.

Hannah Arendt na obra "A Condição Humana", discute a "atividade do gosto" como uma das formas de manifestação do juízo estético que, por sua vez, tem implicações para a atividade política. Ela considera a capacidade de fazer juízos estéticos e expressar o gosto como algo profundamente relacionado à liberdade e à participação na vida pública, temas centrais em sua filosofia política. Em sua análise, Arendt vê a atividade do gosto não apenas como uma questão de apreciação estética, mas como uma forma de julgamento compartilhado, um espaço em que as pessoas podem interagir, expressar opiniões e tomar decisões em conjunto. Isso se liga diretamente com a sua visão da atividade política como algo que depende da interação e do discurso entre os cidadãos. Para Arendt, a política não é apenas uma atividade que visa o poder ou a gestão dos assuntos públicos; ela envolve a ação e o discurso que ocorrem no espaço público, onde as pessoas se exprimem e se relacionam com os outros, em liberdade e igualdade.

A chave da filosofia política de Arendt é o conceito de espaço público e da ação política, que só é possível dentro de uma pluralidade de vozes e perspectivas. Para ela, a política verdadeira ocorre quando as pessoas se reúnem no espaço público e dialogam livremente, sem a imposição de uma visão universal ou totalitária. Esse diálogo entre pares não é um simples consenso, mas uma forma de deliberação que respeita a pluralidade de perspectivas. Em uma democracia verdadeira, as pessoas têm a liberdade de apresentar as suas opiniões, mas essas opiniões são sempre sujeitas ao escrutínio e à crítica pública. O gosto ou os juízos estéticos, embora subjetivos, têm um impacto direto no campo político, pois eles formam o substrato cultural sobre o qual as normas sociais, políticas e morais se baseiam. Por exemplo, a maneira como uma sociedade aprecia a arte, ou como ela entende o que é justo ou correto, influencia diretamente o modo de vida coletivo e as decisões políticas que são tomadas.

Nos escritos de Alfred Schutz, a noção de mundividência na vida quotidiana é essencial para entender como os indivíduos experimentam e constroem a realidade social. Schutz aprofundou o estudo da consciência e da maneira como a vida quotidiana se organiza em torno de significados que os indivíduos compartilham num mundo intersubjetivo. Schutz argumenta que a vida quotidiana é o cenário fundamental onde os indivíduos encontram a realidade de forma mais imediata. É o mundo-da-vida (Lebenswelt), que serve como pano de fundo para todas as outras experiências e contextos. Essa realidade é tomada como garantida, ou seja, as pessoas não questionam constantemente as estruturas subjacentes que tornam as suas ações e interações possíveis.

Uma das principais contribuições de Schutz é a ideia de que a realidade social é construída através da intersubjetividade. Isso significa que a compreensão do mundo depende de significados compartilhados que os indivíduos constroem juntos. O mundo quotidiano é, portanto, uma realidade comum que é sustentada por meio da interação e da comunicação entre as pessoas. Schutz explora como a mundividência se apresenta em diferentes níveis e camadas. Por exemplo, há distinções entre o mundo familiar do "aqui e agora" (o presente imediato e direto) e outras esferas da realidade, como a ciência, a arte ou a religião, que exigem um afastamento da realidade quotidiana. O mundo quotidiano, para Schutz, é caracterizado por ser o plano de base que permite a transição para outras realidades mais abstratas. No mundo-da-vida, as percepções de tempo e espaço não seguem necessariamente os conceitos científicos ou objetivos; elas são moldadas pela experiência subjetiva e pela contextualização social. Schutz diferencia a "atitude natural", que é a forma como normalmente experimentamos a vida quotidiana sem questioná-la, da "suspensão fenomenológica", que é uma reflexão mais profunda e consciente sobre essas experiências. A atitude natural implica que os indivíduos agem e interagem de acordo com normas e expectativas implícitas, enquanto a suspensão fenomenológica permite examinar essas normas e o próprio processo de construção de sentido. Em resumo, Schutz nos ajuda a entender que a vida cotidiana não é um plano superficial da existência, mas um espaço profundo onde os significados sociais são construídos e sustentados. A mundividência é o palco em que os indivíduos interpretam e atuam de acordo com as regras e expectativas que tornam a vida social possível. O estudo dessa mundividência revela as estruturas implícitas que formam a base da experiência intersubjetiva, destacando a complexidade e a riqueza da vida social quotidiana.

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