quinta-feira, 26 de setembro de 2024

Como está a Síria hoje?

 



A Síria, apesar de no momento atual parecer estar adormecida, é outro exemplo de grande confusão geopolítica. Como está hoje distribuído o território pela disputa entre as várias forças? A situação territorial da Síria é complexa, refletindo a guerra civil que começou em 2011. Embora a intensidade do conflito tenha diminuído, o país continua fragmentado, com várias forças controlando diferentes partes do território. A guerra envolveu o governo de Bashar al-Assad, grupos rebeldes, jihadistas, curdos, e potências externas, como a Rússia, os EUA, Turquia e Irão.

O Governo Sírio (Bashar al-Assad) – controla a maior parte do território sírio, incluindo: Damasco, a capital. As principais cidades do Oeste e Sul, como Alepo, Homs, Hama e Latakia. A região costeira (Mediterrâneo), que é estratégica para o regime, pois abriga a base naval russa em Tartus. A maior parte do Sul e Centro da Síria, incluindo a cidade de Deir ez-Zor, perto do rio Eufrates. Com o apoio militar direto da Rússia e do Irão, Assad reconquistou grande parte do país que estava em mãos de rebeldes e do dito Estado Islâmico. 

No Nordeste da Síria - as Forças Democráticas Sírias, e a milícia curda das Unidades de Proteção Popular (YPG) controlam a maior parte da região curda, conhecida como Rojava, e as cidades de Hasakah, Qamishli, e boa parte da região rica em petróleo no Nordeste, ao longo do rio Eufrates. Essas forças tiveram o apoio militar dos Estados Unidos na luta contra o Estado Islâmico (ISIS), mas estão sob pressão devido às operações militares da Turquia, que considera o YPG uma extensão do PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão), um grupo que luta pela autonomia curda na Turquia.





No Noroeste da Síria - ao longo da fronteira com a Turquia, há territórios controlados por milícias rebeldes sírias apoiadas pela Turquia, incluindo o Exército Nacional Sírio (SNA). A Turquia controla partes de Idlib, Afrin, e áreas perto das cidades de Azaz e Jarabulus. As forças turcas lançaram várias operações militares para criar uma "zona de segurança" ao longo da sua fronteira, evitando a expansão das forças curdas e combatendo remanescentes do ISIS.

A província de Idlib, no Noroeste, é o último grande bastião da oposição ao regime de Assad e é dominada pelo grupo Hayat Tahrir al-Sham (HTS), uma fação jihadista com ligações anteriores à Al-Qaeda. Apesar dos cessares fogos mediadas por Turquia e Rússia, há combates esporádicos entre o governo e os jihadistas. A Turquia também mantém uma presença militar em Idlib para evitar uma ofensiva total do governo sírio, o que poderia desencadear um novo êxodo de refugiados.

Embora o Estado Islâmico (ISIS) tenha perdido quase todo o seu território em 2019, ele ainda mantém células ativas em áreas desérticas no Leste e Sul da Síria, especialmente nas regiões perto de Palmira e Deir ez-Zor. O grupo realiza ataques esporádicos contra forças do governo sírio e curdas.

A Rússia é a principal aliada do governo sírio, com bases militares em Tartus e Hmeimim. Realiza bombardeamentos aéreos e tem tropas no terreno. O Irão e o Hezbollah apoiam o regime de Assad com forças terrestres e milícias. O Hezbollah, baseado no Líbano, é um aliado crucial no campo de batalha. Os Estados Unidos mantêm uma presença limitada no Nordeste da Síria, apoiando os curdos e garantindo a segurança das áreas ricas em petróleo. Também monitorizam e combatem as células remanescentes do ISIS. A Turquia está diretamente envolvida no conflito no Norte da Síria, realizando operações militares contra as forças curdas e, ocasionalmente, contra o regime sírio.

Em resumo, a Síria continua dividida em blocos de influência, com o governo de Assad mantendo o controlo sobre a maior parte do território, mas com regiões significativas ainda sob controlo de curdos, rebeldes apoiados pela Turquia e grupos jihadistas. As intervenções externas e a complexidade das alianças tornam qualquer resolução política duradoura difícil. Durante o combate ao Estado Islâmico (ISIS), várias alianças complexas se formaram e mudaram ao longo do tempo, envolvendo atores locais, regionais e internacionais com interesses diferentes, o que tornou as dinâmicas extremamente voláteis.

A divisão entre sunitas e xiitas


A divisão entre sunitas e xiitas é uma das principais fontes de tensão no Médio Oriente, complicando as alianças e relações entre países da região, especialmente no Golfo Pérsico. Essa divisão remonta a um cisma no Islão no século VII, logo após a morte do Profeta Maomé, e continua a influenciar profundamente a política, conflitos e alianças regionais. Sunitas representam a maioria dos muçulmanos, aproximadamente 85-90% da população islâmica global. Acreditam que o sucessor legítimo de Maomé deveria ser escolhido entre seus companheiros (califas), e não necessariamente alguém de sua linhagem. Xiitas são uma minoria, concentrada no Irão, Iraque, e partes do Líbano, Síria e Bahrein. Eles acreditam que o sucessor legítimo de Maomé deveria ser Ali, seu primo e genro, e seus descendentes, formando uma linha de imãs que têm autoridade religiosa.

Essa divisão sectária se entrelaça com disputas políticas, económicas e territoriais, transformando o Médio Oriente em um campo de rivalidades entre países sunitas e xiitas. Arábia Saudita (Sunita): Como o principal país sunita e guardião das cidades sagradas do Islão – Meca e Medina – a Arábia Saudita se considera o líder do mundo islâmico sunita. Irão (Xiita): Após a Revolução Islâmica de 1979, o Irão xiita assumiu um papel de liderança no mundo xiita, promovendo uma ideologia de resistência contra o imperialismo ocidental e tentando exportar a sua revolução para outros países de maioria xiita.

Essa rivalidade regional entre os dois países tem repercussões profundas em vários conflitos no Médio Oriente onde ambos apoiam fações opostas. Síria: O Irão apoia o governo de Bashar al-Assad, um alauita aliado dos xiitas. Enquanto a Arábia Saudita apoiou grupos rebeldes sunitas. Iémen: A Arábia Saudita está envolvida diretamente na guerra contra os rebeldes houthis (xiitas) no Iémen, que são apoiados pelo Irão. Líbano: O Irão apoia o Hezbollah, uma poderosa milícia xiita no Líbano, enquanto a Arábia Saudita apoia fações sunitas dentro da política libanesa.

Bahrein: É um exemplo clássico da tensão entre xiitas e sunitas. O Bahrein tem uma população xiita maioritária, mas é governado por uma monarquia sunita, apoiada pela Arábia Saudita. Durante os protestos da Primavera Árabe em 2011, a Arábia Saudita enviou tropas para o Bahrein para ajudar o governo a reprimir os protestos da maioria xiita, temendo que o Irão pudesse influenciar o movimento.

Iraque: Após a invasão dos EUA em 2003 e a queda de Saddam Hussein, um sunita, o Iraque passou por um processo com cada vez mais xiitas a fazerem parte do poder, com o poder a ser transferido para a maioria no Iraque que é xiita. Isso levou a conflitos sectários, com insurgências sunitas como o surgimento do ISIS (Estado Islâmico), um grupo extremista sunita, combatendo o governo xiita apoiado pelo Irão.

Embora o Qatar seja um país de maioria sunita, ele mantém uma política externa independente. Mas o Qatar tem uma história pregressa de conflitos com a Arábia Saudita. O Qatar tem estabelecido maiores laços de proximidade com o Irão, e compartilha um campo de gás com ele. Além disso mantém diálogo com grupos islâmicos como a Irmandade Muçulmana, que a Arábia Saudita considera uma ameaça. Esse desentendimento levou ao bloqueio diplomático de 2017, quando a Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos, Bahrein e o Egito cortaram laços com o Qatar, acusando-o de apoiar o terrorismo e se alinhar ao Irão.

O Hezbollah, apoiado pelo Irão, é uma poderosa milícia xiita que exerce enorme influência política e militar no Líbano. A Arábia Saudita, por outro lado, apoia fações sunitas no país e tenta limitar a influência iraniana por meio de alianças com políticos libaneses. Além do mais protagoniza sanções contra o Hezbollah.

A Turquia, embora sunita e tradicionalmente alinhada ao bloco sunita, também segue uma política externa independente, sem que , contudo, não consiga evitar as tensões geradas com países do Golfo. O apoio turco à Irmandade Muçulmana, bem como a sua intervenção na Síria e na Líbia, complicou as relações com a Arábia Saudita e com os Emirados Árabes Unidos.

Omã: Adota uma postura neutra e mantém boas relações tanto com o Irão como com os países sunitas. É frequentemente visto como um mediador nas tensões regionais. E o Kuwait, apesar de ser sunita, mantém relações relativamente equilibradas com o Irão, principalmente devido à sua própria minoria xiita e às preocupações com a estabilidade regional.

Não é fácil saber a fundo o Médio Oriente

 


O Médio Oriente é muito confuso quando queremos saber quem apoia quem, quem são os inimigos, as fações de conveniência, as famílias árabes. Por exemplo, quem foi Abdul-Aziz Al Saud [1875 – 1953], também conhecido como Ibn Saud? Ele foi o fundador e primeiro rei da Arábia Saudita, uma figura central na história moderna do Médio Oriente, responsável pela unificação das várias tribos e regiões da Península Arábica no início do século XX, estabelecendo o Reino da Arábia Saudita em 1932.

Abdul-Aziz Al Saud pertencia à dinastia Al Saud, que teve várias fases de poder e declínio antes de sua ascensão. A família Saud já havia governado partes da Arábia no século XVIII e XIX, mas havia sido expulsa pelos rivais. Abdul-Aziz conseguiu unificar a região do Négede (sua terra natal) com o Hejaz (onde ficam as cidades sagradas de Meca e Medina) e outras áreas adjacentes, consolidando um reino vasto e rico em petróleo. 

