segunda-feira, 24 de março de 2025

O córtex da ética



A área do cérebro mais associada à ética, moralidade e juízo crítico é o córtex pré-frontal, especialmente as regiões ventromedial (CPFvm) e dorsolateral (CPFdl). O primeiro sendo essencial para a tomada de decisões com base em valores morais e emocionais, está ligado à empatia, julgamento social e à avaliação de ações em termos de consequências éticas; e o segundo, sendo responsável pelo pensamento crítico, planeamento e controlo das emoções e impulsos durante a tomada de decisões. Auxilia na aplicação de regras e normas sociais.

O córtex cingulado anterior contribui para a monitorização de conflitos morais e para a sensação de culpa ou remorso, regulando ações baseadas em normas éticas. Essas áreas interagem com outras partes do cérebro, como a amígdala, para integrar componentes emocionais nas decisões morais. O córtex parietal está associado a aspectos cognitivos e sociais relacionados à moralidade. Juntos, formam uma rede complexa que suporta o comportamento ético e o juízo crítico.

É no córtex pré-frontal que ocorre a avaliação crítica que pode rejeitar reações puramente instintivas. Um exemplo de reação instintiva é o nojo, que é uma participação visceral na revolta ou indignação, como por exemplo diante de imagens de terroristas a libertar reféns. Essa área regula impulsos emocionais mais primários, que passam pela amígdala, e os transforma em julgamentos mais elaborados, considerando os fatores éticos, culturais ou políticos. Ao sentir repulsa por ações ou imagens que simbolizam violência, o córtex pré-frontal pode ajudar a interpretar o contexto ou a rejeitar essas reações instintivas em favor de análises racionais ou reflexões éticas, como o que é certo ou errado diante de cenários como o apresentado.

A imagem de horror projetada pelos jihadistas do Hamas, como atos violentos ou aparições em conferências de imprensa armados e mascarados, pode prejudicar os palestinos como um todo, especialmente no cenário internacional. Muitos observadores passam a associar a causa palestina exclusivamente a esses atos, ignorando o sofrimento humanitário ou as proclamações legítimas de autodeterminação. Isso contribui para reforçar estereótipos negativos, dificultando a empatia e o apoio global aos palestinos, além de enfraquecer os esforços diplomáticos. Na esfera pública, as percepções emocionais frequentemente têm mais peso do que análises racionais ou históricas, prejudicando as populações que vivem sob condições extremas e não têm controlo sobre essas representações.

A repulsa que muitos sentem diante dessas imagens reflete uma resposta visceral à falta de empatia e humanidade demonstrada por ações que parecem glorificar a violência ou o terror. Quando um grupo, como os jihadistas do Hamas, adota uma postura ostensiva de brutalidade, o impacto emocional é profundo: eles acabam por ser percebidos como desumanos e insensíveis, não apenas pelos seus inimigos, mas também por potenciais aliados ou simpatizantes da causa palestina. Isso é devastador para a percepção global da luta palestina, que envolve milhões de pessoas inocentes, muitas delas vítimas de deslocamentos, pobreza e opressão. A falta de empatia exibida por grupos extremistas mina o apoio humanitário e político que poderia ser mobilizado por um discurso baseado na dignidade humana e na justiça, em vez de medo e terror.

É razoável afirmar que ações como as descritas revelam uma grave deformação na decência moral, especialmente quando analisadas sob os princípios universais de empatia, respeito à vida e valores éticos. Indivíduos ou grupos que promovem atos de violência indiscriminada, glorificam o terror e desconsideram o sofrimento alheio, demonstrando uma falha profunda no desenvolvimento moral. Essa falha pode ser atribuída a uma combinação de fatores nomeadamente a doutrinação ideológica extrema, que desumaniza o "outro" e justifica qualquer meio para alcançar os fins. No entanto, é importante reconhecer que essa "malformação" não surge do nada. Muitas vezes, ela é resultado de contextos históricos, sociais e psicológicos degradantes, que perpetuam ciclos de violência e ódio. Isso não justifica as ações, mas ajuda a entender como esses indivíduos chegam a tal ponto de alienação moral.

