quinta-feira, 24 de setembro de 2020

Vida de rico: Húbris e Némesis




Rico...mas pouco - Jean-Jaques-Rousseau defendeu que nenhum cidadão devia ser tão rico ao ponto de poder ser capaz de comprar o pobre. E ninguém devia ser tão pobre assim, ao ponto de ter de se vender ao rico. Deste ponto de vista, uma sociedade em que, devido às desigualdades, uns acabarem por ficar nas mãos de outros, é uma sociedade que não pode ser justa, porque nem sequer é formada por cidadãos verdadeiramente livres. Em situação de pobreza, os muito pobres não são livres para escolher o que fazer devido à falta de condições para isso. Para se ser livre é preciso ter as condições adequadas para que as escolhas possam ser genuínas. 

Bem, infelizmente uns vendem-se caro, outros vendem-se barato, mas a impressão que fica é a de que há em Portugal demasiada gente habituada a subornar, e outros demasiadamente dispostos a vender-se; ambas as partes com o mesmo fito: abrir um caminho rápido para subir na vida e ser rico, não pelo trabalho, e muito menos por uma vida honesta e honrada.

O que torna o luxo tão irresistivelmente atrativo? O luxo é irresistível porque satisfaz a vaidade e transmite um sentimento de superioridade e segurança que, não sendo reais, todavia conforta quem se deixa iludir. A vaidade constitui uma motivação imbatível. Para isso é preciso exibir sinais de riqueza até mesmo quando esta não é real e não passa de uma aparência. O problema é quem se serve de meios ilícitos para ter uma vida de luxo ostensiva.

Há diferenças significativas, no que diz respeito à corrupção, entre os povos do Sul da Europa Católico,  e os do Norte Protestante. São culturas muito diferentes, no que concerne à moral e à vida cívica, a que o acontecimento histórico da Reforma no Norte, e da Inquisição no Sul, no Cristianismo Europeu, não são alheios. O protestantismo é a todos os títulos mais exigente do que o catolicismo, cujos crentes têm sempre, mediante o confesso e o arrependimento, a salvação. As Democracias do Sul da Europa padecem todas do mesmo mal: uma corrupção endémica infiltrada em todo o corpo social, não poupando a oligarquia governativa.

Húbris - era o termo dos gregos clássicos para significar a vaidade com arrogância e insolência. Portanto, uma vida desmedida com todo o tipo de excessos.

A húbris, concebida pelos gregos dos tempos mitológicos, que determinava a moral, constituía uma infração desviante da mesura, da moderação e da sobriedade. Esses valores eram a medida de todas as coisas que tinham a ver com a moral. Nada devia ser em demasia: antes pouco, mas bom, do que muito, mas estragado. O homem devia estar ciente da sua pequenez perante os deuses e o cosmos. Devia ter a noção do seu lugar no universo. Eram essas conceções que depois governavam a polis de uma sociedade hierarquizada e meritocrática.

A húbris é um tema mitológico comum nas tragédias gregas, e no pensamento pré-socrático. As transgressões eram castigadas pelos deuses, não necessariamente implicando um desfecho trágico. 
Como nessa antiguidade os deuses brincavam, mas não brincavam em serviço, quando assim era, tinham um remédio chamado Némesis, a deusa da vingança que castigava. Na mitologia grega Némesis representa a força encarregada de abater toda a desmesura (húbris), como o excesso de felicidade de um mortal ou o orgulho dos reis. Essa é uma conceção fundamental do espírito helénico. Uma das vítimas foi Narciso, demasiado vaidoso para pouco amor às jovens desprezadas. Elas pediram vingança a Némesis, que as ouviu e causou um forte calor. Após uma caçada, Narciso debruçou-se sobre uma fonte para matar a sede. Nela viu o seu belo rosto e, apaixonado por sua própria beleza, definhou até à morte pelo amor impossível. Um festival chamado Nemeseia (às vezes identificado como Genesia) ocorria em Atenas. O seu objetivo era neutralizar o inimigo dos mortos, que teria o poder de punir os vivos, caso seu culto tivesse sido de alguma forma negligenciado. 

Na Teogonia de Hesíodo, as diferentes raças de homens (de bronze, de ferro) sucedem-se, enquanto as anteriores são condenadas pela sua húbris. De ceto modo, a infração de Agamémnon na Ilíada, está relacionada com a húbris, por ter despojado Aquiles da parte da pilhagem que lhe deveria corresponder por justiça. Não é o acerto de contas por erros cometidos, como aquela frase “cá se fazem cá se pagam”. Nem é o destino de cada um dado pelos deuses. O homem que comete húbris é culpável por desejar mais do que lhe foi concedido pelo destino. Era esse o castigo da húbris - a Némesis - O castigo dos deuses para a húbris consistia em fazer com que o transgressor regredisse até ao ponto de partida. “Némesis” tem também o sentido de justiça distributiva. A riqueza e a felicidade obtida ilegitimamente era retirada, para que fosse redistribuída de forma mais justa. Portanto, a seguir a uma vida vivida com uma felicidade obscena e imerecida, vinha a Némesis para repor as coisas no seu devido lugar. Subjaz a ideia de um mundo que deve obedecer a uma lei de harmonia e de virtude, segundo a qual o bem e o mal devem estar distribuídos em igual medida.

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