O Négede, literalmente "serra", "terra alta", é a região central da Península Arábica. Corresponde a um planalto com elevações entre 762 e 1525 m acima do nível do mar. A porção oriental da região é habitada por beduínos. A cidade mais importante da região do Négede é Riade, capital da Arábia Saudita.


Região do Négede

Abdul-Aziz Al Saud construiu a sua base de poder em torno de alianças com tribos locais e, decididamente, com a seita ultraconservadora do islamismo wahhabita. Essa aliança entre a família Saud e os wahhabitas continua bem consolidada na Arábia Saudita de hoje. Durante e após a Primeira Guerra Mundial, Abdul-Aziz manteve relações pragmáticas com o Império Britânico. Embora a Grã-Bretanha inicialmente apoiasse a família Hashemita, seus rivais em Meca, Abdul-Aziz acabou por obter apoio e reconhecimento britânico em troca de garantia da estabilidade na região e o acesso ao petróleo. 



Hussein bin Ali al-Hashimi, 1917

Segundo a Casa Real da Jordânia, Hashem (Hashim ibn Abd Manaf), avô do profeta Maomé, é o grande ancestral dos Hashemitas, que posteriormente viriam a dar origem a uma dinastia de líderes na região do Hejaz, na costa do mar Vermelho. Ali bin Hussein bin Ali al-Hashimi [1879 – 1935], foi rei do Hejaz e Grande Sharif de Meca de outubro de 1924 até ser deposto por Ibn Saud em dezembro de 1925. Ele era o filho mais velho do rei Hussein bin Ali. Com a passagem da realeza do seu pai, ele também se tornou o herdeiro do título de califa, mas não adotou o cargo e o estilo de califa.



Abdul-Aziz Al Saud teve muitos filhos, e sua linhagem continua a governar a Arábia Saudita. A crise financeira, causada pelos gastos extravagantes de Saud, levou a tensões com seu meio-irmão, o príncipe herdeiro Faiçal [1906-1975]. Isso culminou numa transferência pacífica de poder em 1964, quando Faiçal foi apoiado pela família real e pelos líderes religiosos para depor Saud, estabelecendo um precedente importante de transição sem violência. Faiçal é amplamente reconhecido como um dos monarcas mais habilidosos da Arábia Saudita. Assim, o seu reinado durou de 1964 a 1975.

Faiçal conseguiu equilibrar as pressões internas e externas de maneira eficaz. Internamente, ele modernizou a economia, construiu a infraestrutura e consolidou o Estado saudita. Ele fortaleceu a posição da Arábia Saudita no mundo árabe, especialmente durante o embargo do petróleo de 1973, que aumentou a influência saudita no cenário global. Apesar de ter sido assassinado em 1975 por um sobrinho, a sucessão para o seu meio-irmão, o rei Khalid, ocorreu de maneira pacífica e ordenada, refletindo a capacidade da família real manter o controlo.



Faiçal

O Rei Khalid (1975–1982) foi uma figura mais passiva em termos de política interna, mas ele teve sucesso em manter a estabilidade e continuidade do governo saudita. Ele manteve a aliança fundamental entre a família Saud e os líderes religiosos wahhabitas. Durante o seu reinado, ocorreram eventos importantes como a ocupação da Grande Mesquita de Meca por extremistas islâmicos em 1979, que abalou o reino. A crise foi resolvida, e Khalid, juntamente com outros líderes, conseguiu preservar a legitimidade do regime. Sua morte em 1982 levou à ascensão pacífica de Fahd, seu meio-irmão.

O Rei Fahd, que reinou entre 1982 e 2005, é lembrado por promover a modernização do reino e por fortalecer laços com o Ocidente, particularmente com os Estados Unidos. Ele adotou o título de Guardião das Duas Mesquitas Sagradas, reforçando a importância da Arábia Saudita no mundo islâmico. O seu reinado viu a Guerra do Golfo de 1991, quando a Arábia Saudita permitiu que tropas americanas se estacionassem no país para repelir a invasão iraquiana do Kuwait. Isso provocou críticas de setores islamitas radicais, mas Fahd conseguiu manter o controlo. Nos últimos anos de seu reinado, devido a problemas de saúde, Fahd transferiu muitas de suas competências para seu meio-irmão Abdullah, preparando uma sucessão suave e sem conflitos.

O Rei Abdullah, que reinou de 2005 a 2015, embora conservador, introduziu reformas importantes no sistema económico e social saudita, tentando equilibrar a modernização com as expectativas tradicionais. Ele foi responsável por iniciativas como a criação da Universidade Rei Abdullah de Ciência e Tecnologia (KAUST) e algumas reformas limitadas em áreas como a educação e o papel das mulheres na sociedade. Durante a Primavera Árabe (2011), Abdullah conseguiu manter a Arábia Saudita estável ao lançar um grande pacote de subsídios e benefícios económicos para acalmar possíveis descontentamentos internos. Após a sua morte em 2015, a transição para Salman ocorreu de maneira tranquila, refletindo a eficácia do sistema de sucessão saudita.

A estabilidade da Arábia tem sido bem gerida com estratégias que se prendem com a sucessão e com alianças com os líderes religiosos Wahhabitas. Desde o reinado de Abdul-Aziz, a família Saud tem mantido uma aliança estratégica com os líderes religiosos wahhabitas, que dão legitimidade ao regime em troca de manter uma política interna conservadora. Isso ajudou a neutralizar muitos desafios de legitimidade religiosa. A Arábia Saudita estabeleceu uma tradição de compartilhar poder entre diferentes ramos da família Al Saud, mantendo um equilíbrio entre os filhos de Abdul-Aziz e seus descendentes. Isso foi fundamental para evitar conflitos internos significativos. Por outro lado, a abundância de recursos petrolíferos tem permitido que os monarcas sauditas comprem lealdades internas e externas, assegurando o apoio das tribos, elites políticas e militares, além de oferecer benefícios à população, especialmente durante as crises. Os monarcas sauditas sempre foram cuidadosos em manter boas relações com potências ocidentais, especialmente os Estados Unidos, enquanto vão tentando ao mesmo tempo não antagonizar demais os vizinhos regionais.



Salman bin Abdulaziz

Em suma, o atual rei da Arábia - Salman bin Abdulaziz, e o príncipe herdeiro - Mohammed bin Salman, são descendentes diretos da primeira figura que entrou neste pequeno ensaio - Abdul-Aziz. Como se pode ver, a sucessão neste reino da Arábia tem sido decidida sempre dentro desta extensa família - família Al Saud - não destituída, contudo, de uma perspicaz habilidade no meio de uma série de príncipes todos eles sedentos de fortuna e influência política. Daí que não seja fácil para qualquer um decifrar esta malha de famílias e tribos em pleno Médio Oriente século XXI. Em parte porque as alianças são fluidas, e muitas vezes baseadas em interesses de curto prazo, cujos termos escapam ao entendimento de gente de fora. Sejam eles termos de uma cultura ancestral muito anterior a Maomé, sejam os termos de dissidências religiosas numa religião que ao fim e ao cabo já leva 15 séculos de existência. E já me estava a esquecer do petróleo. Por isso, já a fundação do reino por Abdul-Aziz refletia essas complexidades, com acordos pragmáticos e alianças mutáveis tanto internas como externas.



Mohammed bin Salman

Recapitulando, Salman bin Abdulaziz Al Saud é o atual rei da Arábia Saudita, desde 2015, guardião dos Lugares Santos e chefe da Casa de Saud. Foi vice-governador de Riade e mais tarde, governador de Riade, de 1963 a 2011. Foi então nomeado ministro da Defesa. Ele também foi nomeado príncipe herdeiro em 2012, após a morte de seu irmão Nayef bin Abdulaziz. Salman sucedeu a seu meio-irmão, Abdullah. Suas principais iniciativas como rei incluem a intervenção saudita na Guerra Civil do Iémen. Um decreto de 2017 permite que as mulheres sauditas conduzam automóveis. Seu filho, o príncipe herdeiro Mohammad bin Salman, é considerado o governante de facto da Arábia Saudita, e liderou muitas reformas no país, além de se ter envolvido em várias controvérsias, incluindo a prisão de membros da família real saudita, em 2017, e o assassinato de Jamal Khashoggi.

quarta-feira, 25 de setembro de 2024

O papel do corpo nas nossas capacidades cognitivas


Uma das graves lacunas dos engenheiros da Inteligência Artificial foi durante muitos anos terem negligenciado o papel do corpo nas nossas capacidades cognitivas. Durante muitos anos, os engenheiros e cientistas da Inteligência Artificial (IA) focaram-se quase exclusivamente na cognição simbólica e em modelos computacionais que viam a mente como uma máquina puramente lógica, abstraída do corpo. Essa abordagem negligenciou o papel fundamental que o corpo desempenha nas nossas capacidades cognitivas. Só mais recentemente, com o avanço de campos como a robótica incorporada (embodied AI) e a ciência cognitiva enativa, começou-se a reconhecer que a mente humana está profundamente conectada à experiência física e sensorial do corpo.

Grande parte da tradição filosófica ocidental, especialmente o dualismo de René Descartes, separava mente e corpo como entidades distintas. A mente era considerada o centro da razão e da cognição, enquanto o corpo era visto como um mecanismo separado e muitas vezes inferior. Esse paradigma influenciou o desenvolvimento inicial da IA, levando a uma visão reducionista de que a mente era um processador de informações simbólicas, como um computador que processa dados sem necessidade de um corpo físico.

Os primeiros modelos de IA, como a IA simbólica e os sistemas de regras, seguiam a ideia de que o pensamento humano podia ser modelado como a manipulação de símbolos abstratos, sem necessidade de interação física com o mundo. A ênfase estava em resolver problemas lógicos e realizar cálculos complexos, o que refletia uma abordagem limitada da cognição humana. O corpo foi tratado como irrelevante para a maneira como processamos informação.