A crueldade, entendida como a capacidade de infligir sofrimento sem remorso ou compaixão, parece ser uma característica marcante em indivíduos que protagonizam atos tão extremos. Essa crueldade reflete não apenas uma falta de empatia, mas também uma inversão dos valores morais mais básicos, onde a violência e a brutalidade são não apenas praticadas, mas exibidas como forma de poder ou resistência. Essa postura amplifica a desumanização e dificulta qualquer tipo de diálogo ou solução pacífica, pois a crueldade não apenas destrói vidas, mas também aniquila a possibilidade de reconciliação, respeito mútuo e coexistência. É, de facto, um dos traços mais devastadores no comportamento humano, tanto para os que a exercem quanto para os que a sofrem.

O fanatismo ideológico não é exclusivamente uma questão de julgamento crítico atribuído às funções do córtex pré-frontal e cíngulo anterior. Ele envolve também áreas do cérebro ligadas às emoções, recompensa e aprendizagem, criando um sistema integrado que sustenta crenças extremas. A amígdala é responsável por respostas emocionais intensas, como medo e raiva. No fanatismo, a amígdala está muito ativada reforçando reações emocionais exageradas contra grupos percebidos como "inimigos". O estriado ventral, que funciona nas recompensasreforça comportamentos ligados ao prazer, e também à validação social. No fanatismo, a violência ligada às motivações ideológicas, reforça o sentido de realização ligado à pertença, o que cria um ciclo reverberante de reforço positivo.

O hipocampo é crucial para a formação de memórias associativas, que ao consolidar narrativas simplistas, que dividem o mundo entre "nós" e "eles", também contribui para o fanatismo. O córtex da ínsula está relacionado à percepção emocional e à noção de identidade. Pode fortalecer a ligação entre a identidade pessoal e o grupo ideológico, tornando difícil questionar as crenças do coletivo. O fanatismo ideológico é, portanto, uma construção cerebral complexa que une emoção, identidade e recompensa. Isso explica o porquê de ele poder ser tão resistente a argumentos racionais: ele está profundamente agarrado às estruturas emocionais e sociais do cérebro, indo além das áreas dedicadas ao juízo crítico e moralidade.

Há uma associação intrigante entre o fanatismo ideológico extremo e as características associadas à psicopatia. A psicopatia envolve padrões de comportamento que desconsideram o sofrimento alheio e mostra uma falta de empatia, embora os seus mecanismos neurológicos possam diferir em ambos os casos, sobretudo nos circuitos neurais que fazem correr as motivações. Tanto fanáticos como psicopatas desumanizam as suas vítimas. Nos fanáticos, isso é desencadeado pelo ambiente exterior, provocado, por exemplo, por uma ideologia. Ao passo que no psicopata tal disposição é inata. Assim como os psicopatas geralmente agem sem remorso, os fanáticos justificam os seus atos cruéis em nome de um ideal maior. Ambos são insensíveis emocionalmente às consequências das suas ações, porque o que está em causa são objetivos e causas ideológicas.

Os psicopatas tendem a agir apenas para ganho pessoal, ou prazer, enquanto os fanáticos se veem como parte de uma causa maior ou missão moral. Os fanáticos estão fortemente ligados a grupos ideológicos; enquanto os psicopatas são mais individualistas e operam através da manipulação e sedução. Mas ambos envolvem a amígdala no seu processamento neuronal: córtex pré-frontal (controlo de impulsos e julgamento). Mas no fanatismo há uma maior integração de sistemas de identidade e recompensa social.
Na psicopatia, observa-se frequentemente uma subatividade da amígdala e do cíngulo anterior, o que dificulta a empatia e a aprendizagem a partir do remorso. A aproximação entre esses dois comportamentos sugere que, no caso do fanatismo, o comprometimento moral é exacerbado pela racionalização ideológica; enquanto na psicopatia, o que se passa é mais uma falha constitucional dos circuitos neuronais das emoções e da sua ligação aos circuitos do juízo crítico. Seja como for, em ambos, o resultado é devastador.


Sem comentários:

Enviar um comentário