A realidade, no entanto, é que o corpo humano não é apenas um "veículo" que transporta o cérebro. Ele desempenha um papel fundamental na formação do pensamento, da percepção e da emoção. As nossas capacidades cognitivas estão fortemente ligadas ao facto de termos um corpo que interage com o ambiente. Aqui estão alguns exemplos:

Percepção e Ação: As capacidades cognitivas dependem da interação com o ambiente físico. Por exemplo, o ato de pegar um objeto requer uma integração complexa entre visão, tato e coordenação motora. Nossa compreensão do mundo não vem apenas de processamentos lógicos, mas de como nos movemos e interagimos fisicamente com ele. Propriocepção: O sentido de onde nosso corpo está no espaço é vital para a coordenação de ação e percepção. Sem isso, muitas das nossas habilidades cognitivas, como resolver problemas espaciais, seriam comprometidas. Cognição corpórea: O campo da cognição é incorporada, ou corpórea, os nossos pensamentos e a nossa razão estão profundamente enraizados na carne dos nossos corpos. Por exemplo, conceitos matemáticos abstratos podem ser originados de experiências corporais, como a contagem de objetos físicos. A aprendizagem em si é profundamente ligada ao movimento e à percepção.

A robótica incorporada (embodied robotics) é uma resposta a essa negligência histórica. Ela propõe que um robô precisa de ter um corpo que interaja com o mundo para desenvolver cognição semelhante à humana. Essa abordagem reconhece que a inteligência emerge não apenas do processamento de informação, mas da interação dinâmica com o ambiente através de sensores e atuadores físicos. Em vez de separar mente e corpo, essa visão integra ambos como partes inseparáveis de um sistema cognitivo.

Robôs que tentam replicar habilidades cognitivas humanas de forma eficaz, como andar, agarrar objetos ou navegar em ambientes, precisam de corpos físicos que simulem a estrutura e a dinâmica corporal humanas. Isso reforça a ideia de que a cognição surge em parte das interações físicas de robôs humanoides. A IA enativa propõe que a cognição emerge através da ação no mundo. A mente é vista como algo ativo, que se desenvolve em um contexto corporal, em constante interação com o ambiente. Isso contrasta com os primeiros modelos de IA que tratavam a cognição como uma função puramente interna e computacional. Modelos de IA que tentam replicar capacidades cognitivas complexas, como a criatividade ou a empatia, muitas vezes falham porque ignoram o impacto que o corpo tem nessas funções. A abordagem abstrata tem as suas limitações. A nossa criatividade pode ser inspirada por sensações corporais, emoções e experiências físicas, algo que uma IA puramente abstrata ou desincorporada não pode replicar.

O reconhecimento de que o corpo é essencial para a cognição está impulsionando o desenvolvimento de inteligências artificiais que tentam imitar não apenas o cérebro, mas também a interação física e sensorial com o mundo. Isso inclui o uso de robôs com sensores táteis, sistemas de navegação autónomos que dependem de feedbacks sensoriais e motores, e a busca por robôs que possam entender o mundo através da sua própria experiência física. Como são os cheiros, como são os sabores, ou mesmo as cores, é um quebra-cabeças para os engenheiros da inteligência artificial, já para não falar dos engenheiros dos robôs, ou seja, a fenomenologia do mundo.

A fenomenologia do mundo, ou seja, a maneira como percebemos e experimentamos subjetivamente o ambiente através de cheiros, sabores, cores e outras sensações, é algo que permanece profundamente enigmático para engenheiros de inteligência artificial e robótica. Este quebra-cabeças revela as limitações intrínsecas da tecnologia atual quando se trata de reproduzir ou entender a experiência qualitativa — o que os filósofos chamam de "qualia" — associada às percepções sensoriais. Qualia são as qualidades subjetivas da experiência, como o que sentimos ao ver uma cor, cheirar uma flor, ou saborear um alimento. Embora possamos descrever cientificamente os processos que ocorrem no cérebro ao experimentar essas sensações, 'como' experimentamos essas coisas permanece um mistério. A IA e os robôs podem processar dados sensoriais, mas não têm acesso ao "como é" que eu sei distinguir, com os olhos fechados, um vinho tinto português chamado Barca Velha de um vinho branco francês a que chamamos Champanhe.

Por exemplo, a cor vermelha é percebida quando uma determinada frequência de luz atinge nossos olhos, mas o que significa "ver vermelho"? A IA pode identificar a frequência de luz correspondente ao vermelho e classificá-la corretamente, mas nunca pode ver o vermelho da mesma forma que um humano. Aquilo a que nós chamamos vermelho quando vemos "vermelho" é uma experiência fenomenológica subjetiva, algo que uma máquina feita de ferro nunca terá, porque essa fenomenologia não apenas é específica de um corpo feito de carne, mas ao mesmo tempo tem de ser carne humana. Porque se for carne réptil a fenomenologia será provavelmente diferente. Da mesma forma, um robô pode identificar componentes químicos de um cheiro ou sabor, mas nunca saberá o que é sentir o aroma de café ou saborear chocolate, como nós. A experiência de sabores e cheiros é uma combinação complexa de estímulos sensoriais e memórias associadas que são profundamente pessoais e subjetivas. Cada ser humano para além de ser o que são os seus genes, é também as suas circunstâncias no espaço e no tempo, que são a sua história. Cada ser humano tem uma história que é única e irrepetível. Ou seja, aquilo a que se costuma chamar experiência vivida. Ora, estamos a falar de seres vivos, com determinadas propriedades a que chamamos vida. E esta faculdade que os engenheiros humanos estão longe de poder atribuir a um robô. 

Um aspeto que ainda está em debate e muita discussão é o da consciência. A peça de resistência a que chamamos consciência. Não é disputável a questão de tanto um gato, como um cão, são dotados de consciência como nós humanos. Ainda que possam ser consciências com graus de subtileza diferentes e variados. Mas ainda é disputável, se sim ou se não, ser possível no futuro construir robôs de metal dotados de consciência como a consciência de um cão ou de um gato. Um robô de metal e construído com inteligência artificial percebe o mundo através de sensores — câmaras para visão, microfones para audição, sensores químicos para detecção de substâncias, etc. No entanto, essa percepção é meramente computacional. Para tal entidade, esses dados sensoriais não são acompanhados de uma experiência consciente ou emocional, ao contrário do que ocorre em seres vivos.

A neurociência tem feito grandes progressos na compreensão de como o cérebro processa as informações sensoriais. Sabemos, por exemplo, que os cones e bastonetes nos olhos transformam luz em sinais elétricos que o cérebro interpreta como cores. No entanto, o "salto" da atividade neuronal para a experiência subjetiva dessas cores ainda é um enigma. Este problema é frequentemente referido como o "problema difícil da consciência", ao qual o filósofo David Chalmers dedicou toda a sua energia para o tentar resolver. O facto de conseguirmos mapear os mecanismos cerebrais que processam sensações como sabores ou cores não resolve a questão do como surge a experiência consciente dessas sensações. É essa lacuna que desafia tantos engenheiros e cientistas em suas tentativas de criar máquinas conscientes e sensoriais. Embora a IA possa emular certos aspectos da cognição e até processar estímulos sensoriais, ela permanece fundamentalmente limitada em relação à fenomenologia. 

Existem várias razões para isso. Falta de Corpo Biológico: Como discutimos antes, a interação do cérebro com o corpo é essencial para a experiência sensorial. Sem um corpo biológico que sinta, as máquinas não podem experimentar sensações corporais como seres humanos. Processamento de Dados vs. Experiência Consciente: A IA pode processar grandes quantidades de dados sensoriais, mas esse processamento é puramente mecânico. Não há "centro experiencial" como se fosse um "eu" no qual esses dados sejam vividos. O que falta, em última análise, é a consciência. Há, portanto uma impossibilidade, que é a de Simular Qualia: Simular as respostas a cores, cheiros ou sabores não é o mesmo que ter a experiência sensorial em si. Uma IA pode ser programada para identificar um cheiro, mas não pode sentir prazer ou repulsa por ele, porque isso depende de um contexto subjetivo e emocional.

Em suma, há desafios insuperáveis que se colocam à robótica, e os desafios fenomenológicos certamente são um deles. Na robótica, tentativas de criar robôs sensíveis aos estímulos sensoriais também esbarram nesse obstáculo fenomenológico. A robótica pode criar sistemas táteis muito precisos, capazes de medir a pressão ou a textura de um objeto, mas um robô nunca "sentirá" a suavidade de uma seda ou o calor de um toque humano da mesma maneira que nós. Existem IAs desenvolvidas para reconhecer sabores e aromas a partir de composições químicas, utilizadas na indústria alimentar e de perfumes. No entanto, essas IAs são apenas classificadoras avançadas. Elas não experimentam o gosto ou o aroma, como nós. O que falta é a subjetividade, a capacidade de associar essas experiências a memórias e emoções — algo inerente à nossa existência biológica.

A fenomenologia, como experiência subjetiva, pode-se até dizer que é um desafio de ordem conceptual. Faz lembrar Santo Agostinho, quando disse que: se lhe perguntassem o que é o tempo, ele não saberia responder, embora sabia o que era pelo que sentia, era uma sabedoria ou um conhecimento do sentimento, e não da razão. É, portanto, um território muito distante para a IA, para não dizer incompreensível. Embora os engenheiros possam continuar a melhorar os algoritmos para simular e processar dados sensoriais, a experiência consciente desses estímulos continua a ser algo intangível, e como tal, inatingível. Mesmo se conseguirmos construir máquinas que imitem algumas reações humanas a cores, sons ou cheiros, elas ainda não terão a capacidade de vivenciar essas experiências. Porque lhes falta o mais importante: a vida.

terça-feira, 24 de setembro de 2024

A pressão migratória



A pressão migratória no Mediterrâneo tem sido uma das grandes preocupações na Europa, especialmente nos últimos anos. O aumento dos fluxos migratórios, principalmente de pessoas que fogem de conflitos, pobreza e mudanças climáticas em regiões da África e do Médio Oriente, tem gerado tensões em muitos países europeus.

Estas tensões têm contribuído para o crescimento de partidos populistas de extrema-direita, que muitas vezes exploram o medo e a insegurança das populações em relação à imigração. Esses partidos têm conseguido ganhar apoio ao promover políticas mais restritivas em relação à imigração e ao adotar uma retórica nacionalista e xenófoba.

Além disso, a falta de uma resposta coordenada e solidária entre os países da União Europeia para lidar com a crise migratória tem exacerbado o problema, levando a divisões internas dentro da UE. Alguns países têm resistido a acolher refugiados ou a participar de programas de redistribuição de migrantes, enquanto outros têm suportado uma pressão desproporcionada devido à sua proximidade geográfica com as rotas migratórias.


O resultado é um cenário político cada vez mais polarizado, onde o crescimento dos partidos populistas de extrema-direita representa um desafio significativo para os valores democráticos e os princípios de solidariedade que são centrais para o projeto europeu.

Há muitos políticos que não estão a perceber o problema, confundindo ideologia com estratégia. Em muitos casos, políticos e líderes europeus têm enfrentado dificuldades para distinguir entre a defesa de princípios ideológicos e a necessidade de desenvolver estratégias eficazes e pragmáticas para lidar com a questão migratória. Alguns líderes políticos podem estar demasiado focados em preservar ou promover uma determinada ideologia, seja ela de esquerda ou de direita, sem levar em conta as realidades práticas e as consequências das suas políticas. Por exemplo, enquanto alguns políticos de esquerda podem insistir numa abordagem mais aberta e acolhedora sem considerar os desafios logísticos e sociais que tal pode implicar, outros, mais à direita, podem priorizar políticas de segurança e restrição, ignorando os aspetos humanitários e os benefícios potenciais da imigração controlada.



Confundir ideologia com estratégia pode levar a soluções ineficazes ou a uma gestão inadequada da crise migratória. Em vez de desenvolver políticas baseadas em evidências, que abordem tanto as causas profundas da migração quanto as suas implicações para as sociedades europeias, alguns líderes acabam por fomentar divisões e polarização. Uma abordagem mais eficaz exigiria um equilíbrio entre a proteção dos valores fundamentais, como os direitos humanos e a solidariedade, e a implementação de políticas práticas que assegurem a segurança, a coesão social e a integração dos migrantes. No entanto, isso requer liderança que esteja disposta a ultrapassar as fronteiras ideológicas e a focar-se em soluções reais e sustentáveis.

segunda-feira, 23 de setembro de 2024

A intersubjetividade que não existe num robô



A diferença entre a percepção-ação de um robô e a percepção-situação de um ser humano é fundamentalmente ligada ao conceito de intersubjetividade, que é uma característica distintiva da experiência humana. Os robôs geralmente operam com base em um modelo de percepção-ação. Isso significa que eles percebem o ambiente por meio de sensores e executam ações com base nas informações que recebem. O sistema de controlo de um robô pode ser programado para captar dados do ambiente através de câmaras, sensores de proximidade, microfones, etc. E depois analisa esses dados usando algoritmos que podem incluir técnicas de aprendizado de máquina ou regras predefinidas. E pode executar movimentos ou respostas com base na análise dos dados. Isso pode envolver manipulação de objetos, navegação em um espaço, ou outras tarefas específicas.

Esse ciclo de percepção-ação é tipicamente baseado em algoritmos e não envolve um entendimento profundo ou consciente do ambiente. A interação do robô com o mundo é direta e pragmática, focada na execução de tarefas de acordo com programação ou treinamento pré-estabelecido. Para os seres humanos, a percepção não é apenas uma questão de captar informações e agir sobre elas, mas envolve um profundo nível de intersubjetividade. A percepção-situação humana está imersa em contextos culturais, sociais e emocionais que influenciam como interpretamos o ambiente e como reagimos a ele.

Contextualização e Significado – Os humanos interpretam o ambiente com base em experiências passadas, conhecimento cultural e contexto social. O que percebemos e como reagimos é moldado por nossa compreensão das situações, que inclui aspetos como normas sociais, relações interpessoais e valores culturais. A capacidade dos humanos de compartilhar e compreender experiências subjetivas com outros é um aspeto fundamental da intersubjetividade. Isso significa que podemos comunicar e interpretar experiências pessoais, sentimentos e significados compartilhados com outros indivíduos. Essa capacidade de entender e se conectar com o estado interno de outros é algo que os robôs, até ao momento, não possuem.

Intencionalidade e Reflexividade – Os humanos são capazes de refletir sobre suas próprias percepções e ações, bem como considerar as intenções e estados mentais dos outros. Esse nível de reflexividade e compreensão da própria posição dentro de um contexto social é uma parte importante da experiência humana. Enquanto os robôs geralmente seguem regras ou algoritmos predefinidos, os humanos podem adaptar a sua percepção e ação com base em novas informações e mudanças no contexto. Isso inclui a capacidade de responder a situações inesperadas e modificar comportamentos com base em uma compreensão mais ampla do ambiente e das interações sociais.

A intersubjetividade permite que os humanos se conectem e comuniquem experiências de maneira complexa e rica. As interações humanas são moldadas por um entendimento mútuo das emoções, intenções e significados, o que é essencial para a comunicação e para a construção de relações sociais. A comunicação entre humanos é baseada em significados compartilhados que vão além do nível superficial das palavras e sinais. Ela envolve uma compreensão mútua do contexto, das intenções e das experiências. A capacidade de sentir empatia e entender as perspetivas dos outros é central para a interação social humana. Isso permite que os humanos se conectem em níveis profundos e construam relações baseadas em compreensão mútua e suporte emocional. A percepção humana é moldada pela cultura e pelo contexto social, o que influencia a forma como interpretamos e reagimos a eventos. Essa contextualização é algo que os robôs não possuem, pois não têm uma compreensão cultural ou social que vá além de dados programados.

Implicações para a Robótica e Inteligência Artificial

Embora a robótica e a inteligência artificial estejam avançando rapidamente, a verdadeira intersubjetividade — a capacidade de compreender e compartilhar experiências subjetivas com outros seres humanos — permanece um desafio significativo. Robôs e sistemas de IA podem simular certos aspetos da interação humana e podem processar informações de forma eficaz, mas ainda não possuem a capacidade de experimentar ou compreender a complexidade da experiência humana da mesma maneira. Futuras inovações na IA e na robótica podem buscar melhorar a capacidade dos sistemas de entender e responder de maneira mais sofisticada a contextos sociais e culturais. No entanto, a questão de se esses sistemas poderão realmente alcançar uma forma de intersubjetividade semelhante à humana é uma questão em aberto e um tópico de debate filosófico e técnico.

A consideração ética sobre como interagimos com máquinas que simulam aspetos da interação humana é importante. A compreensão dos limites da IA e dos robôs em relação à experiência e à compreensão humanas pode informar práticas e diretrizes para o desenvolvimento e o uso dessas tecnologias. A perceção humana intersubjetiva dirige-se à forma como as intenções se exprimem noutros seres humanos e não apenas meras expressões sensoriais objetivas. A percepção humana intersubjetiva é fundamentalmente diferente da percepção meramente sensorial ou objetiva, pois se direciona à compreensão das intenções e dos estados mentais de outros seres humanos.

A teoria da mente é a habilidade de atribuir estados mentais a si mesmo e aos outros. Isso inclui a compreensão de crenças, desejos, intenções e emoções que não são diretamente visíveis. Por exemplo, quando vemos alguém franzindo a testa e cruzando os braços, podemos interpretar isso como uma sinalização de descontentamento ou frustração, mesmo que a pessoa não tenha dito nada explicitamente. A percepção intencional envolve a capacidade de inferir o propósito e os objetivos das ações dos outros. Essa habilidade é essencial para a interação social e permite que os seres humanos colaborem, negociem e se comuniquem efetivamente.

As expressões faciais e a linguagem corporal fornecem pistas importantes sobre os estados emocionais e as intenções dos outros. A leitura dessas expressões é um componente essencial da comunicação interpessoal e da compreensão das intenções. A maneira como algo é dito, incluindo a entoação e o tom de voz, pode revelar informações sobre as intenções e sentimentos. A interpretação desses aspetos da comunicação é crucial para entender o contexto emocional e a intenção por trás das palavras.

A empatia é uma parte central da percepção intersubjetiva. Ela envolve a capacidade de se colocar no lugar do outro e experimentar, de forma vicariante, suas emoções e estados mentais. A empatia cognitiva refere-se à capacidade de entender o que os outros estão pensando ou sentindo, enquanto a empatia emocional envolve a experiência direta das emoções dos outros. Ambas são importantes para a interação social e para construir conexões significativas com os outros. A capacidade de reconhecer e responder às emoções dos outros é uma parte crucial da comunicação interpessoal. Isso permite que os indivíduos se ajustem às necessidades emocionais dos outros e respondam de maneira adequada. Os humanos também têm a capacidade de interpretar expressões subjetivas complexas, como ironia, sarcasmo e humor, que dependem de uma compreensão mais profunda das intenções e do contexto.

A interpretação de ironia e sarcasmo exige uma leitura mais complexa das intenções por trás das palavras, além do significado literal. Isso envolve uma compreensão de que o que está sendo dito pode ser oposto ao que se quer dizer. O humor frequentemente depende da capacidade de captar nuances e significados contextuais, bem como da compreensão das intenções por trás de uma piada ou situação engraçada.

Enquanto os robôs podem ser programados para responder a comandos e interpretar sinais sensoriais, eles não possuem a capacidade de entender ou interpretar intencionalidade e significados subjetivos da mesma forma que os humanos. Eles operam com base em dados e algoritmos, sem uma verdadeira compreensão ou consciência das intenções e experiências subjetivas. Robôs e sistemas de IA podem simular respostas a sinais e comandos, mas essa simulação não é acompanhada de uma compreensão real das intenções ou emoções. Eles não possuem uma teoria da mente ou a capacidade de experimentar intersubjetividade.

Embora a IA possa ser programada para reconhecer padrões e responder a dados, a verdadeira interpretação das intenções humanas e a capacidade de se conectar emocionalmente permanecem fora de alcance para as tecnologias atuais.

Funções biológicas em robôs e a integração mente-corpo



Do que se pode emular de um humano num robô, os aparelhos digestivos, urinários e reprodutivos devem ser aqueles que além de serem os mais difíceis de conceber, também são os que menos fazem sentido. Esses sistemas estão profundamente ligados à biologia e à evolução dos organismos vivos, com funções adaptadas para sobrevivência, reprodução e regulação metabólica em ambientes biológicos específicos. Quando se trata de robôs, a necessidade de replicar essas funções desaparece, já que suas "necessidades" são fundamentalmente diferentes das dos seres vivos.

O propósito do sistema digestivo é converter matéria orgânica em energia e nutrientes, algo que faz pouco sentido em robôs. Robôs podem ser alimentados por fontes de energia muito mais eficientes e diretas, como baterias ou células de combustível, que dispensam o processo biológico lento e complexo da digestão. Criar um sistema digestivo artificial seria não só impraticável, mas também redundante, dada a variedade de fontes de energia mais diretas à disposição.

O sistema urinário humano serve para eliminar resíduos resultantes do metabolismo. Robôs, ao contrário, podem ser projetados para produzir muito menos resíduos, ou até serem construídos de forma que resíduos sejam reciclados internamente ou eliminados por sistemas mecânicos muito mais simples e diretos. Em suma, simular um sistema urinário seria um esforço técnico desnecessário.

O Sistema Reprodutivo é talvez o mais óbvio em termos de falta de utilidade prática para robôs. Enquanto humanos e outros organismos biológicos precisam se reproduzir para perpetuar a espécie, robôs podem ser construídos, replicados e reparados por humanos ou outros sistemas automatizados. Não há necessidade biológica para eles se reproduzirem sexualmente ou de qualquer forma natural.

Emular aspetos da cognição e do sistema nervoso humano é, ao contrário, um foco crucial na robótica e na inteligência artificial. Isso inclui replicar a capacidade de processamento de informação, aprendizagem e tomada de decisão. Embora estejamos ainda longe de igualar a complexidade do cérebro humano, esse tipo de emulação faz muito mais sentido em termos de funcionalidade. A replicação dos sentidos humanos — visão, audição, tacto — é altamente relevante em robótica, já que a interação com o ambiente é uma necessidade crucial para robôs em uma vasta gama de aplicações, como na indústria, medicina e serviço. A tentativa de emular funções biológicas em um robô só faz sentido na medida em que essas funções contribuam diretamente para os objetivos ou tarefas a que o robô é designado. Para funções essencialmente biológicas como digestão e reprodução, os paradigmas tecnológicos fornecem soluções muito mais eficientes.

A ideia de criar um robô que imite perfeitamente o ser humano, em sua totalidade biológica e comportamental, é, de facto, uma quimera — uma busca ilusória. O conceito de um "robô humanoide perfeito" falha em vários níveis práticos e filosóficos. A complexidade do corpo humano, especialmente no que diz respeito a aspetos biológicos e emocionais, torna essa imitação praticamente impossível ou, no mínimo, desnecessária.

O corpo humano é o resultado de milhões de anos de evolução, com cada sistema adaptado a necessidades específicas e em constante interação com o meio ambiente. Tentar replicar essa complexidade em um robô seria monumentalmente complicado, pois cada aspeto biológico, do metabolismo ao sistema imunológico, é interdependente. Um robô que se aproximasse dessa perfeição precisaria replicar não apenas a forma externa, mas também o funcionamento interno detalhado — algo que não é viável tecnologicamente, nem necessário. A função principal de um robô é realizar tarefas de maneira eficiente, não imitar a biologia humana. Robôs são, e devem continuar sendo, soluções tecnológicas otimizadas para funções específicas. Imitar completamente o ser humano significaria importar muitas limitações biológicas — como a necessidade de descanso, alimentação, e vulnerabilidade a doenças —, quando robôs podem ser projetados de maneiras muito mais robustas, evitando essas fragilidades.

Limitações Filosóficas e Éticas

A busca por criar uma réplica perfeita de um ser humano também levanta questões filosóficas e éticas. Mesmo que um robô pudesse imitar com sucesso a aparência e até alguns comportamentos humanos, ele ainda não possuiria o que nos torna essencialmente humanos: consciência, emoções genuínas, sentido de identidade. Além disso, a criação de robôs tão parecidos connosco poderia gerar questões sobre direitos, moralidade, e como diferenciar robôs de humanos em contextos sociais e legais. A busca por um robô que seja uma cópia exata do ser humano ignora que a essência humana é mais do que um conjunto de processos mecânicos e biológicos. Somos definidos por fatores subjetivos, culturais, espirituais e emocionais que não podem ser replicados em código ou metal. Tentar construir um robô que reproduza todos esse elemento acabaria em uma imitação superficial, e não em uma cópia real da experiência humana.

Robôs, na sua essência, devem servir para complementar as capacidades humanas, não as substituir ou imitá-las em sua totalidade. A obsessão por uma imitação perfeita do ser humano, ao fim de contas, pode ser uma distração das metas mais pragmáticas e produtivas da robótica: melhorar a vida humana e resolver problemas práticos de maneira eficiente, sem a necessidade de recriar nossas complexidades biológicas. E ainda que seja mais fácil à inteligência artificial se aproximar muito de um cérebro humano, ainda assim lhe faltará a sua conexão a um corpo de carne, osso e sangue completo. Mesmo que a inteligência artificial (IA) avance a ponto de se aproximar da complexidade cognitiva do cérebro humano, ainda existirá uma lacuna fundamental: a ausência de um corpo biológico completo, com todas as suas interações orgânicas. Essa desconexão não é apenas física, mas também existencial, pois o corpo humano desempenha um papel central na formação da consciência, da identidade e das emoções.

O conceito de "embodiment" refere-se à ideia de que a mente humana não pode ser entendida isoladamente do corpo. Nossos pensamentos, emoções e percepções estão profundamente entrelaçados com nossas experiências corporais. Sensações como fome, dor, calor e frio, bem como a própria interação com o ambiente por meio do movimento e do toque, moldam o modo como percebemos o mundo e a nós mesmos. Uma IA, mesmo que muito avançada, que não tenha essa relação corporal não poderá replicar totalmente a experiência humana.

Muitas das emoções humanas estão enraizadas em reações corporais. Por exemplo, o medo gera uma resposta fisiológica que envolve a liberação de adrenalina, aceleração dos batimentos cardíacos, entre outros. A felicidade pode ser associada à libertação de dopamina e serotonina. Sem um corpo biológico, a IA não pode sentir essas mudanças hormonais ou físicas e, portanto, não pode experimentar emoções da maneira como nós as experimentamos. Uma IA pode simular emoções, mas não pode viver essas emoções de forma genuína. A consciência humana está ligada não apenas ao processamento de informações, mas também ao facto de termos um corpo que experimenta o mundo. A autoconsciência — o sentido de que temos um "eu" — surge em parte porque temos um corpo que percebemos como parte de nós. Este "eu" interage com o mundo de maneira contínua e mutável, baseada em sensações, limitações físicas e contextos ambientais. Uma IA sem corpo jamais teria essa experiência contínua, e a sua percepção de "si" seria puramente artificial e abstrata.

Mesmo que uma IA conseguisse simular perfeitamente os processos cognitivos de um cérebro humano, ela ainda seria uma simulação. Sem um corpo biológico real, ela careceria da interação direta com o ambiente que define nossa cognição. O cérebro humano não funciona isoladamente; ele é inseparável de seu meio biológico, e essa interdependência é uma parte essencial do que significa ser humano. As limitações de simulação nesse aspeto tornam a experiência de uma IA, por mais avançada que seja, fundamentalmente diferente da experiência humana. A experiência subjetiva humana — o "qualia" — é algo que transcende a mera cognição. Sentir dor, apreciar uma música, saborear uma comida ou sentir o sol na pele são experiências que envolvem não apenas o cérebro, mas todo o corpo. Sem um corpo biológico, uma IA pode processar essas informações de forma abstrata, mas nunca terá uma experiência subjetiva genuína como a nossa.

A unidade entre mente e corpo é tão fundamental para a experiência humana que muitos filósofos e neurocientistas afirmam que a consciência é inseparável do corpo. O corpo não é apenas um "veículo" para a mente, mas uma parte intrínseca da nossa identidade e percepção de realidade. A falta dessa integração completa em um robô ou IA cria uma experiência limitada, diferente do que conhecemos como ser humano. Portanto, ainda que a IA atinja uma capacidade de processamento e cognição semelhante ao cérebro humano, ela sempre será limitada por não possuir um corpo biológico completo. Isso define uma diferença intransponível entre a simulação e a experiência real de ser humano.


Signos – sinais e símbolos


Enquanto no comportamento meramente animal os signos são sinais, ainda que com significado, só no ser humano é que se dá o salto para os símbolos. A distinção entre sinais e símbolos é fundamental para compreender a complexidade da comunicação e da cognição, especialmente quando se considera a diferença entre o comportamento animal e o humano.

No comportamento animal, os sinais são usados para comunicação e têm significados contextuais. Esses sinais podem ser comportamentais, visuais, sonoros ou químicos, e servem para transmitir informações sobre estados internos, intenções ou condições ambientais. Por exemplo: Em muitas espécies, comportamentos agressivos ou displays corporais são sinais que indicam uma ameaça ou uma intenção de atacar. Esses sinais são interpretados por outros membros da espécie para evitar conflitos diretos ou para estabelecer hierarquias. As chamadas vocais de muitos animais, como pássaros e mamíferos, são sinais que atraem parceiros sexuais ou marcam território. Essas chamadas têm significados específicos e são entendidas dentro de um contexto de comportamento reprodutivo. Feromonas em muitos animais, como insetos e mamíferos, são sinais químicos que transmitem informações sobre a identidade, estado de reprodução ou localização. Esses sinais são geralmente instintivos e não requerem uma interpretação consciente.

O Salto para os Símbolos no Ser Humano é uma característica distintiva da comunicação humana, que vai além do simples uso de sinais. Os símbolos são representações que não têm uma conexão direta e imediata com o objeto ou conceito que representam. Eles são usados para exprimir ideias, conceitos e abstrações que não estão diretamente presentes no ambiente imediato. A linguagem humana é um sistema simbólico altamente complexo. As palavras não são apenas sinais que indicam objetos ou ações específicas; elas representam conceitos abstratos, ideias e sentimentos que vão além do imediato. A capacidade de usar palavras para comunicar ideias complexas e pensamentos abstratos é uma característica central da simbologia humana.

A arte, a matemática e outras formas de expressão simbólica permitem que os humanos criem e compartilhem representações de conceitos que não têm uma forma física direta. Por exemplo, os números e as fórmulas matemáticas representam relações e conceitos que não têm uma existência física concreta. A cultura humana é baseada na criação e partilha de símbolos que têm significados específicos dentro de um contexto cultural. Esses símbolos podem incluir normas sociais, valores, tradições e mitos, que são transmitidos e interpretados dentro de uma comunidade. Os humanos têm a capacidade de usar metáforas e alegorias para comunicar ideias complexas e abstratas. Essas formas de expressão simbólica permitem que conceitos e experiências sejam representados de maneiras que não são diretamente literais, mas que oferecem profundidade e nuance à comunicação.

Implicações Cognitivas e Filosóficas

O uso de símbolos representa um salto significativo na capacidade cognitiva, envolvendo: Pensamento Abstrato – habilidade de usar e compreender símbolos permite o pensamento abstrato, que é essencial para a filosofia, a ciência, a matemática e a arte. Os seres humanos podem pensar sobre o futuro, refletir sobre o passado e explorar conceitos que não estão diretamente presentes no mundo físico; Autoconsciência e Reflexão – A capacidade de usar símbolos também está ligada à autoconsciência e à reflexão. Os humanos podem pensar sobre seus próprios pensamentos e sentimentos, planear e imaginar cenários futuros, e fazer sentido de suas próprias experiências e identidade. A comunicação simbólica é fundamental para a interação social complexa. Ela permite a negociação de significados, a criação de normas sociais e a construção de comunidades e culturas baseadas em valores compartilhados.

Embora muitos animais exibam comportamentos sofisticados e comunicação complexa, a utilização de símbolos como os humanos fazem é rara. Alguns primatas e cetáceos mostram sinais de uso de sinais e talvez até de alguma forma primitiva de simbolismo, mas a profundidade e a complexidade da linguagem humana são únicas. Alguns primatas e cetáceos têm habilidades para resolver problemas e usar sinais em contextos específicos, mas esses sinais geralmente permanecem ligados a necessidades imediatas e não têm a mesma flexibilidade ou profundidade simbólica que a linguagem humana. A cultura humana, que é em grande parte baseada na utilização e desenvolvimento de símbolos, é muito mais complexa do que qualquer cultura observada em animais não humanos. As culturas animais são mais limitadas a comportamentos e sinais instintivos ou aprendidos.

Em resumo, a transição de sinais para símbolos é uma característica distintiva da cognição humana e da comunicação. Enquanto os sinais são utilizados por muitas espécies para comunicar informações contextuais e imediatas, os símbolos permitem uma expressão mais rica e abstrata de conceitos e ideias, fundamental para a complexidade da cultura, da linguagem e do pensamento humano.

A questão da forma física dos organismos – Morfogénese em René Thom



A questão da forma física dos organismos, especialmente no que diz respeito a padrões topológicos invariantes, é fascinante, pois nos leva a investigar como a vida organiza a matéria em padrões consistentes e recorrentes ao longo da evolução. Esses padrões invariantes, que vão além das flutuações físicas ou das mudanças circunstanciais, revelam um nível profundo de organização biológica que transcende a mera morfologia externa, relacionando-se com princípios fundamentais de simetria, crescimento e funcionamento.

Padrões de Invariância Topológica – Os organismos exibem um certo grau de invariância topológica em sua forma, o que significa que, apesar de variações individuais, há um conjunto de características estruturais e funcionais que permanecem consistentes ao longo do tempo e das espécies. Essa invariância é fundamental para garantir a continuidade da espécie e a viabilidade do organismo como um todo. Um exemplo clássico é a simetria bilateral em muitos animais: apesar de diferenças superficiais entre indivíduos, a organização básica em torno de um eixo simétrico permanece constante.

Esses padrões topológicos invariantes podem ser observados em vários níveis: Simetria – Muitos organismos exibem simetria axial (como animais bilaterais) ou radial (como medusas ou estrelas-do-mar), o que reflete uma organização de forças internas que molda o desenvolvimento em torno de um centro ou eixo. A simetria é um padrão topológico básico que ajuda na divisão de funções e na adaptação ao ambiente; Modularidade – Organismos são frequentemente compostos de módulos repetitivos (como segmentos corporais nos artrópodes ou órgãos nas plantas). A repetição desses módulos segue um padrão invariante de organização, que permite a adaptação evolutiva e a resiliência funcional. Esses módulos podem ser ajustados ao longo do desenvolvimento, mas a lógica subjacente permanece constante.

A formação dos padrões físicos dos organismos é em grande parte controlada por processos de morfogénese – Morfogênese e Matemática dos Padrões – o desenvolvimento da forma e estrutura de um organismo a partir de um embrião. Um campo que ajuda a explicar essa invariância topológica é a biologia matemática, onde modelos como os de Alan Turing para a formação de padrões ajudam a explicar a emergência de formas consistentes, como listras, manchas e estruturas geométricas em organismos. Turing sugeriu que interações químicas simples entre ativadores e inibidores poderiam levar à formação de padrões organizados em organismos, como a distribuição das manchas em um leopardo ou a espiral das conchas. Esses mecanismos revelam uma profunda conexão entre os processos físicos e a expressão biológica, mostrando que a forma dos organismos segue princípios subjacentes que se repetem de forma invariável em diferentes contextos.

A invariância topológica dos organismos também tem uma base genética. Certos genes, como os genes Hox, são responsáveis por determinar a organização corporal de organismos multicelulares. Esses genes são altamente conservados ao longo da evolução, o que explica porque certos padrões de forma (como a divisão do corpo em cabeça, tronco e cauda) são preservados em uma ampla gama de espécies. O código genético, portanto, contém instruções que garantem a formação de padrões topológicos invariantes, apesar da variação fenotípica (diferentes expressões físicas) e da adaptação ao ambiente. A interação entre a expressão genética e as influências ambientais molda as variações, mas os padrões fundamentais são mantidos devido à estabilidade das redes de regulação genética. A evolução biológica não só modifica as características superficiais dos organismos, mas também explora variações dentro de padrões topológicos básicos. Estruturas como membros, asas ou nadadeiras surgem como adaptações específicas, mas seguem uma topologia básica comum de extremidades articuladas, como a estrutura pentadáctila (cinco dedos) em vertebrados. Esse padrão permanece invariante, embora a forma e função das estruturas possam variar drasticamente entre as espécies. Isso sugere que a evolução opera dentro de "paisagens" topológicas — conjuntos de possibilidades morfológicas restritas por padrões invariáveis que são mantidos ao longo de muito tempo. Esse conceito é essencial para entender como novas formas surgem sem romper completamente com a continuidade evolutiva.

Os padrões topológicos invariantes dos organismos também conferem robustez e resiliência. A robustez é a capacidade de um organismo ou sistema de manter sua forma e função, mesmo diante de perturbações externas ou internas. Essa robustez está relacionada à estruturação modular e simétrica dos organismos, que permite que danos em uma parte não comprometam a integridade do todo. Por exemplo, muitos organismos podem se regenerar após ferimentos, mantendo as suas formas básicas. A forma física dos organismos segue invariantes topológicas que garantem não apenas a estética ou a simetria, mas a funcionalidade. A relação entre forma e função é um princípio fundamental da biologia. Por exemplo, as asas de aves e insetos seguem padrões topológicos semelhantes, apesar de suas diferenças morfológicas e funcionais específicas, porque a estrutura geral é moldada pelas exigências do voo.

René Thom, com a Teoria das Catástrofes, deu um contributo crucial para a compreensão matemática das transições abruptas e descontinuidades qualitativas em sistemas físicos e biológicos. Sua teoria propõe que mudanças súbitas e drásticas em sistemas contínuos podem ser descritas matematicamente por meio de uma abordagem topológica. Thom aplicou essa ideia a uma ampla gama de fenómenos, desde a biologia até à psicologia, e sua obra é particularmente relevante para a questão da forma dos organismos e dos padrões topológicos invariantes.

A Teoria das Catástrofes de René Thom fornece um arcabouço matemático para descrever como sistemas contínuos e aparentemente suaves podem sofrer mudanças súbitas de estado — as chamadas "catástrofes". Em termos biológicos, isso pode se manifestar como mudanças abruptas de forma ou de organização em um organismo, como durante o desenvolvimento embrionário ou na morfogénese. Essas transições podem ocorrer não gradualmente, mas como saltos qualitativos, onde uma pequena mudança em uma variável controladora (por exemplo, temperatura, pressão ou concentração química) resulta em uma transformação drástica no sistema. Thom identificou uma série de catástrofes elementares, como a catástrofe do ponto de sela ou a catástrofe da cúspide, que descrevem diferentes tipos de descontinuidades.

René Thom usou esta teoria para abordar problemas biológicos, especialmente aqueles relacionados à morfogénese — o processo pelo qual a forma dos organismos se desenvolve. Ele sugeriu que a formação de estruturas biológicas complexas pode ser explicada como o resultado de catástrofes em campos de forças e tensões dentro do embrião em desenvolvimento. Assim, a passagem de uma configuração morfológica a outra (por exemplo, de uma massa de células indiferenciadas para um órgão estruturado) poderia ser vista como uma transição catastrófica. Essa abordagem é particularmente poderosa ao descrever como pequenas perturbações durante o desenvolvimento podem resultar em mudanças significativas e abruptas na forma final de um organismo. Isso nos ajuda a compreender como a invariância topológica é mantida, mas também como ela pode ser alterada de forma repentina quando determinadas condições são atingidas. A teoria de Thom sugere que os padrões invariantes observados em organismos são mantidos através de um equilíbrio delicado de forças e tensões internas. No entanto, quando certos limites são ultrapassados, ocorrem as transições catastróficas, resultando em mudanças estruturais importantes.

Um exemplo na biologia seria o processo de segmentação no desenvolvimento embrionário, no qual o corpo do organismo começa a se dividir em regiões distintas (como segmentos em um artrópode ou os somitos em um vertebrado). Essas divisões seguem padrões topológicos invariantes que podem, contudo, sofrer saltos abruptos em resposta a pequenos distúrbios ambientais ou genéticos. A Teoria das Catástrofes de Thom também ajuda a explicar por que certos padrões e formas são estáveis e invariantes ao longo da evolução. No desenvolvimento de organismos, há uma tendência para a formação de estruturas que são estáveis em face de pequenas perturbações, mas essas mesmas estruturas podem ser vulneráveis a mudanças bruscas quando forças externas ou internas atingem certos limiares.

Thom descreveu esses estados como estruturas morfogenéticas estáveis, que são formas "preferenciais" que o sistema biológico adota porque são robustas em relação a flutuações e perturbações. Em termos de topologia, essas estruturas representam mínimos locais em um "campo de potencial" — o sistema é "atraído" para essas formas estáveis. Além de ser aplicada ao desenvolvimento de organismos, a Teoria das Catástrofes também pode fornecer insights sobre como a evolução biológica pode envolver saltos qualitativos – Transições Evolutivas e Saltos Qualitativos – Tradicionalmente, a evolução é vista como um processo gradual de mudanças acumulativas, mas Thom sugere que mudanças ambientais ou genéticas podem resultar em "catástrofes" evolutivas, onde uma espécie sofre uma mudança abrupta de forma ou função em resposta a uma pequena alteração em um parâmetro crítico. Isso poderia explicar fenómenos como o saltacionismo a que Stephen Jay Gould empregou todas as suas fichas criativas em ciência. Grandes mudanças evolutivas parecem ocorrer de forma relativamente rápida em comparação com o tempo evolutivo normal.

No sentido prático, a abordagem de Thom oferece ferramentas – Modelos Matemáticos de Compreensão da Forma – que ajudam a descrever a emergência de forma e organização a partir de condições iniciais relativamente simples. Por meio de equações que modelam superfícies topológicas e transições de fase, a Teoria das Catástrofes dá uma linguagem rigorosa para descrever como a forma biológica se estabiliza ou muda. Thom via essas mudanças como descontinuidades estruturais em uma superfície suave, como os "sulcos" que aparecem no desenvolvimento de estruturas orgânicas. Essa abordagem nos ajuda a ver que a forma de um organismo não é apenas o produto de forças mecânicas ou químicas simples, mas de um campo de interações complexas que, quando perturbado, pode sofrer mudanças abruptas que parecem desproporcionais às causas que as provocam. Além de suas aplicações científicas, a Teoria das Catástrofes tem implicações filosóficas. Ela sugere que a natureza da realidade (e da vida) pode ser profundamente não linear, com descontinuidades e transições abruptas sendo tão fundamentais quanto as contínuas. Isso desafia a visão tradicional de que as mudanças no mundo são sempre graduais e proporciona uma nova perspetiva sobre a emergência de complexidade e forma na natureza. Em suma, René Thom, com sua Teoria das Catástrofes, forneceu um marco matemático que nos permite entender como transições abruptas e descontinuidades qualitativas podem ocorrer em sistemas biológicos. Sua teoria não apenas ilumina os processos de desenvolvimento e evolução, mas também oferece uma visão de como a vida é moldada por padrões topológicos invariantes, que podem sofrer mudanças dramáticas sob condições específicas. Isso amplia a nossa compreensão tanto da biologia quanto da relação entre forma e função na natureza.

A Integração da morfogénese com a Fenomenologia em Jean Petitot



Jean Petitot, ao dar continuidade ao trabalho de René Thom, aprofundou a compreensão da relação entre a matemática das formas e os fenómenos naturais, particularmente no contexto da fenomenologia e da morfodinâmica. Petitot introduziu uma nova abordagem para lidar com as transições qualitativas em sistemas complexos, levando a teoria das catástrofes de Thom a uma nova direção, ao integrar ideias da física e da fenomenologia, especialmente a fenomenologia de Merleau-Ponty. Isso ampliou o escopo da teoria das formas e transições, conectando-a não apenas à biologia, mas também à perceção e à cognição.

Jean Petitot ampliou o escopo da Teoria das Catástrofes de René Thom ao aplicar seus conceitos de maneira inovadora à percepção, à cognição e à formação de formas no desenvolvimento biológico. A física da fenomenalidade e a morfodinâmica trazem uma compreensão mais ampla de como formas e estruturas emergem, mudam e são percebidas. Ao combinar as ferramentas da matemática com a fenomenologia e a biologia, Petitot ofereceu uma abordagem multidimensional para entender tanto a realidade objetiva quanto a subjetiva, mostrando que há uma continuidade formal entre a maneira como o mundo é estruturado e como ele é experimentado.

Jean Petitot explorou a ideia da física da fenomenalidade, que envolve a aplicação de modelos matemáticos para descrever a experiência fenomenal — ou seja, a maneira como percebemos o mundo e a forma como a experiência se estrutura. Ao adotar a perspetiva da fenomenologia de Merleau-Ponty, Petitot defendeu que os fenómenos perceptuais têm uma base estrutural que pode ser modelada matematicamente. Isso significa que a forma como percebemos as coisas, como a continuidade de um objeto ou a transição de cores, não é apenas uma questão subjetiva, mas segue padrões que podem ser descritos de maneira formal. Petitot argumenta que a percepção humana tem uma geometria própria, e que as estruturas que emergem na consciência podem ser descritas de maneira similar às transições que Thom descreveu em sistemas físicos e biológicos. Dessa forma, a percepção de um objeto ou uma forma é vista como uma transição qualitativa, onde padrões invariantes surgem da interação entre o observador e o mundo. Aqui, a matemática das catástrofes é usada para descrever como pequenas mudanças no estímulo sensorial podem resultar em uma reorganização drástica na percepção — como quando um objeto ambíguo subitamente "muda" de forma na nossa mente.

A morfodinâmica é uma extensão da teoria de Thom que Petitot elaborou para lidar com a complexidade das formas vivas em evolução e desenvolvimento. Ela se concentra em como formas emergem e se transformam dinamicamente ao longo do tempo. Em vez de focar apenas nos estados finais de uma forma ou estrutura, Petitot estava interessado nos processos contínuos de mudança que moldam as formas. A morfodinâmica é essencialmente a matemática das formas em movimento — descreve como uma forma se desenvolve a partir de uma configuração inicial e se transforma em outra ao longo do tempo. Petitot argumenta que essas transições são regidas por princípios físicos e matemáticos que podem ser modelados como campos de forças e fluxos. Ele estudou esses processos no contexto da biologia, mostrando como as forças de crescimento e de desenvolvimento atuam de maneira similar às transições catastróficas de Thom.

Petitot aplicou essas ideias para explicar como organismos desenvolvem suas formas de maneira robusta, apesar de perturbações, e como esses processos podem ser descritos por equações diferenciais e modelos geométricos. A morfodinâmica não só descreve as formas finais, mas também o "caminho" que as formas percorrem em seu desenvolvimento — tanto no nível dos organismos quanto dos processos perceptivos.

Petitot foi pioneiro ao tentar construir uma ponte entre a fenomenologia — a ciência que estuda a experiência subjetiva da percepção — e a matemática das catástrofes. Ele propôs que muitos fenómenos perceptuais, que antes eram entendidos como exclusivamente subjetivos, podem ser descritos em termos de geometria e topologia. Ele argumentou que a estrutura da percepção tem uma base formal que é parcialmente independente das variáveis puramente psicológicas ou neurológicas. Aqui, a fenomenologia se conecta diretamente com a morfogénese. A formação de uma percepção não é uma "imagem" simples do mundo, mas sim o resultado de processos dinâmicos que podem ser descritos usando as ferramentas da física e da matemática. Petitot buscou capturar esses processos em termos formais, sugerindo que há uma continuidade entre a maneira como as formas emergem no mundo físico e a forma como as percebemos subjetivamente.

Assim como na morfogénese, onde a forma de um organismo se desenvolve ao longo do tempo, Petitot sugeriu que a própria experiência perceptual tem uma estrutura temporal dinâmica. Ou seja, nossa percepção das coisas no mundo também passa por transições qualitativas e pode ser descrita por modelos similares aos da morfodinâmica. Jean Petitot foi um dos primeiros a explorar o uso da matemática para descrever não só fenómenos físicos, mas também processos cognitivos e perceptivos. A ideia de que a cognição segue padrões dinâmicos que podem ser modelados matematicamente representa uma nova abordagem na tentativa de descrever a mente. Petitot propôs que a cognição humana, como a percepção, envolve transições qualitativas, onde mudanças pequenas em um input sensorial ou conceptual podem resultar em reorganizações cognitivas significativas.

Um dos aspetos mais inovadores da obra de Petitot foi a tentativa de aplicar a Teoria das Catástrofes a fenómenos psicológicos, como a resolução de ambiguidade perceptual. Ele usou os modelos catastróficos para descrever como a mente pode, por exemplo, alternar abruptamente entre duas interpretações de um estímulo ambíguo (como as famosas figuras de ilusão óptica). Esses "saltos" na percepção são analogias das catástrofes físicas descritas por Thom, mas aplicados ao campo da psicologia da percepção. Em última instância, a obra de Jean Petitot reflete uma tentativa de unir a física, a biologia, a fenomenologia e a matemática – A Continuidade da Forma no Mundo Natural – para entender melhor como formas e estruturas emergem e se transformam no mundo natural e na mente humana. A morfodinâmica serve como uma estrutura para entender a continuidade e a mudança, tanto nos sistemas vivos quanto nos processos cognitivos. Ao integrar as abordagens de Thom e Merleau-Ponty, Petitot trouxe uma nova luz sobre a emergência da forma como um fenómeno fundamental, tanto no mundo físico quanto no domínio da experiência.

A competição Ocidente – Oriente



Creio que o Ocidente, primeiro a Europa, e a seguir a América do Norte, por razões demográficas e outras que me podem escapar, vão perder a hegemonia e passar por uma certa irrelevância durante muitos anos no próximo século. Isso é coerente com as tendências atuais, especialmente no que se refere a fatores demográficos e outros desafios estruturais que a Europa e a América do Norte enfrentam. A baixa natalidade, o envelhecimento populacional e as tensões internas, combinados com crises económicas e políticas, parecem indicar que o Ocidente pode, de facto, perder o protagonismo global ao longo das próximas décadas.

Essa "irrelevância" relativa do Ocidente, também se alinha ao crescimento de potências como China e Índia, que têm as suas próprias pressões internas, mas possuem a vantagem de uma população jovem e crescente. A Rússia, com vastos recursos naturais, pode desempenhar um papel crucial, enquanto os países ocidentais enfrentam o desafio de manter relevância em um cenário em que a economia global e as dinâmicas de poder estão mudando. Além das questões demográficas, há outros fatores que podem contribuir para esse declínio.

O enfraquecimento das instituições ocidentais e a fragmentação política podem diminuir a capacidade de exercer influência global. A União Europeia, por exemplo, enfrenta desafios de coesão interna, enquanto os EUA lidam com divisões políticas que minam sua liderança externa. Está em curso uma Revolução Tecnológica e Industrial no Oriente. A China está na vanguarda de várias inovações tecnológicas, incluindo inteligência artificial, energia renovável e biotecnologia. A capacidade do Ocidente de competir em termos de inovação pode ser desafiada, o que afetaria a sua posição de liderança económica.

Com o Ocidente perdendo influência, países como a Rússia e a China podem formar novos blocos de poder, reorganizando a geopolítica global. Se essas potências formarem alianças com outras regiões emergentes, o Ocidente pode ficar marginalizado. Tudo isto será inevitável. Recorrendo à grelha conceptual dos "sistemas" a "tendência" é significativa, evidencia um padrão. E os ensinamentos da História também nos dizem que as hegemonias no eixo Oriente-Ocidente, têm uma estrutura pendular. É útil a metáfora dos sistemas e a dinâmica pendular histórica para explicar a alternância de hegemonias entre Oriente e Ocidente. A ideia de que o poder global oscila entre essas duas regiões ao longo dos séculos é bem sustentada pelos eventos históricos, como a ascensão e queda de impérios e civilizações, de Roma ao Império Britânico, e agora à possível transição de poder do Ocidente para o Oriente.

Ao observar essa estrutura cíclica, a inevitabilidade do declínio ocidental parece seguir um padrão natural, impulsionado por fatores internos e externos. O Ocidente, com suas conquistas tecnológicas e culturais, parece ter atingido um ponto de saturação, enquanto o Oriente, especialmente com China e Índia, está em ascensão. Essa visão de ciclos históricos e de hegemonias pendulares pode fornecer uma base sólida para compreender não só o declínio ocidental, mas também os desafios que o Oriente enfrentará ao assumir a liderança global. No futuro essa estrutura pendular continuará a se repetir, com um eventual retorno do Ocidente ao protagonismo após alguns séculos. O Oriente manterá essa hegemonia por um período mais prolongado desta vez?

Neste momento não tenho ainda uma ideia clara sobre essa questão. Fico no domínio da grande imprevisibilidade. A imprevisibilidade é uma constante quando se trata de grandes ciclos históricos e geopolíticos. Embora os padrões e tendências possam ser identificados, sempre existem fatores imponderáveis que podem mudar o curso dos acontecimentos de forma inesperada. O próprio avanço tecnológico, as crises ambientais e as transformações culturais são elementos que podem introduzir novas dinâmicas nesse ciclo pendular. Esse reconhecimento da imprevisibilidade abre espaço para múltiplos cenários futuros, e talvez essa incerteza nos desafie a pensar de forma ainda mais flexível sobre os caminhos possíveis para as sociedades globais.

África hoje perante as mudanças climáticas





Muitos países africanos já enfrentam dificuldades económicas, o que limita a sua capacidade de se adaptar às mudanças climáticas. A falta de recursos financeiros, tecnológicos e institucionais significa que esses países podem não ter os meios para implementar soluções como irrigação eficiente, agricultura sustentável ou infraestrutura urbana resiliente ao clima.

Com o aumento das temperaturas, a agricultura — que é uma fonte de subsistência para grande parte da população africana — será gravemente impactada. Secas prolongadas podem levar à perda de colheitas, à desertificação de terras agrícolas e à escassez de água potável. Isso resultará em insegurança alimentar e migrações em massa, exacerbando conflitos já existentes.

O stresse causado pelas mudanças climáticas pode intensificar os conflitos internos e regionais. A luta por recursos como água e terras férteis pode levar a guerras civis, deslocamento de populações e crises humanitárias em grande escala. A instabilidade política em algumas regiões pode dificultar ainda mais a implementação de medidas de mitigação e adaptação ao clima. A África será uma das regiões mais afetadas pela migração climática. Milhões de pessoas podem ser forçadas a deixar suas terras devido à degradação ambiental, buscando refúgio em áreas urbanas ou mesmo em outros continentes. Isso pode gerar novas tensões sociais e políticas, tanto nas áreas de origem como nos destinos dos migrantes.

Apesar do foco crescente nas mudanças climáticas em fóruns globais, muitas vezes as promessas de ajuda financeira e tecnológica para regiões como a África não se materializam da forma necessária. Países mais ricos, historicamente responsáveis por maior parte das emissões de gases de efeito estufa, têm uma responsabilidade moral de ajudar as nações mais vulneráveis a se adaptarem, mas essa ajuda pode ser insuficiente e lenta. Dado o impacto desigual das crises, será crucial observar como as políticas internacionais podem tentar mitigar essas tragédias, especialmente através de financiamento climático e iniciativas de adaptação. No entanto, é trágico que muitas populações possam enfrentar grande sofrimento enquanto os países mais desenvolvidos conseguem superar suas crises.

As boas vontades em ajudar surgirão, mas para sermos realistas não há possibilidade de produzir riqueza de uma dimensão incomensurável A avaliação realista resulta de um entendimento claro das limitações globais. Embora as boas vontades e os compromissos internacionais certamente surjam — e já existem em iniciativas como o Acordo de Paris e promessas de financiamento climático —, a verdade é que os recursos globais são finitos, e a produção de riqueza em uma escala necessária para enfrentar as crises em países vulneráveis, como os da África, é praticamente impossível de ser alcançada com a rapidez e intensidade exigidas.

Mesmo que as economias dos países desenvolvidos cresçam e continuem a criar riqueza, a redistribuição dessa riqueza em uma escala suficiente para compensar as disparidades globais seria politicamente difícil. O apoio financeiro às nações mais vulneráveis pode esbarrar em interesses nacionais, desacordos políticos e resistências domésticas, especialmente em tempos de recessão ou crises internas nos próprios países ricos. A produção de riqueza global, mesmo quando bem-intencionada, frequentemente não chega àqueles que mais precisam devido à ineficiência institucional, corrupção e má gestão em vários países recetores. Além disso, a infraestrutura necessária para distribuir ajuda de forma eficaz pode não estar presente em regiões remotas e empobrecidas. O fluxo de riqueza não é suficiente sem estruturas sólidas de governança e transparência.

Com o agravamento da crise climática, haverá uma competição ainda maior pelos recursos globais, tanto nos países desenvolvidos como nos subdesenvolvidos. A escassez de água, alimentos e energia afetará Norte e Sul global, e isso pode levar a uma priorização dos interesses nacionais e regionais. A tendência será que cada nação cuide de si própria antes de expandir recursos em ajuda internacional. Mesmo quando os países mais ricos oferecem ajuda, essa assistência frequentemente vem com condições, que podem ser políticas ou económicas. Além disso, a ajuda financeira e o desenvolvimento dependente tendem a criar uma dependência crónica em vez de soluções sustentáveis para a criação de riqueza e desenvolvimento local. Essa armadilha da dependência pode, a longo prazo, limitar a capacidade das populações mais vulneráveis de superar suas crises.

Estamos num ponto em que o próprio modelo de crescimento económico está sendo questionado, dado o impacto ambiental e as limitações dos recursos naturais. O "crescimento infinito" em um planeta com recursos finitos é uma contradição que se torna cada vez mais evidente. Isso significa que, mesmo que as economias mais ricas tentem gerar mais riqueza, elas o farão dentro de limites ambientais que podem restringir o volume de recursos disponíveis para ajudar outros países. A divisão económica entre o Norte global (países desenvolvidos) e o Sul global (países em desenvolvimento) é um desafio estruturante que torna qualquer redistribuição de riqueza uma tarefa gigantesca. As crises ambientais, políticas e sociais na África e em outras regiões vulneráveis exacerbam essa desigualdade, dificultando a construção de uma solução inclusiva.

No final, as boas intenções são importantes, mas insuficientes. A solução não virá simplesmente de uma enorme injeção de riqueza global, até porque essa riqueza é limitada e a competição por recursos se intensifica. O mais provável é que vejamos iniciativas regionais, soluções locais e adaptações comunitárias se tornarem cada vez mais cruciais para a sobrevivência e para uma forma de mitigação das tragédias climáticas e sociais. O caminho será de adaptação e acomodação progressiva, mas com limitações severas.